Fernando Gaviria
Etapa 5 Del Giro 100


#dc comics#batman#dc#bruce wayne#tim drake#dick grayson#dc universe#batfamily#batfam#dc fanart


seen from China
seen from Colombia
seen from United States

seen from United States
seen from Guatemala
seen from United States
seen from Malaysia

seen from Singapore

seen from United States

seen from Germany
seen from Vietnam
seen from United States
seen from United States
seen from United States
seen from United States
seen from United States
seen from United States

seen from United States
seen from United States

seen from United States
Fernando Gaviria
Etapa 5 Del Giro 100
Post 16 - Diário do Caminho de Santiago de Compostela - Etapa 5 - Parte 3
Dia 5 - Parte 3
Data 03/05/2017
Etapa: El Real de la Jara -> Monesterio, Espanha
Distância: 20,7 km
Tempo: sol -> sol
O suplício seguia ladeira acima. Tudo contra mim: sol escaldante de 30 graus, asfalto quente e íngreme, mochila de quase 9 quilos nas costas, os sons irritantes dos veículos que passavam por nós e o tal calcanhar direito que amarrava minha ascensão até o topo onde deveria encontrar a Cruz del Puerto. A distância era de aproximadamente 6 a 7 quilômetros, porém, o desnível me forçava escalar quase 200 metros.
O trecho era praticamente reto. À nossa direita, montanha, à nossa esquerda, campos.
A dor fazia o tempo parar e a cabeça pensar muito no que eu estava fazendo ali naquele estado enfermo. Tudo o que eu fazia, como tomar anti-inflamatório, passar pomada, dar banhos de água quente e fria na região do calcanhar conforme receitado pela médica em Sevilla parecia não fazer efeito considerando que todo dia eu acordava com uma missão de cruzar dezenas de quilômetros a pé.
Bem, havia outra receita que eu teimava em não fazer. Repousar. Talvez aqui a palavra tenha seu significado mais amplo de repousar mesmo e não parar por 10 a 15 minutos a cada X quilômetros.
No entanto, se assim fosse, todo o meu roteiro, datas programadas e metas estariam fadadas ao descumprimento. Ainda havia quase 900 quilômetros a minha frente e quase 30 e muitos dias de extensa caminhada a serem percorridos.
No meu lado esquerdo, passo por um grande camping.
Metas... troféus... vontades alheias... Não estava lá por isso, mas sim por mim mesmo. Isso não estava tão claro ainda, mas estaria em breve.
Aos poucos, a dor do pé veio para a cabeça onde a ideia se formulava. Desistir era a única saída, totalmente oposta àquela de terminar o caminho conforme o planejado (por quem?).
No entanto, antes de me decidir, eu precisava terminar essa etapa e, para tal, precisava fazer o mínimo esperado de um peregrino: dar um passo por vez e nada mais.
O meu mantra “um passo por vez, uma etapa por dia” nunca fez tanto sentido.
Passo após passo, esse "everest" perde força e eu subo.
“Um passo por vez, uma etapa por dia”.
Sinto um segundo coração no calcanhar (de Aquiles do peregrino) pulsar. Por ora, esqueço dele e olho à frente e acima.
“Um passo por vez, uma etapa por dia”.
Sim, abandonei a dor. Deixei-a para trás, sem saber que pagaria um preço alto por isso. Não me pergunte como, mas eu tolerei a dor física por mais de 1 hora enquanto fazia a subida dessa estrada.
“Um passo por vez, uma etapa por dia”.
Desligo a mente e imagens vêm a ela. Lembro de eventos duros do passado, de esforços físicos e mentais (meus anos de faculdade de engenharia) e de amigos e familiares me dando suporte.
Se elas estivessem ao meu lado naquela tortura física e mental, teriam feito o mesmo. Teriam me apoiado como aqueles que ficam nas calçadas apoiando aos berros ou batendo palmas aos corredores em grandes provas de corrida nas cidades pelo mundo.
Então, de seus gritos ouvidos pela mente, caminhei, andei e manquei até avistar a Cruz del Puerto e Monesterio logo atrás.
Agora, poderia pensar novamente no futuro.
Por ser um escritor amador, não posso retratar com palavras o sofrimento que foi essa 1 hora de caminhada com 1 pé e meio. Havia suado litros de suor sobre o suor das horas anteriores. O pé direito berrava. Sentia que havia uma bola de tênis no calcanhar. O esforço havia sido descomunal para a situação. Realmente, não sei como não me lesionei em outras partes do corpo além do calcanhar direito para, de alguma forma, compensar minha situação de coxo.
Claro, havia outra solução. Fazer ou desistir são escolhas como o preto e o branco. No entanto, havia a possibilidade de pedir carona, simples assim. Seria fácil obter uma? Não sei. Mas era uma das alternativas que até então eu não avistava nesse “túnel” que eu me enxergava no caminho de Santiago de Compostela. Sem contar que minha teimosia ainda me empurrava para que a meta fosse feita.
Lembro de termos parado por alguns minutos onde a tal cruz se localizava. Estávamos nas alturas vendo um vale sob nós. Ao olhar para o caminho em direção até Monesterio, percebi que havia um pouco mais a subir até chegar ao centro da cidade. O pé e o calcanhar direitos já não existiam mais, pois eu havia abdicado de sentir dor. Coloquei a vontade sobre ela para poder seguir, com dificuldade, meus companheiros de jornada.
Seguimos pelas ruas até o centro da cidade passando por casas e coméricos com calçadas estreitas. Esta cidade já era um pouco maior que os vilarejos pelos quais passamos anteriormente. Podíamos ver que as construções já eram maiores daquelas que vimos nos dias anteriores.
Parecia um caminho sem fim, o sofrimento tivera sido deveras prolongado. Só queria uma coisa, terminar essa etapa e nada mais.
Meus companheiros haviam reservado mais um aposento privado para esse dia em vez de pegar um albergue público na cidade. Era um pequeno e modesto hotel branco que ficava na praça central da cidade, ao menos era o que parecia ser.
Lembro-me muito bem, o sol seguia a pino como de costume nesses dias de primavera que antecedem os longos dias de verão.
Chegamos na recepção, uma mulher nos atendeu. Dêmos nossos nomes, pagamos, tivemos nosso passaporte peregrino carimbado e ela nos mostrou nossos aposentos no segundo piso.
O quarto era simples, mas era só meu! Sem roncos e outros sons noturnos para quebrar meu sono.
Conforme fazíamos todos (os poucos) dias até então. Iríamos realizar a rotina básica de tomar um (longo) banho, lavar a roupa e estendê-las. No terraço, terceiro piso, havia um espaço coberto onde poderíamos deixar nossas roupas para secar.
Após quase 30 ou 40 minutos de arrumação, saímos, como de costume, para tomar algumas merecidas canãs de cervezas ou raddlers.
Fomos ali na praça central (???) mesmo onde havia o bar e restaurante El Riconcillo com mesas externas onde poderíamos apreciar a vida pacata do meio da tarde. Estariam todos dormindo devido à siesta? Não sei. Embora não fosse um vilarejo como os anteriores, também não era um grande centro urbano. Mesmo para padrões espanhóis, Monesterio deve ser uma pequena cidade (segundo o Wikipedia, não há mais de 5 mil habitantes).
Tomamos uma mesa para nós próxima de um grupo de gringos (quem sou eu para falar). Ok, eram turistas internacionais. Suas roupas indicavam que não eram dali, com certeza. Suas cores de pele eram muito brancas para aquela região tão ensolarada. Não sei como, britânicos estavam em Monesterio fazendo sabe lá o quê. Você vai dizer: “ora, o que mais senão fazendo a peregrinação?”. Não, suas vestimentas era de turistões mesmo. Camisas floridas, sapatos com meias até a altura do joelho e bermudas estranhas, brega para dizer o mínimo.
Aí que ocorre mais um evento de choque cultural entre pessoas de países distintos.
Os turistas têm dificuldade de fazer seu pedido ao garçom que não fala inglês. Talvez qualquer outro turista teria usado a linguagem dos sinais ou o Google Translator para compreender o que cardápio dizia. O garçom se esforçou como pôde para receber o pedido, mas quando não se fala outra língua, ainda mais de outra raiz linguística, não há muito o que se fazer. Não estávamos em Madri ou Barcelona, estávamos em Monesterio, uma pequena cidade da Espanha profunda.
Quando o garçom se retira, os tais turistas britânicos começam a reclamar do atendimento e do garçom. Acreditavam que por serem turistas, deveriam ser recebidos com sua língua pátria onde fossem, praticamente com um tapete vermelho. No entanto, eu me questiono se não é papel do turista fazer sua parte.
Eu sei, você pode me questionar se na Holanda eu aprendi alguma coisa antes de ir ou então na Mongólia, países que visitei posteriormente ao caminho. Bem, daí, precisamos analisar caso a caso. A Holanda é um país bem mais desenvolvido que a Espanha, logo, seus habitantes falam o inglês. Já na Mongólia, eu sabia que o choque de cultura seria tamanho que a língua seria a menor de minhas preocupações. Sem contar que eu me divirto em comunicação gestual. Histórias não me faltam em viagens passadas na Rússia que desta vez eu iria visitar com um pacote básico de palavras para não fazer tão feio.
A arrogância de certas pessoas me irrita, e ali não foi diferente. Pensei eu: “fiz meu trabalho de casa estudando o espanhol para chegar aqui e enrolar num portunhol”. Eu sei, o português e o espanhol são línguas primas, muito mais próximas entre si que do inglês, mesmo assim, o básico não custa. Ainda mais que o turista só ganha ao poder absorver toda uma camada de experiências que jamais teria se fosse a um país como um ser humano praticamente mudo. Ok, o dinheiro faz qualquer negócio, mas nada mais que negócios.
Voltamos ao hotel esbranquiçado perto do começo da tarde, algo por volta das 17h30. Enquanto meus companheiros tratavam das suas coisas, saí para ir ao mercado mais próximo para comprar provisões para o dia seguinte.
Nesta caminhada, meu corpo já havia esfriado, inclusive meu calcanhar. Ali comecei a sentir os efeitos colaterais de ter negado minha condição ao “escalar” o morro que nos levara até Monesterio horas antes. No lugar da dor, havia um travamento dos músculos em torno do calcanhar. Sim, eu estava mancando. Andava torto. Quem me visse, jamais poderia acreditar que eu poderia ser um peregrino que usa, obviamente, os pés para tal empreendimento.
Fiz o que eu pude, comprei água, barras de cereal e frutas para o dia seguinte.
Na volta para o hotel, vi o holandês das “mangas vermelhas” e seu amigo suíço, um sujeito de óculos, bem sorridente e comunicativo. Estavam numa mesa externa de um bar.
Conversamos por um pouco tempo, o holandês ainda queimado de dias antes reclamava de seu joelho, o suíço de óculos me dissera que esse não era seu primeiro caminho até a cidade de Santiago de Compostela.
Deixava minhas compras no quarto quando o senhor alemão bate à minha porta dizendo que iriam comer um jámon ibérico pata negra comedor de bellota.
O senhor alemão vai num açougue local, compra algumas centenas de gramas dessa carne mundialmente famosa e sai. Sigo-o, como posso, até o outro lado da rua onde iríamos “farofar” num bar. Sim, comeríamos o tal jámon famoso na cara dura enquanto consumiríamos a cerveja local com limão, a tal radler. Estávamos na mesa externa, vendo o sol se pôr com a crème de la crème de porco com uma cerveja espanhola suavizada com um xarope ou suco de limão. Foi sem dúvida, naquele momento, que tivemos um estupendo quality time apesar de minha condição física.
Saímos dali e fomos em direção ao restaurante Meson Casa Juan. Creio que o guia em alemão do caminho do senhor alemão havia sugerido tal lugar devido à qualidade de suas refeições. Por que não? A mim, só restava segui-los... Ou tentar.
Nesta hora, senti o peso da fraqueza física. Eu estava mancando muito, eu dava um passo por vez e bem lentamente. Da minha panturrilha para baixo, estava tudo empedrado. Não havia articulações, músculos. Nada, só pedra. Ali bateu o desespero, “como poderia continuar?”.
Foi difícil acompanhar meus colegas de caminhada até o restaurante. Eles precisaram parar por diversas vezes para que eu pudesse alcançá-los. Agora eu via que havia pago um preço altíssimo por ter negado minha condição.
Enfim, chegamos ao tal restaurante que ficava a algumas quadras do hotel. Dentro dele, havia um aspecto todo amadeirado. O balcão do bar ficava à direita, as mesas ficavam ao centro e à esquerda. Havia uma lareira ao fundo. E como não poderia faltar, uma televisão de tela plana pendurada na parede mostrando algum esporte ou noticiário para quebrar o clima do ambiente.
Pedimos o prato da casa, um churrasco de cerdo (porco – o que mais você esperava nessa terra dos famosos porcos espanhóis?).
O lugar deveria ser realmente famoso, pois várias mesas estavam ocupadas, além do balcão do bar, onde os locais bebiam suas cervejas e comiam petiscos.
Ficamos ali, não mais de 1 hora. O dia havia sido puxado e precisávamos repousar o máximo que podíamos.
A volta foi outro suplício. Mais uma caminhada mancando fortemente até o hotel. Andei a passos de formiga até ele. Ao menos, no meio do caminho, pude reparar no céu que estava belíssimo com vários tons de azul. O silêncio era total. A noite parecia ser minha e das luzes das vielas (foto).
Num estilo meio Van Gogh, ou quiçá Monet, a cena da cidade à noite era uma pintura. A foto num celular de qualidade mediana e lente borrada aplicou um filtro sem querer.
Adentrei ao meu quarto, arrumei a minha mochila para o dia seguinte. Fiz os banhos de água quente e fria para tentar recuperar minha perna direita. Passei o que pude do creme para desinflamar o calcanhar. Só um milagre poderia me recuperar para o próximo dia.
Ajustei o alarme do celular para o dia seguinte. Não precisei de venda ou dos protetores auriculares para dormir. Estava só no quarto.
Dormi cedo, pois estava podre com P maiúsculo sem saber o que o dia seguinte me aguardava. Ao mesmo tempo, aliviado, sabendo que minha missão estava cumprida e que desistir não seria um problema, mas uma possibilidade.
Post 15 - Diário do Caminho de Santiago de Compostela - Etapa 5 - Parte 2
Dia 5 - Parte 2
Data 03/05/2017
Etapa: El Real de la Jara -> Monesterio, Espanha
Distância: 20,7 km
Tempo: sol -> sol
Os gritos agudos vinham por trás de algumas árvores do lado esquerdo deste caminho rural. Qualquer pensamento era paralisado por essa trilha sonora do inferno de Dante.
Após alguns segundos, recompus-me para entender do que se tratava esse evento. Obviamente, não se tratavam de crianças chorando e gritando, mas de porcos da fazenda local que se dirigiam ao prédio do matadouro ao fundo do terreno. Por ter sido criado em cidades, os sons da natureza sempre me foram distantes, junto com a falta de talento para nomear os pássaros e plantas que me rodeavam ao longo do caminho.
O grunhido agudo dos porcos é terrível, o que me fez ter uma sensação mórbida, pois não se tratavam apenas um porco cujo som seria cessado rapidamente, mas de dezenas que se dirigiam em fila ao matadouro gerando um som sem fim da morte.
Tirei alguns minutos para refletir sobre essa nossa indústria alimentícia sem fim e que jura ser não-cruel. Talvez seja quando estamos distantes de boa parte da cadeia produtiva e nos limitamos a comprar confortavelmente as bandejas embaladas e etiquetadas nas câmaras frias dos supermercados, não refletimos nisso. Também pensei no consumo excessivo que temos pela proteína animal, no entanto...
Tal reflexão era hipócrita da minha parte porque meu almoço não seria nada mais do que um sanduíche com jamón ibérico convenientemente embalado e etiquetado que comprei por alguns euros num mercadinho no dia anterior.
Segui a caminhada ainda impressionado pelos minutos vividos anteriormente, à minha frente, estavam os outros 2 senhores do meu grupeto que não eram fáceis de acompanhar pelo motivo por vocês, caros leitores hipotéticos, já bem conhecido, a tal tendinite.
Por sorte os bastões me ajudavam nesta missão ao me impulsionar para frente nos trechos planos que, até então, era o perfil da etapa.
Não levou muito tempo, chegamos numa espécie de recanto com uma igreja redonda (Ermita de San Isidro) e um espaço para piqueniques ao redor dela. Aproveitamos para descansar um pouco antes de continuar nossa peregrinação.
Comi uma barra de cereal e uma fruta e bebi água, mas, antes disso, tive o cuidado de não pisar nas fezes de cabras que passaram por ali recentemente. Estávamos num campo minado com as “bolinhas” espalhadas por todos os lados feito um campo gigantesco de bolinhas de gude escuras. Eu sei, eu estava com minha bota de caminhada, mas se der para evitar, que se evite carregar consigo tais “presentes” da natureza.
Depois de uns 15 minutos de descanso, com os pés respirando fora das botas (dica importante, quando o pé respira, ele esfria, quando ele esfria e a meia seca do suor, as chances de formar bolhas caem. O objetivo é evitar pontos quentes nos pés), decidimos partir.
Cadarços amarrados, mochila nas costas (pouco mais leve), bastões às mãos e pronto para o trecho final da etapa do dia, infelizmente, o pior deles com elevação de quase 200 metros. Respirei fundo e lembrei do meu mantra, um passo por vez, uma etapa por dia, mas que dia seria...
Seguimos pela rota das flechas amarelas quando chegamos numa fábrica de jamón que possuía um bebedouro e um banco no lado de fora para peregrinos (ou clientes). Aproveitava para encher minha garrafa de água quando reparei que os bancos estavam tomados por peregrinos, não quaisquer peregrinos, eram espanhóis. Seriam aqueles do rádio alto enquanto caminham e da mulher que me fez cara feia por usar o banheiro mais bem “equipado” (banheiro feminino) no bar de Almadén de la Plata dias atrás? Não sei, fiz cara de paisagem, soltei um “hola que tal?” e um “buen camino” para ser notado, ao mesmo sem ser marcado.
Meus colegas me aguardavam no final dessa estrada rural que dava numa rodovia de asfalto, asfalto que seria sem fim e meu fim. Cruzamos a rodovia que nos levaria para o trecho de subida forte até Monesterio. Nenhum carro passando.
Para chegar no lado esquerdo da via, tivemos que pular uma barreira (guard-rail). Ali o nosso fotógrafo oficial teve uma ótima ideia de bater uma foto nossa, não bastava estarmos cansados da etapa, repetimos o gesto para que tal ato atlético pudesse ser registrado.
Continuávamos cruzando este trevo de asfalto quando...
Diante de nós ocorreu o inesperado. Havíamos ouvido histórias aqui e ali de alguém se ferir devido à atropelamentos e tropeços, mas desta vez, fomos testemunhas oculares de um evento nesta estrada.
Vimos uma mulher tropeçar sozinha no asfalto “plano”. Na verdade, o asfalto já estava pouco inclinado devido à subida até Monesterio, mesmo assim, não parecia ser para tanto, mas foi. Ela havia tropeçado no áspero asfalto e, talvez pela falta de equilíbrio devido à mochila e desespero momentâneo, a mulher caiu de cara no chão feito uma tábua. Os braços e mãos ela não os usou. Em plena estrada, não foi um carro que gerou o acidente, mas ela mesma num passo falso.
Felizmente, ela estava num grupo de alguns peregrinos que imediatamente a acudiram. O asfalto parecia ter um rio de sangue, será que teria tido um traumatismo? Ou somente um supercilio aberto gerando tal cena horrorosa do vermelho do sangue se misturando com o preto do asfalto?
Segundo felizmente. Um carro passou naquele momento, parou, colocaram a mulher no carro e subiram a estrada para buscar ajuda em Monesterio.
Estes últimos 4 parágrafos ocorreram em menos de 1 minuto. O susto foi muito grande e serviu para nos alertar para cuidados simples ao fazer o caminho. Creio que os bastões de caminhada a teriam ajudado para não perder o equilíbrio. Pelo menos, eu sentia uma confiança a mais em cada passo ao usá-los. No entanto, vai saber o que os bastões poderiam de fato ter ajudado neste acidente.
O sol estava forte, muito forte. Não havia nuvens no céu.
Depois da adrenalina de minutos atrás, seguíamos subindo a ladeira pelo lado esquerdo da carretera onde havia uma trilha no meio de um parco bosque que servia de guarda-sol deste sol imenso espanhol. Este bosque estava localizado entre a rodovia principal e uma estrada secundária à esquerda.
Não muito tempo depois, decidimos fazer uma longa pausa para almoço e descanso antes da investida final ao cume desta ladeira. Pela primeira, e única, vez, utilizei meu “tapete” isolante térmico para alguma coisa. Desenrolei-o para servir de assento para nossas bundas neste terreno de grama, terra e pedras. Um dos itens mais inúteis que vim a comprar cogitando que algum dia pudesse vir a dormir no lado de fora de albergues. Jamais!
Já comentei (acho que sim) que os aposentos de tais albergues de peregrinos são simples, modestos e até rudimentares, mas entre uma cama ruim e o solo pobremente acolchoado, a cama ruim ganha. Sei que poderia ter experiências espirituais em tal evento, bem como nada mais do que uma noite mal dormida ao relento e no sereno.
Enquanto eu comia meu sanduiche de jámon ouvindo os grunhidos em minha cabeça e tomava litros de água para recompor o corpo, sem antes tirar as botas para que os pés pudessem respirar, o holandês fotógrafo batia fotos formidáveis de gaviões que rodeavam nossas cabeças quentes do sol deste belo e infernal dia. Difícil de explicar, mas o sol europeu arde e queima.
Depois de uns bons 20 a 30 minutos descansando, decidimos partir. Enrolei meu isolante térmico e o ajeitei na mochila. Pus as botas. Preparei os bolsos com barras de cereais. Distribuí a água entre as garrafinhas que possuía comigo. Ajustei a mochila no corpo e ... fui as trancos e barrancos.
Começamos a caminhar e em breve cruzamos a rodovia secundária para que ficássemos à esquerda de qualquer via rodoviária.
Já não havia mais árvores para nos proteger do sol.
A ascensão era dura. Quase 200 metros de desnível positivo ao longo de 5 quilômetros com carros e caminhões servindo de trilha sonora a uma cabeça cheia de dores provenientes do pé direito. Ajustava como podia a pisada, o pé, a perna, o joelho, a forma de andar para minimizar o tendão travado pela fadiga. Se no plano já era difícil, na subida, a dor era ainda pior.
Com a possível primeira desistência do caminho ainda na mente, parecia que esse fantasma estava me rondando na subida sem fim até Monesterio. Quem diria que a peregrina iria tropeçar no asfalto plano e bater seu rosto no chão? Aquele rio vermelho no escuro asfalto ficou gravado na memória.
Bem, isso era passado, eu já tinha o suficiente para me preocupar. Uma tendinite no calcanhar em plena subida no asfalto duro e quente, e quase 30 graus Celsius espanhóis no lombo, sem contar os 15 quilômetros anteriores percorridos para aquecer o corpo.
Pela primeira vez pensei em alto e bom som: “chegou a hora de desistir”. Já não era mais divertido, ao contrário, era doloroso fazer o caminho e as montanhas não mudariam de lugar para me ajudar neste momento, nem em etapas futuras. Neste jogo de tudo ou nada, eu pendia para o nada.
A dor no pé era insuportável, uma dor dilacerante no tendão que fazia questão de me lembrar em pé sim, pé não, pé sim, pé não... apesar de meus bastões de caminhada silenciados.
O que fazer?
A dupla dinâmica (o senhor alemão e o fotógrafo holandês) seguia com certa dificuldade a minha frente...
Até onde iria esse suplício?
Post 14 - Diário do Caminho de Santiago de Compostela - Etapa 5 - Parte 1
Dia 5 - Parte 1 Data 03/05/2017
Etapa: El Real de la Jara -> Monesterio, Espanha Distância: 20,7 km Tempo: sol -> sol
O despertador de meu celular toca, escuto-o apesar de usar os tampões de ouvido. Acordo muito bem, descansado e inteiro, bem inteiro... menos o calcanhar direito. Caro hipotético leitor, acostume-se, de agora em diante será ladeira abaixo, bem, na verdade, ladeira acima.
Irei poupá-los de spoilers, mas já dando alguns, quem diria que ao levantar da cama teria um dia de sangue, suor e lágrimas. Ouviria o choro de “crianças”, veria um acidente na estrada sem carros, “escalaria” meu calvário, carregaria minha cruz em forma de tendão inflamado e encerraria meu camino (vocês devem estar se segurando na cadeira para chegar no final desse relato). Mas sigamos com a ordem dos fatos conforme se sucederam.
Visto minha calça-bermuda, minha camiseta de mangas longas de cor acinzentada, ponho o “cachecol” no pescoço, embrulho meu lençol de seda, enrolo meu saco de dormir, ponho as meias duplas sem costura, visto a pesada bota de caminhada, confiro o equipamento, guardo as barras de cereal no bolso direito da perna da calça, celular num bolso, outro vazio.
Deixo tudo arrumado na cama e decido ir tomar o café da manhã com meus companheiros de peregrinação. À sala de jantar, ou café da manhã, estava ruidosa com as vozes espanholas falando no último volume. Muito falatório, gargalhadas e a televisão, ela sempre lá, de alta definição, sintonizada em algum jornal matinal.
Nesta hora ocorre um dos momentos “brutos espanhóis”, creio que nesse nível, 2 vezes. Sim, os espanhóis são famosos por serem extrovertidos, intensos e diretos. Creio que a língua ajude muito nisso pela simplicidade da fala, cortando os pronomes pessoais retos como nós também o fazemos, e pela pressa que os espanhóis parecem ter ao falar como se não lhe restassem mais do que 5 segundos de vida.
Chego à sala das refeições onde sou recebido por café preto, tostadas, mantequilla y mermelada. Tudo se desenrolava bem até que vi meu colega holandês fotógrafo e bebedor de Coca-Cola pedir por um suco de laranja. Pensei eu, “nada mal para hidratar logo pela manhã”. “Un jugo de naranja, por favor”, falo em alto e bom som. O dono da casa, aquele senhor com quem conversei por quase 1 hora sobre tomates no dia anterior, fica possesso e tem um ataque de fúria. Ele me diz que o suco é muito caro e que se fosse me dar o suco, todo o lucro com a minha estadia iria pelo ralo (não sei as palavras exatas, mas entendi muito bem). Todos olham para mim, devo ter ficado mais branco que já sou. Gelo (verbo, não substantivo) imóvel, mudo e sem reação. Nunca insinuei que queria o bendito suco natural amarelo da fruta com casca laranja de graça. Pagaria sem qualquer problema, pois não deveria custar mais que alguns euros. Mas o mal-estar já estava criado. Para que querer concertar o que já estava destruído. Escovo meus dentes, pego minha mochila e me dirijo para o umbral da grande, antiga e fresca casa sabendo que minha fama era de unha de fome e sujeito que leva pousadas privadas do caminho à falência. Santiago era minha testemunha que minhas intenções eram boas em consumir mais serviços do local. Paciência...
Vocês devem estar se perguntando sobre o segundo caso de bruteza espanhola. Não vou dar spoilers, pois tal evento não tardaria de acontecer diante dos meus olhos incrédulos. Ah, Espanha.
Antes de sairmos para a caminhada de quase 21 kms, olhamos cada um seu guia de caminhada. Caminhada quase plana até o quarto final onde uma forte elevação nos desafiaria. O sol estava a pino e com vontade de queimar seres deficientes em melanina. Protetor para que te quero.
Hoje, logo no começo da caminhada, havia um importante evento geográfico, mudaríamos de província pela primeira vez. Sairíamos da Província da Andaluzia para adentrar as planícies da Extremadura.
Partimos para Monesterio, cidade famosa por seu jámon (de porco, pleonasmo) e nada se ouvia vindo de meus bastões de caminhada. Exceto um “som silencioso” de borracha batendo contra o solo. Sim, não iria mais incomodar aqueles que me rodeavam porque as ponteiras foram revestidas como explicado ontem.
Ao sair da cidade, não tardou muito para vermos as ruínas do Castillo de las Torres à nossa direita (ver fotos, todas minhas). A câmera de meu celular não confere suspiros, mas as fotos de meu colega holandês fotógrafo já dão outro grau ao patrimônio espanhol que ali estava de pé.
O outro colega de caminhada, o senhor alemão, tirou de um dos milhares de bolsos de sua jaqueta uma pequena gaita de boca e com ela tocou uma música. Agora tínhamos tudo, um grupo de caminhantes, um fotógrafo e um músico. A música que ele tocara era uma espécie de hino do caminho de Santiago de Compostela. Anos após enquanto escrevo essas memórias, não serei leviano em dizer que lembro da melodia, pois não lembro mesmo. Entretanto, outra “música” veio nos atormentar minutos depois.
Estávamos passando por belas paisagens do interior espanhol, pequenas colinas, campos e pequenos bosques seguiam de muros de nossa estrada. Após a melodia da gaita de boca, era a vez dos passarinhos darem a sua contribuição ao cantar para esse trio de peregrinos com suas mochilas.
Meu calcanhar direito não dava trégua, o que gerava naturalmente um certo distanciamento de meus colegas. Ficava para trás, não muito, mas o suficiente para vê-los como bonequinhos a minha frente.
Um passo por vez, uma etapa por dia. Esse era o mantra que eu repetia frequentemente para manter o foco no objetivo maior, que era chegar em Santiago de Compostela, a cidade-alvo do camino. Será?
O destino não tardaria de me mostrar que planejar e fazer são verbos primos de décimo quinto grau. Diferente do que se imagina, o caminho não é um exercício pesado. Por vezes cansativo, mas em 80% do tempo, nada mais do que uma caminhada com uma mochila pouco pesada em trechos planos ou com inclinação leve. Não tenha medo de realizar tal feito caso tenha vontade, minha situação era “única” e não era a regra. Basta ter vontade e estar consciente de seus limites físicos (mas antes vá num médico só para garantir).
Como viria a ver no futuro, é uma caminhada e corridas seriam punid... Que som era esse? Ouço gritos estridentes, chorosos e desesperados. Na fração de segundo seguinte penso: “como podem estar torturando crianças na Espanha em pleno século XXI!”.
Continua...
La vida es una tómbola, de noche y de día. #Procesando #SupermercadoPlayero #Etapa5 #MeretteRodríguezArquitectos ✌🏾 (at Supermercado playero)
"Me alegra la vista seguirle la pista" #CaminoSantiago2015 #Etapa5 (en Ribadiso)
Mais dia de revisão e prova vamo que vamo! #etapa5 #physiopilates

