segue um trecho de um livro de Ray que muito apreciei e agora não sei quando será publicado
“O calor insuportável me fazia suar como um cubo de gelo .Um impaciente cubo de gelo negro . Esperava que ele aparecesse com mais uma de suas frases idiotas e camisas desbotadas . - Humanos são quentes . Não conseguem ver muita coisa além de si mesmos . É mais reconfortante encarar olhos no espelho . Sentiu saudades ? - Ele chega fingindo não me ver , esbarra em mim , esboça um sorriso encardido e me abraça . Um abraço longo , molhado e escaldante . - Tanto quanto sentiria de um furúnculo .- Respondi revirando os olhos .- Moramos em um país tropical , o ministério da saúde adverte ; para evitar a desidratação neste verão , beba bastante água e evite contato humano . - Quer beber alguma coisa ? - Mais tarde , vamos ? - Como quiser .- Dito isso começou a caminhar dentro daqueles coturnos sujos . Nos conhecemos no dia anterior . Primeiro dia de aula , faculdade de Letras . Mas eu não estava lá pra me tornar mais uma professora frustrada , sentindo vontade de matar algum idiota ou convencendo seus pais que seu filhinho amado , não se tornaria rico com aquelas notas ... O campus tinha um pavilhão abandonado . Lugares abandonados são os melhores para ter o mínimo de privacidade , que uma sessão de suicídio bem sucedida exige . Só iriam encontrar meu cadáver fedorento depois de semanas . Sem dificuldades despistei todos , pulei o muro , caminhei pelo pavilhão até encontrar o banheiro feminino . Conferi o nó da forca , amarrei a corda bem firme na zigota . Sentei na privada pra comer chocolates e fumar meu último cigarro , ouvindo a marcha fúnebre do Chopin . Sorri em silêncio , eu finalmente conseguiria desencarnar . Pulei da privada . Minha traqueia infelizmente não foi esmagada . Então fiquei ali balançando sem ar , com a corda ameaçando esfolar - me e pensando que devia ter encontrado um bom veneno . Me senti idiota . Minha visão embaçou , vi algumas estrelinhas e apaguei . As estrelinhas voltaram , respirar doía . Senti os lábios úmidos , o hálito quente de alguém , uma mistura de whisky barato e maconha . -Isso aqui é o inferno ? - Sabia que não estava morta , nem eu ,nem meu santo senso de humor . Abri os olhos e o vi pela primeira vez . Um homem barbudo , aparentando ter mais de trinta anos , moicano , camisa preta desbotada , tatuagens no lugar das sobrancelhas raspadas , olhos vivos . Atrás dele , as teias de aranha do teto do banheiro . - Não , mas gost ... - Nesse momento rolei e montei sobre ele tentando o estrangular . Bati a cabeça dele duas vezes no chão , fui arremessada para o lado com um soco na boca do estômago . Ele se aproveitou enquanto eu estava de bruços , com uma mão na barriga perseguindo o fôlego e sentou nas minhas costas . Bateu minha cabeça duas vezes no chão tampando minha boca . Eu pensei que ele fosse violar meu corpo . Estava parcialmente certa . Não era como nos filmes , porque doeu , me deixou tonta e com dezenas de ruídos ecoando por dentro . -Ontem eu vi uma galinha atravessando a rua , quando lhe perguntei porque , ela cacarejou ; Jesus não te ama ! A vida inflama . Na barriga da esperança . Nos calcanhares da decepção . No olhar da vingança . E na ausência de compaixão . Após essa declamação super-fofinha , escarrou longamente e cuspiu no meu ouvido . Pareceu cômico e nauseante ao mesmo tempo . Aquela coisa molhada foi escorregando aos poucos pra dentro . Me contorci em um grande arrepio . Então falou que iria me soltar e conversariamos . Tentei mover a cabeça de forma afirmativa . - Limpe os ouvidos - Jogou um lenço , segurando uma gargalhada . - Não se pode nem morrer em paz hoje em dia . - Murmurei , notando pela primeira vez o número 666 em sua testa e suásticas nas bochechas . -Já percebi que você não vai me agradecer . - Não tem nenhum negro , judeu , gay ou velhinha indefesa pra você infernizar não ? - Um dia a gente cansa disso . Porque tu queria morrer ? - Não tenha pena de mim , não estou com depressão , nem briguei com namorado ou com minha mãe , é que eu pensei demais sobre coisas ... Cheguei a conclusão racional , que o esforço de respirar não compensa . - Ótimo . Essa pelo visto não é sua primeira tentativa - olhando para as faixas nos meus pulsos. - Você iria apenas acelerar o futuro compartilhado por toda humanidade . Não tenha tanta pressa . Lhe proponho que antes disso , me ajude a investigar .Eu tenho um desafio . 6 meses , ou eu lhe convenço a viver ou eu me mato . - Ta falando sério ? - Entendi tanto quanto você . - Se aceitar me encontre amanhã , exatamente nesse horário , nesse local , e saberá se conseguiu o que queria .Aqui está , pense em tudo isso . Até . - Consegui o que ? Ele saiu correndo , mas antes me entregou um guardanapo rabiscado e gritou "Se quiser saber algo , apareça ! "
Ray Cruz.











