Post 10 - Diário do Caminho de Santiago de Compostela - Etapa 3 - Parte 3
Dia 3 – PARTE 3
Data 01/05/2017
Etapa: Castiblanco de los Arroyos à Almadén de la Plata, Espanha
Distância: 29,5 km
Tempo: sol -> sol -> sol
Admito, inicialmente, eu (não-santo) havia pensado (pré-julgado) que a dinamarquesa estava numa corrida em vez de uma caminhada, e com tudo que a tecnologia permite para torná-la menos dura. Apesar de não ter dito em meus relatos anteriores, ela sempre demonstrava pressa, que ela queria fazer mais de uma etapa por dia (e eu sofrendo com uma, pense 2!!!). No entanto, ao escutar seu relato, mudei meu olhar sobre ela e me atentei ao consciente míope que tinha (sigo tendo).
Vi a dinamarquesa pela primeira vez há 36 horas, passei no máximo 7 horas próximo dela e não mais de 2 horas conversando. É, o estado de espírito com que os peregrinos chegam aqui é diferente. Não há tempo para nos abrirmos como torneiras, no caminho, somos represas. E quem diria que tudo começou com uma péssima piada, minha, de empilhar pedras no caminho.
Os 2 senhores terminam seu vídeo, colocamo-nos em marcha por mais um breve tempo. A “rampa” estava diante de nós, decidimos fazer mais uma breve parada antes do Calvario com seus 100 metros de subida com intensa inclinação.
Antes de começar, o holandês chato passa por nós com velocidade, agora ele possuía bastões “naturais” feitos com 2 galhos compridos e grossos. Acenos de cabeça, sorrisos amarelos e vá...
Não havia mais o que esperar, o calor era forte. O céu estava límpido num azul anil. A rampa era de terra e pedregulhos. Cada um no seu tempo, começamos a subir. Engatamos a primeira, lentamente e sem parar.
Já estava suando pela milésima vez, calça comprida, manga comprida, boné, bota, cachecol esportivo no pescoço e óculos de sol nos olhos. Parecia loucura toda essa vestimenta num dia tão quente, mas já havia visto o que o sol poderia fazer no dia anterior ao ver o holandês das “mangas” vermelhas.
Escrevendo essas memórias agora, não sei o que me passou na cabeça naquele momento, só sei que foi um suplício. De longe, a mais difícil etapa do caminho de la Plata. 2 subidas intensas, trecho longo no asfalto e sol do começo ao fim. Embora o corpo (e o pé direito) estivessem cansados pelos quilômetros percorridos e o desconforto no corpo que pedia por um banho urgentemente. Bem, eu lembro de uma coisa que pensei, e pensei sem parar. Repetia para mim mesmo meu mantra mental, e muitas vezes vocal, “um passo por vez, uma etapa por dia”. Por sorte, estava com meus bastões de caminhada que ajudaram a distribuir o peso da ascensão.
No meio da subida, um dos senhores aponta para uma placa. Leio e não creio. A moral foi temporariamente para o chão. Tiro meu boné em respeito e faço uma reza. A placa dizia que ali, anos antes, um senhor havia falecido enquanto realizava o caminho de Santiago. Logo mais saberia o que ocorreu para que seu caminho na vida terminasse assim, mas não vou pular a ordem dos fatos.
Concentração, mantra, bastões, calor, grupeto, o que teria acontecido com esse peregrino que sucumbiu, subida, sol, tec, tec, tec, vejo uma estrada ou trilha mais larga. Não sei quanto tempo se passou, mas passou. O Calvario havia sido deixado para trás, a inclinação amedrontava, no entanto, sua brevidade foi uma benção.
Meus companheiros de caminhada naquele dia já estavam com outro semblante olhando para o horizonte, além de um estranho estar por ali também. Enfim, chegamos ao final do Calvario e, para celebrar, fomos agraciados com uma magnífica vista do parque de um lado dele e com a vista da cidade “branca” do outro. Neste ponto, havia um mirante com um painel mostrando o parque e seu pontos principais.
Aproveito e tiro uma foto (foto). Meus companheiros de grupeto decidem tirar uma selfie dos 2 lados (essas fotos eu não tenho, preciso pedi-las ao holandês fotógrafo).
O homem estranho estava fumando enquanto admirava o local. Possuía uma aparência jovem e cabelos compridos além de roupas escuras. Então percebi, era um peregrino também pois vi sua mochila cargueira não muito longe dele. Ao ver que éramos todos “iguais” neste caminho, ou seja, peregrinos, o estranho deixa de ser estranho ao se apresentar e indica sua nacionalidade, suíça.
Depois de mais alguns minutos apreciando a vista que tínhamos à nossa disposição, decidimos descer até a cidade “branca” que se encontrava ao pé deste morro, porém, em sua outra face como dito anteriormente. Sim, enfim chegaríamos a cidade-destino do dia chamada Almadén de la Plata.
Como dizem em terras brasileiras, para descer, todo santo ajuda. No caso, o santo São Tiago e a gravidade (não se engane, descidas demandam muito das panturrilhas, não deixe de usar seus bastões de freada, digo, caminhada).
Enquanto descíamos, os 2 senhores (o alemão e o holandês fotógrafo) que me acompanhavam me avisaram que gostariam de pegar uma pousada privada após 2 dias duros. Sem dúvida, como iria ver futuramente, há suas vantagens ao se pagar um pouco a mais.
Andávamos por vielas estreitadas por casas pintadas de branco neste trajeto em queda livre. Logo entenderia o porquê da cor uniforme das casas. Era óbvio. O guia impresso do senhor alemão indicava uma pousada privada logo à frente. Chegando lá, uma placa dizia: sem vagas. Ficou claro que independentemente do que meus colegas queriam, o caminho, ou a vida, queria outra coisa. O caminho nos levara ao albergue municipal.
Seguimos as flechas até o centro da cidade, se é que podemos chamar de cidade. Era um vilarejo com algumas centenas de casas, por mais que elas fossem coladas parede com parede, ainda assim não eram muitas.
Chegamos no que deveria ser o centro da Almadén de la Plata com sua igreja igualmente branca. Então percebi um som estranho e ensurdecedor vindo dos ares. Parecia bambus rangendo. Aqui? No meio do vilarejo? Bambus? Aí que a dinamarquesa apontou para a torre da igreja, ninhos de cegonhas. Informaram-me que nesta época do ano, as cegonhas migram e decidem fazer seus ninhos em lugares altos como torres de igrejas. Não contei, mas deveria haver uma dúzia delas, talvez mais. Não sei se o som sai da garganta ou se é do bater dos longos bicos, talvez os dois juntos, mas o que posso dizer é que o som muito alto, principalmente quando dezenas delas fazem juntas amplificadas e ecoadas pelas paredes das vielas.
No caminho para o albergue municipal já víamos os demais peregrinos em mesas de bares e restaurantes descansando, comendo e bebendo. Como reconhece-los? Trajes, traços e idiomas. Primeiro, ninguém anda com sandálias com meias nos pés e roupas de acampamento no meio da tarde, digamos que não seja muito fashion. Segundo, basta olhar os traços físicos das pessoas, olhos, cor de pele e cabelo, porte físico. Não quero generalizar, mas principalmente em vilarejos, tende-se a ver uma menor mistura do povo local com outras nacionalidades. Terceiro, e último, o volume das conversas. Basicamente, há mesas com pessoas “mudas” e outras com megafones. Na primeira não-espanhóis e, na outra, os locais.
Não faltou muito para chegarmos à frente do albergue municipal. Ele era grande com 2 andares e tinha um formato em L pegando a esquina entre 2 vielas. Posso estar enganado, mas me pareceu que este prédio foi adaptado, não sei se foi um antigo colégio ou hotel.
Entramos na recepção, havia um balcão vazio. Ficamos perdidos porque não havia alguém para nos receber, dizer as regras do lugar e, sim, carimbar nossa credencial de peregrino (não sabia eu que essa ausência do cuidador era mais comum do que o imaginado). Um peregrino já instalado, passou por nós e nos informou que a cuidadora do albergue chamada Nieves voltaria mais tarde, numa dada hora, perto das 6 da tarde. Até lá, poderíamos deixar nossas pesadas mochilas e bastões no alojamento.
Brevemente, vejo que “todo mundo” da minha onda de peregrinos (saídos de Sevilla 2 dias atrás) estava lá. O coreano com equipamentos high-tech, o holandês das mangas vermelhas e alguns outros rostos conhecidos de desconhecidos. Eu sei o que você, leitor destas memórias, está se questionando. O holandês chato estava lá? Ainda não, mas não levou muito para ele aparecer.
Antes que eu me esqueça, o albergue possuía a seguinte disposição física. Entrando pela recepção, os banheiros e chuveiros ficavam à esquerda da recepção. À direita um corredor que levava às escadas do segundo andar. À direita novamente, alojamento com dezenas de beliches para os homens. À esquerda, o espaço que deveria ser uma cafeteria com muitas mesas redondas, um balcão para buffet, uma porta que deveria levar para a cozinha e uma máquina de refrigerante e snacks para os que planejaram mal no quesito comida ou para o petisco fora de hora. À esquerda da entrada da cafeteria, havia mais uma porta levando para uma despensa ou parte da cozinha que, então, levava ao átrio interno onde poderíamos ter acesso ao tanque de lavar roupas e o varal. No segundo andar, havia o alojamento para mulheres e outros mais, caso o alojamento debaixo enchesse.
Tínhamos algumas horas até a vinda da cuidadora do albergue, o que fizemos? Sim, tomar uma caña (copo de cerveja pequeno, provavelmente 200 ml) num bar do vilarejo. Tal prática já estava se tornando um costume. Todo o grupeto concorda, voltamos até perto do “centro” para parar num bar que havíamos passado pouco antes no caminho ao albergue. Pegamos uma mesa no lado de fora, assim como outro grupo de espanhóis que falavam alto, nível megafone. Pegamos nossas cervejas, radlers e tudo o que tinha direito. Ficamos ali papeando, bebendo e esperando o tempo passar. Pressa? Aqui não é o lugar para isso.
Aproveito o momento para conversar com o suíço. Ele deveria ser um pouco mais jovem que eu, falava tantas línguas que eu nem lembro mais. Italiano, alemão, inglês e espanhol (não me recordo se francês também). Ok, quem conhece a Suíça sabe que lá o povo é ao menos trilíngue. Como nos comunicamos? Por incrível que pareça, terminamos nos falando em espanhol, pois ele havia passado não sei quanto tempo viajando pela América do Sul e queria conversar na língua de Cervantes.
Nesse ínterim, a dinamarquesa conversava com os 2 senhores que me acompanhavam desde ontem. Depois saberia que ela iria de fato fazer 2 etapas num único dia amanhã de manhã (e em outros) para poder se encontrar com uma amiga no meio do caminho. Como suas agendas não fecharam, a dinamarquesa decidiu começar do “começo” e acelerar o quanto pôde para se juntar à sua amiga em algum ponto no futuro. Acredite, isso é bem comum. Iria conhecer outra pessoa bem mais para frente que estava na mesma “corrida”. Seu companheiro não dispunha de tanto tempo para fazer tudo assim como ele.
Por vezes você deve pensar que a Europa é rica e chique em tudo. Pois bem, no interior da Espanha, assim como no interior de quase todos os países que conheci, a estrutura é bem mais simples. As cadeiras externas eram de plástico. As mesas não tinham nada demais. A cerveja era barata. A caña não deveria custar mais do que alguns poucos euros, 2, talvez. O bom da Espanha é que não importa onde você esteja, os bares sempre lhe dão um pequeno agrado em forma de comida. Amendoim ou, minhas preferidas, azeitonas. Sempre frescas e suculentas. Não sei se eu bebia por causa da cerveja ou por causa do possível acompanhamento. Isso iria se repetir em todos os lugares que eu viria a ir.
Apesar de ser extremamente simpático e gente boa, o suíço tinha um hábito irritante a este que vos fala. Sim, fumava. Enquanto conversamos por essa 1 hora e pouco, ele não parou por um minuto. Isso é algo que me incomodou e muito. Paciência. Recordo-me que ele me pagou uma caña e me contou que após o caminho Vía de la Plata, ele iria realizar outro caminho. Não lembro se era o do Norte, Primitivo ou algum outro. Só sei que ele iria emendar alguns caminhos na sequência.
Passado certo tempo, voltamos para o albergue. Seguimos com o rito clássico: banho, lavar roupas e estendê-las no varal. Ao chegar no tanque, peguei pouco de fila para lavar a roupa. Usei meu sabão em barra que ganhei de um argentino no albergue de Sevilha e depois estendi minhas roupas no varal deste átrio ou pátio.
Todos estavam limpos, menos malcheirosos e com um semblante plácido. Decidimos dar uma pausa onde cada um faria o que quisesse até perto das 18 horas, quando a Nieves chegaria e, depois, sairíamos para jantar. Aproveitei para dar um cochilo breve.
Acordado, encontro meus colegas de caminhada na recepção juntamente com a simpática senhorinha Nieves. Ela nos apresentou o lugar, falou das regras de horário (o albergue fecharia as portas à noite, geralmente entre 21 e 22 horas e, na manhã seguinte, deveríamos sair até as 8 horas), cobrou a taxa do albergue (o valor era de 6 ou 7 euros) e carimbou nossas credenciais, ou passaporte, de peregrinos.
Neste momento ela revela algo que me surpreendeu. Ao ver que minha nacionalidade era brasileira, ela afirmou: “você é o primeiro brasileiro a fazer a Vía de la Plata”. Não pude acreditar embora o caminho em si seja bem menos conhecido e mais duro que os demais. Sem contar o fato desse caminho ser geralmente feito por aqueles que já fizeram um dos outros caminhos primeiro, como o caminho Francês, Norte ou Português. Vai saber, se Nieves estava certa ou não, isso nada mudaria meu caminho ou dor no pé. No entanto, admito que naquele momento me senti mais cheio de mim, o desbravador brasileiro em meio à Andalusia e Extremadura, antes de chegar na já conhecida Castilla y León. Em breve conheceria a prova da minha desconfiança.
Um dos senhores do grupeto, o alemão, aproveitou para pedir recomendação sobre uma pousada privada na próxima cidade. A Nieves prontamente ligou para tal pessoa na próxima cidade-alvo, El Real de la Jara, para realizar a reserva. O senhor perguntou se eu gostaria de me juntar a eles, pensei comigo, trocaria a vida do albergue público por um conforto a mais? Decidi experimentar, haveria ainda muitos dias pela frente e não me faltaria oportunidades para mais estadas em albergues públicos.
Aproveitamos para solucionar um mistério, o homem que havia morrido no Calvario. Nieves nos disse que se tratava de um peregrino idoso, bem passado dos 60 anos e com diabetes que tentou subir esse monte em pleno verão quando as temperaturas passam dos 40 °C à tarde. Difícil julgar, porém, não há como não pensar que isso poderia ter sido evitado. Vai saber...
Ficamos, o suíço e eu, na frente do albergue aguardando pelos demais terminarem suas arrumações antes de ir jantar. Enquanto isso, neste belo entardecer com céu azul puro, parecia haver uma festa ou evento religioso de um grupo de 20 ou 30 pessoas no meio de uma praça que servia de esquina entre 2 vielas. Havia uma menina de branco, decoração e pessoas cantando e berrando.
Com a vinda dos demais, decidimos voltar para o bar onde havíamos bebido algumas cervejas à tarde, Casa Concha, para jantar. Além do mais, é bem possível que o menu do peregrino fosse similar em todos os restaurantes dali, ou seja, escolher para quê? Caminhamos alguns metros e, desta vez, sentamos no lado de dentro. Comemos os vários pratos, bebemos cerveja ou vinho, o holandês fotógrafo tomou sua coca, e os espanhóis na mesa do lado faziam aquela balbúrdia rotineira.
Papo vem, papo vai, conversas das outras mesas em decibéis próximos aos de aviões a jato até que a dinamarquesa nos lembra que deveríamos ir. Sem dúvida, o dia havia sido duríssimo (sim, vocês sabem muito bem disso), sem contar que ela mesma teria um dia pesadíssimo amanhã.
Pagamos a conta e voltamos ao albergue. O senhor coreano já estava dormindo, deveria ser perto das 8 da noite. Após escovar os dentes, pré-arrumo minhas roupas, comida e água para o dia seguinte para que a saída fosse a mais rápida possível. Porém, desta vez, sem o barulho infernal das sacolas plásticas zip lock.
Vou para a cafeteria com meu caderninho (aquele da foto da primeira publicação) e uma caneta para relatar o que ocorreu neste dia. Outros estão lá com seus celulares, câmeras e livros. Depois de quase meia hora, olho ao redor. Meus companheiros de grupeto estavam lá ainda. Decidi me recolher. Desejei-os uma boa noite de sono e fui para a cama. Como o alojamento era bem grande, ninguém precisou dormir no “topo” do beliche, o que geralmente gera ruídos adicionais quando alguém se movimenta nele.
Ajusto o horário do celular para acordar amanhã, confiro meus pertences no saco do saco de dormir próximo de mim, coloco os protetores auriculares e durmo rapidamente.











