A democracia brasileira é algo frágil. Afinal, em todo nosso glorioso meio século de noções europeias bem enraizadas ela quase não esteve presente e, nos momentos que tentou se formar, foi fortemente massacrada por interesses particulares daquela parcela especial da população que nunca vai pegar transporte público na vida. É como se ela fosse algo externo, algo que buscamos incessantemente e, quando achamos que enfim conseguimos agarrá-la, ela se esvai, como uma miragem.
Mas, enfim, não é sobre a institucionalização da democracia que quero tratar aqui, mas sim sobre como a democracia se encaixa no dia-a-dia das pessoas.
Estamos vivendo tempos conturbados. Golpe, ocupações, PEC 55 (ex-241), uma onda (tsunami) de conservadorismo que tenta derrubar qualquer ideal progressista, taxando-o de "esquerdopata", "gayzista" ou "feminazi", enfim, uma época de muitas discussões e ódios distribuídos de um lado para o outro.
Um cenário triste, onde não há diálogo, apenas dois lados se digladiando até o mais forte conseguir dominar e tornar o mais fraco um mero figurante, naquela lógica de opressão que todos conhecemos (se leu até aqui parto do princípio que conheça).
Muito provavelmente você deve estar pensando, "de fato, a direita é sempre extremamente opressora, ela nunca quer dialogar com a esquerda, etc, etc, ect...", mas, vamos com calma. Eu, como aluna de uma das universidades públicas ocupadas, fiquei muito constrangida quando vi meus colegas, que se auto intitulam pessoas de esquerda com ideias progressistas, defensores da democracia, mandarem um grupo de alunos "à merda" depois que estes publicaram uma nota de repúdio à ocupação.
Não me entende mal, não sou contra as ocupações, inclusive, por mim, ocuparíamos Congresso, Câmara, Residência Presidencial (sei que é pura utopia) até barrar esse absurdo que é a PEC 55 que, como futura educadora, me assusta terrivelmente. Entretanto, eu fico me perguntando de que vale essa luta pela democracia, por ser ouvido, por ter voz se, no momento em que alguém discorda de você, recebe logo um "à merda!"?
Vejam, não estou dizendo que a direita é santa. Muito pelo contrário, pra mim eles (uma boa parcela) pecam, e muito, sobre o direito individual de cada um, visando, muitas vezes, o próprio lucro. Estou defendendo o direito deles a ter opinião, dentro de uma lógica democrática, e que aceitem, também, o nosso direito de ter a nossa.
Uma democracia exige a existência dessas ideias opostas, e que ambas tenham o mesmo direito de serem expostas. Sem elas, não há democracia. Enquanto nós, alunos, não aceitarmos que dentro de nossos cursos há um multiverso de diferenças - além das que já lutam para serem aceitas – nunca vamos tornar a universidade um local democrático.
Por isso, antes de acusar o outro de antidemocrático, ou até mesmo de burro, ignorante, etc, etc, se pergunte "Pra quem é essa democracia?".