Abri meus olhos - finalmente - em um lugar que reconheço, mas não consigo nomear. Todo meu corpo dói e a ânsia já se apresenta com um “bom dia” agradável em minha garganta. Olho fixamente para uma porta de madeira escura e velha, onde um cartaz de uma banda de rock está colado, me julgando. Com medo de que qualquer mudança de foco faça minha cabeça martelar mais, fico encarando fixamente a fresta da porta que está entreaberta, vasculho minhas memórias o mais gentilmente possível para conseguir nomear o lugar onde estou; reconheço as cores no escuro, e até mesmo a familiaridade com que a porta semi-aberta tem em minhas memórias turvas, sabendo, de alguma forma, que há muito tempo aquela porta não podia ser trancada. Busco na audição, agora, qualquer indício que me ajude saber onde estou: os pássaros cantando - seria o começo da manhã ou final da tarde? -, os carros passando lentamente na rua, sem fazer os barulhos que o meu faria - onde deixei meu carro? -, algumas pessoas falando baixo na calçada e, finalmente, um som vindo de dentro da casa. Ouvi pequenos murmúrios suaves, como se alguém estivesse seguindo um ritmo, uma música? O som se aproximava gradativamente, aumentando levemente, e reconheci que estava subindo as escadas e, de repente, chegou… A lembrança da música, dos momentos, da porta entreaberta, da cama e da casa: minha casa, a casa de meu pai.
- Clarisse está trancada no seu quarto - cantava meu pai ao me ouvir chegar pela porta da frente. Eu sabia que ele me ouvira porque sempre cantava esse refrão, como se soubesse que todas as vezes que a porta de meu quarto estava trancada, eu havia saído - com seus discos e seus livros, seu cansaço…
Fui até a cozinha, onde ele estava com seu café preto servido na caneca de “melhor pai do mundo” que fiz 10 anos atrás, olhando para a janela, esperando ver algo que não estava ali.
- Bom dia, Clarisse. - o relógio batia 8h.
- Bom dia, pai - disse minha voz rouca e sem dormir.
- Devo perguntar como foi a noite?
Eu sentei ao seu lado e coloquei a cabeça sobre a bancada.
- Se você quiser saber.
- Não quero - ele respondeu, jamais fazendo contato com meus olhos vermelhos - prefiro cantar.
E então continuou com a melodia calma de “Clarisse”, com as palavras tristes do autor, até eu adormecer no mármore duro e gelado.
Fechei os olhos, desejando que esse sonho acabasse e que eu não ouvisse a minha voz preferida durante toda minha infância ultrapassar a porta, cantarolando a música que marcou toda a minha adolescência, toda a minha tristeza e luto, passados naquele quarto, naquelas paredes, naquela casa familiar, na minha família.
- Clarisse? - chamou a voz tranquila do meu ex melhor amigo.
Os segundos passavam pesados, como se fossem minutos, se transformando em horas, dias, anos…
- Oi, pai. - encarei o pesadelo.
“Clarisse está trancada no seu quarto com seus discos e seus livros, seu cansaço. Eu sou um pássaro, me trancam na gaiola e esperam que eu cante como antes. Eu sou um pássaro, me trancam na gaiola, mas um dia eu consigo resistir e vou voar pelo caminho mais bonito.” ☆