Marcel Duchamp by Espaço Húmus
Diferente de seus talentosos irmãos, Marcel Duchamp (1887-1968) não foi aceito em sua primeira admissão à Écola des Beaux-Arts; era estranho demais, irônico demais. Um entusiasta em fazer tirinhas satíricas para vários jornais. Pintou quadros com influências do cubismo e do expressionismo. Duchamp, entretanto, não é conhecido por suas tiras, nem por suas incursões em movimentos de arte, embora fundamentais para se entender o desprendimento delas. Ele se tornou um ícone por um urinol.
A arte como estética, imóvel, para ser apreciada, sempre incomodou o artista francês, embora ele tenha começado com a pintura. Não demorou muito para que o Cubismo – e sua desconstrução de tudo o que já havia sido pintado – chamasse sua atenção. O Cubismo de Duchamp, entretanto, não era como o de Picasso. Era necessário movimento e transgressão. O quadro “Nude Descending a Starcaise” foi sumariamente rejeitado pelo Salon des Indépendents, que alegou que o quadro fazia piada com o estilo cubista. Não era uma piada, era uma injeção de vitalidade. A pintura, diferente de suas companheiras de estilo, era dotada de movimento e energia. Duchamp logo percebia que não queria mais criar uma arte apelativa apenas para os olhos. Era necessário transgredir mais.
E nasce então o longo processo de The Bride Stripped Bare by her Bacherlos, Even, ou como é conhecido, The Large Glass. A obra inacabada e bela consiste duas lâminas de vidro entrecortadas por figuras abstratas, germinantes de significados, feitos de cabides, tecidos, moinhos de café, dispostas de formar circular. Uma obra enigmática. A arte como geradora de conflito, não somente como algo a se pendurar na parede e a se olhar esporadicamente.
Mas foram os “Readymades” que tornaram Duchamp sacudir as estruturas da arte contemporânea. As obras consistiam em apropriação e retirada de objetos e sua ressignificação como objeto de arte. Pode-se fazer arte de um urinol? O objeto escatológico, pouco atraente, chocou quando foi enviado para exposição, em 1917. Sob o pseudônimo de R. Mutt, Duchamp deu a ele o sugestivo nome A Fonte. Rompidos com uma pálida louça séculos em que se pensou que somente o artista e seu talento inato eram as condições possíveis de se nascer arte. A arte brota da roda que gira, do novelo de lã encerrado, das curvas sinuosas de um mictório.
Duchamp calmamente retirou-se do meio artístico para dedicar-se a jogar xadrez em meados dos anos 1920. Mas o rebuliço já estava feito, e nada mais seria apenas pincel e tela. “O que eu tenho em mente é que arte pode ser ruim, boa ou indiferente, mas, qualquer adjetivo que seja usado, nós devemos chama-la de arte, e arte ruim ainda é tão arte quando uma emoção ruim ainda é uma emoção”.
Fountain, 1917
Bicycle Wheel, 1913
Bottle rack, 1914
L.H.O.O.Q Mona Lisa, 1919















