Discurso Da Servidão Voluntária de Étienne de la Boétie
Eu estou jogando pokemon emerald e nomeando os pokemons que capturo a partir de blogs que eu gosto, mas como ninguém quis ser a Poochiena que eu peguei, dei a ela o nome desse primo dos Médicis. Após terminar o livro eu acho que um animal selvagem que se deixa levar pela emoção e é facilmente comandado por alguém suficientemente hábil combina muito bem com este homem.
É um livro bem curto. Sem contar com a introdução dessa série de livros, o prefácio e o texto original em francês isto é apenas 46 páginas; nem conta como um livro sem essas adições. Foi bem fácil de ler, mas o autor se repete várias vezes (provavelmente porque são anotações que ele escreveu para si e não algo feito para ser publicado), tanto que eu contei umas duas ou três vezes em que ele começa o parágrafo com algo como "enfim, voltando ao assunto". A mensagem junto com esta forma despreucupada e bem emotiva de escrever me lembrou daquele clip do Monark gritando "ACCORDA" num podcast que não lembro qual.
O que eu acho que este homem cujo nome me lembra um tipo de álcool está tentando dizer é que qualquer regime tirânico pode ser facilmente derrubado se todos passassem a valorizar a liberdade, e que quando um povo permanece em servidão é porque são burros, e portanto merecem viver à mercê da boa vontade de seus déspotas. A palavra "acho" está ressaltada porque em nenhum momento o colega teve o bom senso de especificar a que tipo de liberdade ele se refere.
E bem, eu discordo desta tese.
Essa questão de como ele define a "liberdade" me incomoda, já que esse livro é do seculo XVI; se não me engano, a mesma época em que o liberalismo nasceu. O liberalismo é uma ideologia que valoriza muito a liberdade e considera que o Estado interferir na liberdade dos indivíduos é tirania; mas se limita a valorizar o usufruto da propriedade privada, outros tipos de liberdade são ignorados. Por exemplo, na época da escravidão, os anti-abolicionistas eram os liberais, porque pessoas eram propriedade privada. Os grego e romanos, que ele tanto admira, tinham escravidão, por exemplo.
Ele fala como se fosse fácil se livrar de um tirano. Segundo ele é "só" todo mundo tomar jeito que o problema se resolve sem violência. A minha educação em história e minhas observações da realidade me obrigam a discordar.
A, eu não vivi durante o século XVI para ter visto isso, mas eu acho que se os aldeões, camponeses, condenados, e excravos de um lugar simplesmente parassem de obedecer os seus senhores, aa, eu só acho que haveriam algumas complicações na vida deles.
Pense num cabra elitista e xenofóbico. Pensou? O álcool etileno aqui é pior. Em todos os exemplos da antiguidade que ele dá, há um insulto contra o povo, por não se revoltar, ou por não se revoltar da forma que ele aprova. Ele os chama de imbecis, adestrados, idiotas, oportunistas, aviltados, efeminados, por aí vai...
A coisa que eu achei mais estranha foi a forma quase mística como ele fala de liberdade. Ele fala como se existisse tal coisa como "mente livre" mesmo quando o indivíduo é privado de liberdade.
A liberdade para esse homem é um espírito? "O santo nome da liberdade" ai ai...
Eu sei que "liberdade" é uma coisa a ser valorizada, mas eu não consigo levar à sério alguém que põe tanta ênfase em "ser livre" e "combater tirania", mas não fala nada sobre outros conceitos igualmente ou até mais importantes, como justiça, prudência, harmonia, etc.. Pelo menos na minha experiência, alguém que foca tanto em defender a própria liberdade é sempre alguém extremamente individualista e hipócrita. Por exemplo da hipocrisia do colega nome comercial do etanol:
Como pode alguém ser a favor da desobediência civil enquanto trata a obediência familiar como natural? Por acaso o poochiena alcólico não é capaz de perceber que os mesmos argumentos que ele usa podem ser usados contra ele? Afinal, a esfera familiar é a menor e mais privada das organizações humanas.
Esse argumento da "natureza" é tão velho e idiota hoje, mas mesmo nessa época já era velho e idiota.
Na minha opinião ele (e pessoas como ele) são perfeitamente capazes de perceber a dissonância cognitiva inerente dessa linha de pensamento, eles simplesmente não se importam. Às vezes se fala de hipócritas e se aponta evidências na esperança que percebam, mas a realidade é que não são todos que se importam o suficiente para tentar manter um rigor metodológico na sua filosofia; afinal, pensar cansa e nem sempre leva a respostas satisfatórias ou agradáveis.
Uma pessoa poderia muito bem dizer:
"Assim como a natureza ensina que os filhos devem obediência aos pais, o povo deve obediência aos reis."
"A natureza mostra como é irracional obedecer a um soberano, já que nenhum animal fica com seus genitores mais que o necessário para sobrevivência."
Em conclusão, este livro é uma bagunça. O colega C2H6O não organizou bem os pensamentos dele, e isso acaba sendo nada mais que as divagações de um tuiteiro à frente de seu tempo. Mas eu gostei de ter terminado, primeiramente porque eu estou tentando me acostumar a ler textos chatos com rapidez mas retendo a tese central da coisa, e também porque agora eu posso começar a ler o livro do Anderson Herzer.