CAPÍTULO 13 - YOU ARE A PIRATE!
A imagem que eu via na tela do computador me deixava furiosa comigo mesma, com a Clari por também estar chapada e não me impedir, com os moleques de ontem por terem nos dopado com ecstasy e só ter avisado quando a gente acordou dentro do carro deles e principalmente com o filho da puta que colocou o vídeo da internet.
Os garotos de ontem tinham deixado a mim e a Clari cedo no apartamento, mas nós não nos lembrávamos de nada do que havia acontecido na noite anterior. Chegamos no quarto dela e capotamos na cama. Quando deu quatro da tarde, o Caio foi perguntar o porque de eu não ter ido a escola, quando recebeu um link por SMS de um numero restrito.
- Cara, que música é essa que cês tão cantando? – Perguntou Caio, arqueando a sobrancelha enquanto olhávamos pela milésima vez o vídeo.
“ Do what you want ‘cause a pirate is free,
Yarg, yarg, fee dodo deh,
Being a pirate is all right for me,
Do what you want ‘cause a pirate id free,
Eu e Clari cantávamos isso sem parar. Agora imagina: Duas meninas dançando isso ao redor de uma fogueira. As duas com o cabelo completamente bagunçado e descalças, dançando sensualmente, enquanto três meninos olhavam achando graça... Isso ai que 7.500 pessoas já tinham visto no youtube. Além disso, ainda tinha umas partes de beijo triplo, muita pegação e cabelo queimado na fogueira que eu prefiro nem detalhar.
- Cara.... teu cabelo tá da hora All! – Disse Caio, sem saber mais o que poderia falar para me acalmar.
Eu o fuzilei com uma intensidade tão imensa que ele se encolheu.
- PUTA QUE PARIU! ESSE FILHO DA PUTA TÁ DESTRUINDO A MINHA VIDA! – Gritei tão alto que o pessoal do quarto a frente saiu para ver o que estava acontecendo.
Enquanto eu pirava, a Clari estava deitada na cama, cantarolando uma música do The Smiths. Eu me sentei no chão e passei a mão no rosto. Olhei para a tela do meu celular e vi que haviam quatro mensagens e cinco ligações perdidas. Duas mensagens eram do Ítalo, perguntando se eu estava bem e tudo e as outras duas (e as cinco ligações) eram todas do Mitri, pedindo para que eu o ligasse assim que possível. Me deitei no chão, eu não estava querendo falar com ninguém, então a única coisa que fiz foi mandar uma mensagem para o Zé falando que eu estava com problemas e que não iria poder aparecer a noite.
Caio se deitou ao meu lado e começou:
- Eu não sei o que dizer All, desculpa.
Senti ele balançar a cabeça ao meu lado.
- Se te serve de consolo, eu nunca mais quero comer a Priscila.
Eu não pude deixar de rir um pouco ao lembrar do barulho que os dois fizeram na última noite.
- Porque não? – Perguntou Clari irônica, saindo da vibe dela de The Smiths.
- Ela é um monstro! Ficava me batendo e gemia que nem doida. Eu tô todo roxo! Se eu tirar a camisa fora daqui, o pessoal vai dizer que eu entrei em briga de bar... Mudando de assunto, o que cê fez no cabelo da All? – perguntou a Clari – E como ela deixou? Ela é cheia de frescura com o cabelo.
- Ela não falou nada não. – Clari deu de ombros. – Porque, cê não gostou?
- Ficou legal, só que não parece... a All...
- É verdade. Mas ficou bom assim, eu gostei.
Nós não falamos mais nada. Eu fiquei pensando o quão filho da puta uma pessoa poderia ser a ponto de me perseguir só para colocar vídeos como aquele na internet. E era só para me atingir, porque o rosto de todo mundo estava censurado, menos o meu e o da Clari. E eu não entendia como ela não podia ligar para o que estava acontecendo. Quer dizer, agora ela também estaria mal falada, assim como eu. Eu tinha era medo de ver os comentários desses vídeos, nessa cidade tem um grupo de evangélicos loucos que provavelmente devem estar acabando com a minha raça por lá. Com certeza estão me chamando de capeta enrustido, filha do satã, entre outros...
Eu estava lá na vibe da minha vida, totalmente melancólica e distraída, quando do nada o Mitri brota de não sei a onde e começa a gritar comigo:
- Que merda de vídeo é aquele? – perguntou alto.
Meu coração acelerou. Eu levantei e coloquei a mão na testa, assustada. Olhei para o Mitri e por uns três segundos pareceu que ele ia se desculpar, mas logo fechou a cara novamente.
- FILHO DA PUTA, TU QUER ME MATAR É ? – Perguntei, falando um pouco alto de mais por conta do susto.
- Velho, beijo triplo, sério mesmo?!
- E desde quando é da tua conta? - Já tava puta com o susto que ele me deu, ainda vem tentar tirar satisfação? Não mesmo.
Ele passou as mãos nos cabelos. Parecia realmente nervoso, como se eu tivesse sei lá, colocado fogo na casa dele ou algo do gênero. Não que fosse muito certo beijar duas pessoas ao mesmo tempo, mas não era tão ruim como ele fazia aparentar, certo?
- É, Mitri. – Concordou Caio – Desde quando tá tão interessado na vida dela? Deixa isso quieto cara. Ela me falou que os caras deram ecstasy pra elas e tal, por isso aquela confusão.
Ele ficou em silêncio por um tempo e depois assentiu.
- Ecstasy é foda. – Comentou. – mas ei, tem alguma ideia de quem esteja colocando os vídeos?
- Deve ser a Luana cara, - Disse Caio, respirando fundo – Aquela vadia mimada.
Suspirei e voltei a mexer no meu celular. Olhei a data: 12/06.
- Gente, hoje tem algum aniversário?
- Não, porque? – Clari se interessou.
Eu levantei novamente e disse:
- Cara, hoje é dia dos namorados.
Me vi impressionada com a minha falta de atenção. Ano passado o dia dos namorados era o mais importante para mim. Eu fazia as melhores festas sempre, e todo ano tinha o melhor namorado, isso acontecia desde os mus treze anos, mas esse ano já não parecia ter tanta importância. Na verdade, estava parecendo uma coisa bem idiota.
- Shi, esse ano não vai ter a festa da All de dia dos namorados. – Caio falou o obvio.
- Tu fazia essas festas? - Clari se sentou do meu lado e revirou os olhos – Que merda.
- Ela era a Rainha dessas festas... – Observou Caio – Ela era o centro da popularidade para o lado sul. Todo mundo a conhece por lá, o que eu nunca entendi bem, porque ela sempre morou para o norte. Acho que era por causa da escola ou sei lá. Ela era toda escrota uns tempos antes e andava com um bando de patricinha.
- Ei! Eu não era escrota!
Os três me olharam com um ar de irônia.
- Ali, a algumas semanas atrás você falava “cigarro de maconha” – Falou Clari, fazendo com que eu percebesse o quão idiota aquilo soava.
- Vem sim! – Os três falaram juntos.
- Desculpa então! – coloquei as mãos ao alto como quem se rendia – eu ein.
Nós começamos a rir. A Clari estava mais feliz que de costume. E quem não estaria na situação dela? Ela recebeu a ligação de um namorado antigo que morava na Suiça, mas tinha voltado para passas uns dias aqui. Só não tinha entendido o porque de ela não ter falado nada para os meninos. Bem, eu que não iria comentar, esse era um problema dela.
- E então, o que a gente vai fazer hoje? – Perguntou Mitri – Já que somos um tanto desprovidos de “parceiros do sexo oposto” – falou ele, imitando voz de locutor de rádio.
Eu tentei segurar o riso, não teve graça, mas foi engraçado. Entende?
- Tem a festa da Luana... – Caio comentou.
- Claro, porque ela me adora e super vai me deixar entrar... – ironizei.
- Vai ser uma festa fantasia, ela não vai te reconhecer.
- A Ali não pode hoje. Ela vai sair comigo. – Clari falou, decidida.
- Vai? – Mitri se surpreendeu.
- Eu vou?! – A verdade é que nem eu sabia... Vi ela me olhar com olhos de quem vai chorar se não conseguir o que quer e eu não resisti – Eu vou. – suspirei.
Ela abriu um sorriso e sussurrou um “obrigada”.
- E onde cês vão? – Questionou Caio, arqueando a sobrancelha.
- É clari, onde nós vamos?
- Um amigo meu chegou da Suiça esses dias e quer nos levar para uma festa...
- Não é aquele teu ex não né? Como é o nome? Jorge, Júlio...
- Ah não, vocês não vão. – Começou Caio, agora entendi o porque de ela não contar a eles. – Aquele cara é treta demais, nem fodendo.
- Ah para, cê tá falando isso porque nunca gostou dele!- Clari o contrariou.
- Claro, porque ele nem te traiu né... – Retrucou ele, sarcástico.
- Isso não é da sua conta. A gente vai e pronto.
- A All não vai. – Concluiu ele.
Eu até poderia ter concordado, ter dito “Não, deixa pra lá Clari”, mas só porque o Caio falou como se mandasse em mim, eu ia.
- Pois eu vou sim. Inclusive, eu e a Clari vamos nos trocar, então saiam os dois.
Disse eu decidida, me levantei e abri a porta para que os dois se retirassem.
Jordan Fonseca era bonito, simpático e muito rico. Perfeito?! Minha vida toda lidei com garotos como ele, e eles nunca são perfeitos. Sempre tinham um mal costume ou algo do tipo.
Ele vestia uma camisa polo lacoste, calça jeans da taco e tênis também lacoste. Tudo nele gritava “Eu sou rico e foda, me amem”. Não gostei nenhum pouco dele. Estávamos esperado a Clari terminar de se maquiar, então ficamos eu e ele sentados na cama e entre nós um clima terrivelmente tenso.
- Então... Como é a Suíça?
- Muito agradável. Mas senti falta daqui... E da Clari também. – Ele falou com ênfase na ultima frase.
Não precisava ser nenhum desiludido para saber que ele só tava afim de comer ela e antes de ele chegar eu já a tinha alertado disso , mas gente apaixonada nunca escuta, então...
- Pronto! – Disse ela, saindo do banheiro e abrindo um largo sorriso.
O carro dele estava estacionado na frente da república. Um carro muito bonito. Eu não entendia mito bem sobre isso, mas podia dizer que era uma BMW pois meu pai tinha um carro com a mesma marca na frente e meu irmão vivia falando que “um dia também teria uma BMW”. Eu fui no banco e trás, Clari na frente e Jordan no banco do motorista, claro.
- Primeiro vamos visitar um amigo ali, e então a gente vê o que fazer depois. – Ele deu um meio sorriso e ligou o carro.
Eu fiquei sobrando, como já era esperado. Eles estavam falando de alguém chamado “Jorge” e de vez em quando, Jordan soltava coisas como “Você está muito bonita” ou “Nossa, você mudou muito ein?! Está mais perfeita que antes” e os olhos dela cintilavam ao ouvi-lo. Ridículo. Em todos os meus anos de namoro, aprendi duas coisas bem interessantes: Seu ex-namorado nunca vai ficar seu amigo e namoro é treta. Você sempre se preocupa demais, fica muito sensível e acaba se fodendo. Sempre assim!
Os dois flertando já estava me dando nojo, então quando percebi que ele estava parando o carro, agradeci a qualquer ser superior que existe.
Ele parou na frente de um beco e mandou a gente descer. Lá tinha uns caras bem mal-encarados. Eu não estava nenhum pouco a fim de descer, e nem iria, mas Clari já tinha ido e eu não ia deixar que ela ficasse lá sozinha.
Ficamos em pé ao lado do carro enquanto Jordan foi conversar com dois caras.
- Ele mudou... – Clari soltou.
- Sei não Clari, ele é bem estranho..
- Não sei porque você acha isso.
- Uma coisa que eu bem entendo é mauricinho rico. Garanto que tem algo errado.
Ele veio com um largo sorriso em nossa direção, acompanhado do amigo estranho.
- Essas são a Clari e a Alice. – Ele passou a mão pela cintura da Clari e beijou sua bochecha.
Ela o olhou com uma careta.
- A gente vai embora, te esperamos na lanchonete ali na esquina. – Falou Clari, e segurou meu braço.
- hmmm, essas dai vão dar gosto de pegar. – o cara escroto nos olhou da cabeça aos pés.
- Que-porra-é-essa? Vai pegar tua mãe porra!
- Bonitinha e teimosa, assim que eu gosto. – Ele sorriu para mim, o que me deu uma puta ânsia e depois vrou-se para Jordan – O carregamento vai tá na tua casa amanhã de manhã e tu já pode levar para os gringos. – Ele gargalhou – Galera, podem vir pegar a mercadoria! – gritou para os homens mal encarados de antes.
Mercadoria? Olhei ao redor. Que porra de mercadoria? Foi aí que percebi uma mão no meu braço e fui de encontro a um corpo suado e mal cheiroso
- Ei mano! – a Clari estava ao meu lado enquanto vários gomens passavam as mãos nela e ela distribuía tapas.
Senti mãos pelo meu corpo, me apertando. O Cara escroto que antes falava com Jordan agora tentava beijar meu pescoço. Fiz força para tentar me soltar.
- Me larga, filho da puta!- Gritei, o que só serviu para eu receber uma bofetada na cara que me deixou desnorteada.
Jordan filho da puta, eu ia matar esse cara, na boa.
- POLÍCIA, POLÍCIA! – Alguém gritou e um jato branco foi bem na cara do homem que me segurava. – TODO MUNDO NO CHÃO!
- PARA O BEM DE VOCÊS! – reconheci aquela voz e ri internamente.
Fui jogada no chão e o cara, juntamente com todos os outros, correram feito lucos.
Ouvi a risada dos dois meninos que tinham acabado de salvar nossas vidas e me virei.
- Puta que pariu, viu a cara deles? – O Caio gargalhou.
- Como se policiais usassem extintores. – O Mitri observou entre risada.
- E o que cê tinha na cabeça? Te avisei que ele não era boa coisa. – Eu vi o Caio falar para Clari com tom de seriedade, enquanto eu levantava do chão.
- Velho, como eu ia saber que ele ia tentar me prostituir?!
- Sabia que ele não era confiável!
- Gente... – tentei interromper, mas Clari só levantou a mão me mandando ficar quieta.
- Você deveria ter me ouvido! – Caio gritou.
- Porque você é o senhor da razão, certo?!
- Galera!- falei mais alto – a gente tem que ir!
- PORQUE? – Os dois gritara para mim.
Apontei para frente para que eles vissem os homens voltando com o rosto todo branco de pó do extintor e muito bravos.
- Ok, eu vou atrasar eles e Caio, você tenta fazer ligação direta. – Falou Mitri, apressado.
- Não, deixa que eu tento. – Eu falei – Eu sei fazer. Vão lá.
Os dois assentiram. Eu e a Clari corremos para o carro, ela entrou no baco traseiro e eu fui para o do motorista. Fiquei olhando perplexa enquanto o Caio dava um chute no saco de um dos caras e Mitri batia em todo mundo com o extintor.
- Alice, anda! – Gritou Clari, me acordando.
Tomei um susto e comecei a procurar o painel de controle. Ficava um pouco a baixo do volante. O abri e olhei para os fios. Fazia muito tempo que eu não tentava fazer isso. Qual dos cabos que conectava mesmo?! Anda Alice, se lembra...
- CARALHO ALICE, LIGA LOGO ESSA PORRA! – gritou Clari, ainda mais alto
- CASETE, EU TO TENTANDO!
Sai tentando conectar vários cabos até conseguir lembrar quais eram os certos. O carro pegou e eu, pela segunda vez no dia, agradeci a qualquer ser superior que existisse por me fazer lembrar.
Os meninos entraram no carro e eu pisei fundo, mas não foi tão rápido. Olhei pelo retrovisor e a única coisa que consegui enxergar foi um extintor de incêndio voando e acertando o vidro de trás do carro, eu gritei e quase perdi a direção, mas respirei fundo e acelerei mais.
- Tá tudo sim! – respondeu Clari.
- A gente não terminou aquela discussão! – Começou Caio.
- Cala a boca Caio! – Gritou Clari.
Eles dois pararam de falar. Olhei para trás por alguns segundos e pude ver de relance a Clari e o Caio se pegando.
- Vishi, isso é treta. – Comentou Mitri.
- O que? – perguntei, desacelerando aos poucos;
- Os dois, quando ficam juntos é terrível.
Eu comecei a rir. Respirei fundo e assim também fez o Mitri.
- Sabe.. – Ele começou – Eu queria ser terrível assim com alguém.
Não pude deixar de olha-lo e arquear a sobrancelha.
- Isso tudo ai é treta. Sempre foi... É melhor sozinho, ninguém se machuca.
- Como você sabe que da próxima vez não vá da certo?
- Porque nunca dá. Sou eu o problema. – Eu ri.
Olhei para o céu. Estava uma noite bonita e posso afirmar, foi o melhor dia dos namorados que eu já tive, e eu nem precisei de um namorado.