Pequenos Preciosos part 1
Quando eu me sentia perdida, sozinha, questionando à Deus o porquê de me abandonar. Eu simplesmente saía de casa, do jeitinho que eu estava e pegava um ônibus. Por alguma razão eu sempre parava no mesmo lugar. A Rodoviária. E as vezes eu passava horas e horas escutando histórias de passados tão distantes, passados onde as pessoas ainda tinham lares. Lares estes, que foram destruídos, por vícios, por traições, por depressão, por perdas. Eram tantas histórias que eu voltava para casa tarde da noite, me questionando o porquê da minha tristeza, quando eu tinha um teto sobre a minha cabeça, tinha uma cama quentinha, tinha afeto, tinha o amor verdadeiro dos meus 4 cachorros, que faziam e fazem até hoje uma grande festa a cada vez que eu cruzo a porta da sala. Eu tinha uma mãe que brigando ou não, sei que morreria por mim e me perdoaria por cada erro que eu cometesse com ela. E eu ficava, então Deus, porque eu fico sempre tão triste, porque eu só vejo os dissabores da vida, quando eu tenho testemunhos tão mais tristes do que os meus. Mas de certa forma eu voltava com a cabeça mais leve, mas o coração sempre pesado. Aquelas histórias me faziam triste, não por mim, mas por todos aqueles com quem eu conversava e se sentiam invisíveis. Que achavam fantástico uma “patricinha” sentar no meio fio, ou encostar em uma pilastra para vê-los comer uma marmita do Giraffas, ou qualquer outro restaurante e conversar sobre a vida, sobre como eles chegaram naquele ponto, não por julgamento ou por trabalhos escolares, mas só pelo prazer de fazer alguém se sentir visível, quando todos os outros não os veem. Eles não entendiam que eu também estava sendo vista, que eu me sentia útil, aquilo tranquilizava algo dentro do meu coração.
Não lembro a última vez que fui até lá, mas eu ainda estava morando com a Rayane, então deve ter sido no mês de Junho, eu já estava em tristeza profunda. Chorava até dormir e por várias e várias vezes me imaginei, com a faca na mão, dando fim a minha própria miséria que era a minha cabeça e o que a vida tinha me transformado. Eu não via o fim do túnel. Não preciso dizer que a Rayane ficou realmente revoltada, né? Porque era perigoso demais o que eu estava fazendo, ela não sabia que eu já havia escrito minhas cartas de adeus à todos os meus entes queridos e enquanto pedia perdão, perdoei em cartas aqueles que tinham levado até aquele momento.
Naquela tarde, eu encontrei com o senhor Francisco, ou como os companheiros o chamam, Chico e ali, ele me contou que abandonou uma grande quantidade de dinheiro, mulher e filhos em Minas Gerais, por conta de sua infelicidade. Sua falta de motivação em ver seus filhos crescerem. Ele disse para mim, que não sabe como chegou à rodoviária de Brasília, mas que ali, ele tinha feito um lar, com tão pouco, comendo restos, foi o único meio que ele encontrou de não tirar à própria vida. Foi a primeira vez que voltei de coração leve para casa. Está certo, acho que foi uma das piores brigas que eu tive com a Rayane. Ela não entendia porque de me arriscar, porque eu sentia essa necessidade de querer ir me juntar aos mendigos. Ela não conseguia ver o que eu via. Somos iguais. Eu sempre me senti igual a todos eles, por isso eu chorava por eles, eu ria com eles. Eu só não sabia expressar. Então todas as noites eu orava e questionava. Dormia chorando e acordava com um sorriso de plástico no rosto. Eu chorava por eles, mas por mim também. A cada ida à rodoviária, eu me via mais distante da Lylian que eu já tinha sido um dia. Meu ex , mesmo distante, ainda me torturava e eu não conseguia me livrar do sentimento de culpa e pesar de como tudo aconteceu. A Lylian feliz, não existia mais. Agora existia uma Lylian que chorava com a alma. Que não via beleza nas coisas comuns.
Poucas semanas depois, voltei para a casa da minha mãe. A depressão me consumia e eu não tinha mais tempo para voltar à rodoviária.
Trabalhei, voltei para a terapia, busquei um novo psiquiatra que me receitou remédios que me acalmaria a longo prazo, eu não poderia esperar que eles fizessem efeito da noite para o dia. Mas as coisas dentro de mim ainda me incomodavam. Os meses foram passando, saí de um emprego, entrei em outro no dia seguinte. Isso eu sabia que era Deus cuidando de mim, passei um mês e meio nesse novo trabalho, antes de estar preparada para os Planos de Deus, porque eu me sentia inútil nos confins da Ceilândia sem nada para fazer, caramba, eu sempre trabalhei com pessoas e ali, meu único alento eram os cachorros. Porque excursões mesmo Deus não permitia que saísse uma. Então chegamos à conclusão de que eu era apenas um gasto extra, então eu estava desempregada. Mas novamente, Deus me deu uma nova chance e no dia seguinte, estava eu, empregada de novo. Vê que louco que é isso?? Eu estava trabalhando em um ambiente que verdadeiramente me trouxe paz. Me trouxe força de vontade, me fazia rir. Me fez chegar em casa e ter vontade de correr com meus cachorros no quarteirão, um por vez. Me fez voltar a sorrir com a alma. Gente, eu estava sendo útil, eu estava sendo amada, eu estava sendo curada. De dentro para fora. Foi quando Deus me deu uma nova forma de ver e ouvir as pessoas. Meu pequeno pardal. <3















