Título: O que vai ser hoje?
Número do desafio: #1
Autor: Fábio Abilel de Melo
Idade: 27 anos
Blog: oniricoautor.wordpress.com
Pequena sinopse: “O salto era certo, os motivos tangíveis, a vontade inquestionável. Depois da escolha, o que um dia foi imprevisível tornara-se concreto como o passado, o destino! Não há volta, não há remédio. Uma vez em queda, a morte seria precisa. Há apenas uma lamentação: o atraso do passado!
O vento vestia-lhe, por dentro das vestes, de liberdade e coragem; despia-lhe de medo e incertezas; soprava-lhe motivação.
O limite reto de concreto frio sob a pressão de seus dedos de um pé descalço preenchia-lhe o tato. Nas mãos, o celular fazia a ligação.
Naquele instante, não tinha nome, não havia vivido história alguma. Não era ninguém. Fora consumido pelo nada. Preenchido de essência. Era o mundo e era tudo. Espalhou-se pelo espaço. Era feito átomo e do átomo viera, e da matéria se fizera, e do vento a energia sentia, e, do vento, quarenta motivos o sopro lhe trazia.
Entrava cedo do dia pelas portas – logo abaixo – que davam para o a recepção daquele prédio comercial e, desde lá, todos sorriam. “Bom dia” diziam. Apenas um olhar lhes retribuía. Seria ele, somente ele, a quem a noite perturbava e o sono tomava? De certo que sim. Afinal, ali, todos sorriam.
No rumo da venta, de lá zarpava para noite. Da noite para casa. Em casa, sua esposa despojava-lhe o sossego. Era “Da cama para o sofá – Já!”. Culpa do hálito. Culpa do bar. Culpa do trabalho. Culpa do dia; dos “Bom dia”. Culpa do ... Culpado!
Dali, agora, contava: trinta e quatro janelas. Sua idade. Não mais que Cristo. Ou teria Ele trinta e três? A consciência, impiedosa, acometia-lhe a culpa. “O que seria de um homem sem a fé” perguntava o pai e a mãe respondia “Um trapo”. Trapo de homem, era o que era! Sem fé, sem salvação. Sem perdão!
Ainda criança, sua mãe em desespero berrava “Desista, menino. Sai daí, ele não vai tocar” e resignado deixava o telefone sempre com o olhar por cima do ombro na esperança de ouví-lo tocar. Sempre as 17:45 o velho ligava “Já saí daqui garotão. O que vai ser hoje?”. Ele, o pai, tinha vinte e oito. Ele, ele mesmo, cinco. Na cama, o choro e da mãe o consolo “Não o culpe, por favor. Dê a ele o seu perdão de todo o seu coração”. O pai morreu cedo e, assim como o telefone, todo o resto ficara para trás com a sua lembrança.
Quanto mais faltava? Pouco mais que trinta janelas. Trinta talvez?
Vinte e nove! Aquele era o andar dela, a sedutora, a mulher do vestido vermelho. Distração certa em qualquer situação que estivesse. No elevador, corredor, escritório. E até em queda livre. Estava deslumbrante apoiada no batente da porta enquanto conversava com alguém do lado de fora. Sua mulher o odiaria por isso, na certa brigari... Alguma coisa vibrou em sua mente dragando de seu devaneio. Era no andar abaixo. O vinte e oito!
Era um toque de telefone, um daqueles antigos, do tipo metálico que vibrava coçando os ouvidos. Há anos não ouvia aquele toque.
Malditos escritórios retrôs.
Instintivamente, ergueu o pulso. 17:45!
Agora se lembrava: nem tudo ficara para trás. Gravado em sua alma, o ato se perpetuou. Ligava todo dia para seu menino “Já saí daqui garotão. O que vai ser hoje?”. Ele tinha trinta e quatro. O menino, cinco. O pai, vinte e oito. Na tela do celular, não era o número do filho que chamava.
Volta! Cancela! Aperta o vermelho. “Anda, funciona! Liga para o seu filho” sua consciência ecoava em seu ouvido. “LIGA PARA O MEU FILHO, DESGRAÇA” berrava.
O aparelho não voltou. Não cancelou. Não conseguiu apertar o vermelho – que agora era de arrastar –, mas, do outro lado, uma voz rouca, cansada, feminina respondeu “Alô?”.
Coração apertado, o pulso na boca e as lágrimas nos olhos. Planejara tudo aquilo. Passara semanas ouvindo aquela voz na imaginação. Tinha o diálogo pronto “Você estava errada, o telefone tocou”. E nada saiu.
“Mamãe” conseguiu dizer entre choro “o que vai ser hoje?”.