Carta aberta para a autora que ia escrever uma carta aberta para as pessoas amadas e desistiu
Eu disse que só queria viver até os 30 porque não aguentava mais passar pela vida sobrevivendo e me conformava em ficar apenas na juventude. Eu me odeio. É algo forte para ler, mas é um fato. Eu me odeio. Eu não queria ficar sofrendo feito a fracassada com poucos sonhos fúteis realizados enquanto pessoas menos vividas tem até a aposentadoria planejada. Eu me odeio porque me enfiei em relacionamentos cheios de falta de afeto, e queria chutar o saco de todos os meus ex, porque sinto raiva deles e do que fizeram comigo. Sinto mais raiva ainda de mim porque me sinto apenas um objeto não tão valioso, apenas sirvo para algo, mas não para ser amada.
A verdade é que sinto uma inveja de ver pessoas vivendo, saindo, curtindo, com dinheiro na conta, realizando sonhos, com casa própria ou vivendo até uma vida nômade, mas vivendo bem enquanto eu me sinto perdida e confusa. Tudo o que eu almejo parece ser caro demais, longe demais, beirando a ser impossível ou questão de sorte. Estou cansada de viver na insegurança do medo, mesmo levando a frase "a única constante é a mudança" e colocando fé nessa frase de que eu não devo ter medo do que está por vir. Mas eu estou. Estou cansada mentalmente, fisicamente, literalmente, qualquer e todo estado de cansaço possível.
Eu disse que me suicidaria aos 30 quando tinha 18 anos, coloquei critérios e metas, mas não alcancei nada do que queria, até porquê esses desejos também mudaram ao longo do tempo. Não achava necessário estar aqui depois disso que é só velhice e cafonice. Tudo não parece ter sentido, seja o amor, o sucesso. Aqui eu estou no pé dos 30 escrevendo sobre a crise que estou, ouvindo Breezeblocks do alt-J que está desde 2016 em minha playlist mais antiga do Spotify.
Estou me agarrando a esperança diária, procuro enxergar a beleza dos momentos simples, no café, no diálogo das pessoas no trabalho, nas amizades, nas relações em geral. Procuro me agarrar entendendo que tudo passa, que todo dia existe uma nova possibilidade, todo amanhecer não é igual a ontem. Nada é igual a um segundo atrás e acho que é por isso que ainda não morri.
Todo dia eu me mato e revivo sentimentos dentro de mim e faço deles minha força para conseguir sobreviver a violência que é viver. Eu planejei escrever uma carta de suicídio à mão para cada pessoa querida falando o quanto a amo, mas tinha que partir e desisti. O motivo ainda não sei, pode ser que não saber o motivo seja uma boa justificativa para não ter partido.
Eu não sei lidar com sentimentos bons, porém agradeço por eles. Não sou uma ingrata. Não sei lidar com relações saudáveis, mas as valorizo, faço questão de que as pessoas que estão comigo saibam o quanto eu as aprecio, mas eu também não sei lidar, não sei presentear, me sinto uma pessoa extremamente podre nesse sentido. É como se eu tivesse sempre que pagar algo de volta, como se eu tivesse uma eterna dívida com a pessoa. Mas tento não pensar muito, porque tenho vontade de cortar todo mundo da minha vida e me isolar (é mais fácil).
Ainda é muito difícil pra mim tentar entender a vida tendo ciência de que não tenho controle sobre tudo. É difícil controlar meus próprios medos e receios. É difícil ter que lidar com pessoas, ainda é difícil aceitar os erros, é difícil aceitar que tive um passado e que ele me fez estar onde estou agora. É difícil aceitar que o meu presente determinará meu futuro. É difícil aceitar os ciclos encerrados e aceitar até mesmo quem entrou na minha vida agora. É difícil. Até mesmo escrever esse texto de uma forma que faça sentido é difícil. Na minha cabeça ele faz sentido, mas não sei como o receptor vai entender.
Penso muito, penso em tudo, mas no geral todos os pensamentos tem me dado uma grande parcela de angústia. Penso nas inseguranças do futuro e não tenho ânimo. Queria uma expectativa boa pra isso. Mas não consigo. Vou tentar dar os passos pra saber se esse caminho vai clarear ou escurecer mais. Tentarei ser mais positiva com esses pensamentos sobre "dias melhores virão" baseado em minhas novas experiências, com fé no tempo, que sempre passa.