Senti minhas costas pousarem gentilmente sobre algo leve. Me senti extremamente confortável. Me senti em casa. Eu tentei levantar meu corpinho e fixar o caule no chão, mas não consegui, não era forte o suficiente para isso. Tive de permanecer deitado. Não foi um incomodo; o som da floresta me mantinha feliz. Ah, sim, assim percebi que podia ouvir! Era capaz de ouvir o vento correndo, passando pelas folhas lá em cima, sendo cortado pela grama ao meu redor. O som do vento sendo golpeado por pássaros, para que possam permanecer lá no alto, e o som dos cascos de cervos caminhando. Mas eu ouvia algo muito mais curioso. Parecia que alguém cantava. Eu não conseguia imaginar quem poderia ter aquela voz. Eu abri meus olhinhos e, pela primeira vez na minha vida, eu enxerguei. Meu corpo estava sobre algumas folhas de grama, curvadas para me sustentar com conforto, e outras folhas cobriam levemente minha visão. Mas ainda podia enxergar um céu azul forte e claro lá em cima, com o sol brilhando sobre as folhas das árvores. Oh, haviam árvores, a todo lado. Todas altas, todas fortes, todas saudáveis; Todas muito bonitas. Um pequeno cervo estava sobre mim, me cheirando, e alguns pássaros voavam e descansavam sobre galhos.
Mas lá longe, entre as árvores maiores e mais verdes, havia uma árvore bem miúda que estava andando até mim! Não sabia que árvores podiam andar. Tinha um corpo esguio e roliço, um tronco sem casca, apenas de madeira lisa e clara, e vestia uma saia de palha, que se movia a cada passo. E lá em cima, dois galhos longos saíam do tronco, um de cada lado, e ambos era extremamente móveis. Pareciam dançar tanto quanto a perna de um cervo. E sobre um desses galhos, estava sentado um esquilo. Ele era o dono do canto! Aquele esquilo era quem estava cantando para a floresta ouvir. A sua voz era deliciosa de ouvir. Era confortante, era como ser abraçado por longos e gordos braços somente nos ouvidos. E parece que todos os animais da floresta pensavam o mesmo, pois dançavam e cantavam com ele. Os cervos andavam em círculos ao redor de árvores, cantarolando e esfregando seus rostos afetuosamente. Os pássaros, cantavam enquanto voavam, dançando por entre os galhos e folhas das árvores, piando sem medo de não estarem agradando. O esquilo cantava algo sobre o “farfalhar” das folhas. Ele carregava algo sobre a cabeça, um chapéu longo e pontudo, vermelho, e cheio de estrelas amarelas, e sobre o corpo, havia uma pelagem estranha, que mal parecia pelo, cobrindo as suas costas e seus braços. Era vermelho, e também tinha suas estrelas amarelas. Depois de um tempo, ele pulou para o chão, e alguns pássaros o acompanharam, fixando-se no solo e andando com ele. Ele se aproximou de mim, sorrindo, me olhando, andando em pequenos saltos.
- Olá, folhinha! - Vinha balançando as pernas até mim. Quando chegou perto, me perguntou enquanto me erguia do chão e me segurava em suas mãos - Sabe que dia é hoje? Hoje é o seu dia, meu amado. - E então me fixou no chão, prendeu meu caule e eu consegui ficar de pé. O mundo era muito diferente dali de cima. Eu era capaz de enxergar muito melhor os cervos, e o mar de grama ao meu redor. Quando eu consegui me manter assim, em pé, todos os animais se excitaram, e gritaram em satisfação. Todos estavam muito orgulhosos de mim. O esquilo me virou de costas, e eu pude enxergar a mais bonita árvore de todas. Não estava longe de mim. Ela era muito, muito alta. Era reconfortante. Era pacifica. Eu amava aquela árvore, e a sua cor viva. Aquela era a minha mãe.
- Nós precisamos de você. - Disse o esquilo - Ela confia em você, sabe. Ela sabia que você era tudo de que nós precisamos. Vê como não há muito ao seu redor? Não há árvores imediatamente próximas, e o solo está liso - E era verdade - Está pronto para você. Este é o seu lugar - Eu podia ouvir o vento correr ainda pelos céus. Eu o ouvi correr por minha mãe, por entre cada galho, por entre cada folha, e ele trouxe para mim os sussurros dela.
- Não se esqueça: Eu te amo.
O esquilo me levantou, próximo do seu rosto. Os olhos dele estavam bastante molhados. Ele me olhava fixamente, com carinho.
- Acha que está pronto, irmão?
É claro que eu estava pronto. Eu não podia querer mais do que aquilo. Balancei meu corpo, concordei. Foi aí que percebi que a floresta havia se transformado em um silêncio, porque todos os animais voltaram a festejar, cheios de alegria.
- Obrigado. - Disse o esquilo, e me pôs no chão, fixo no solo de novo, e então puxou um pequeno saco de dentro dessa pelagem vermelha. Ele começou a dançar ao meu redor, me rodeando entre pequenos saltos, balançando as pernas com alegria, e a tirar pequenas pétalas de alguma flor arroxeada de dentro desse saco e despejá-las sobre mim. Os animais cantavam sobre as estações, e o esquilo cantava sobre a chuva e sol.
E eu me senti crescer. Aos poucos, eu podia enxergar de mais e mais alto. Eu me senti cada vez mais forte, cada vez mais alto, cada vez mais como minha mãe. Vi meu caule se tornar um tronco poderoso e rígido. Vi meus cabelos crescerem, e se tornarem lindas folhas. Não precisava mais fazer força para ficar de pé, pois minhas pernas se estendiam por debaixo da terra. E pela primeira vez, senti meus bracinhos crescendo, e tendo suas próprias folhas. Eu pude enxergar o mundo de todas as alturas; Pra quem já teve a visão bloqueada pela grama, me deixou feliz conseguir chegar tão alto que pude enxergar grama até o fim do horizonte. Vi os cervos começarem a levantar a cabeça para me acompanhar, e os pássaros terem que voar sobre as folha de algumas árvores. E senti o sol contra mim. Era delicioso. Era caloroso. Era como estar com minha mãe novamente.
Todos os animais da terra dançavam ao meu redor, e todos os pássaros cantavam pousados em meus braços. O esquilo também subiu por meu tronco e sentou-se em um de meus braços, e me fez companhia até o sol descer. Mas quando começou a escurecer, ele disse “Preciso ir.”
- Mas não se preocupe, amigo - complementou - logo voltarei. Sempre voltarei.
E ele sempre voltou. Sim, algumas vezes não pode vir por alguns dias, mas não era problema, pois sempre que vinha, tudo era alegre. Sempre que voltava, dançava para eu ver, com um sorriso no rosto, e era lindo. Eu o vi fazer a mesma recepção para outras pequenas folhas que caíam próximas de mim, o suficiente para eu vê-las. Sempre tive cada vez mais irmãos, e viver sabendo que estavam todos a distância de um olhar, sempre me aqueceu por dentro.
E todo dia começava com o calor do sol batendo no meu tronco, e nas minhas folhas. Todo dia começava amável; Todo dia me deixava alegre.
Data do Término: 06/10/2015
Inspiração: Forget - Pogo
Planejo começar a postar um conto aqui toda terça-feira, de preferência perto do meio-dia! A menos que eu tenha problemas, tá chegando quentinho na terça sempre. E planejando começar a postar uma série de contos no Wattpad, sobre guerreiros fantásticos perante a morte. Se pá começo essa semana mesmo.