No dia 3 de fevereiro, comecei a escrever o texto que começaria no próximo parágrafo. Ele ficou maturando dentro de mim um tempão enquanto eu procurava as palavras pra contar o que eu não sabia ao certo o que era que eu queria dizer sobre uma oficina vivida dois dias antes. Taaaaanta coisa aconteceu nesses quase 4 meses (não é mesmo, pessoal?) que seria impossível continuar o texto de onde eu parei. Vou continuar então de onde eu não parei, de onde continuou ecoando por aqui desde lá...
Quintas agora são dias de olhar pra dentro para então olhar pro agora. São dias de pegar o busão no centro de São Paulo e uma hora depois chegar na Zona Norte, no Jardim São Paulo. E nesse caminhotempo enquanto saio do centro só o que faço é centrar em mim. E depois de achar o meu norte, voltar pro centro, mais uma hora de busão. Às vezes com os olhos embaçados de chuva, outras com o peito ardendo em sol, todas olhando pra mim e pra imensidão didentro que é definitivamente maior e mais complexa que São Paulo. E, mano… São Paulo é grande, viu!? Sobre as complexidades... melhor nem comentar. Quintas agora são dias de terapia. São dias bonitos, mesmo quando feios, mesmo que doídos.
1
Quebrar o silêncio
e depois recolher
os pedaços
testar-lhes o corte
o brilho
cego
2
Pagar para ver
e receber
em troca
vistas parciais
uns cobres
de paisagem
3
Dobrar a língua
e ao desdobrá-la
deixar cair
uma a uma
palavras
não ditas
E uma dessas quintas foi assim... dessas que fazem a sexta não acordar direito já que para acordar é preciso dormir.
4
Perder a hora
e encontrá-la depois
num intervalo
de teatro
nos cantos empoeirados
do domingo
entre um telefonema e outro
dentro do táxi
Encontrei a hora perdida da noite anterior numa sexta-feira bem dormida, de quando a exaustão te coloca na cama e te nina como uma boa companheira. E, como um relacionamento abusivo que é, me senti cuidada por ela, agradecida pela exaustão estar ali do meu lado.
5
Dar à luz
e então sondar
num átimo
de abismo
— como um espeleólogo
um cosmólogo
um cenógrafo
um guarda-noturno —
a própria
escuridão
Enfim… dormi. Pra poder levantar no sábado como quem levanta a barra da saia pra pular a poça no meio da chuva. Olhei a previsão do tempo, chuva na hora de voltar. Mas era só hora de ir, então peguei a bike, atravessei o minhocão e cheguei no portão dA Casa Tombada. Que estava fechado, assim como eu, porque né… quem quer se autorretratar depois de sacar que ainda está despedaçada? Tem bastante poesia aí, verdade… mas tem também olhos inchados de choro, nariz vermelho de alergia, cansaço estampado no rosto.
6
Perder a cabeça
e então buscá-la
nos últimos lugares
onde esteve
dentro da touca
de banho
sobre o travesseiro
entre os joelhos
entre as mãos
na casa demolida
da infância
sobre suas coxas
mornas
ainda
Mas o portão abriu, depois de alguns insistentes toques na campainha. A vontade de entrar ali ia crescendo a cada aperto mais demorado no botão da campainha e a cada risada que ressoava pela janela da casa criando a certeza de que dentro era o lugar mais incrível de se estar naquele momento.
E foi bem delícia mesmo entrar e dar um mergulho profundo na Oficina de Autorretrato Poético da Anna Charlie e do Daniel Ianae. Queria dizer tantas coisas das belezas desse dia...
7
Tirar fotografias
e depois devolvê-las
àqueles de quem as tiramos
à mulher fora de foco
em seu vestido violeta
à casa de janelas verdes
às paisagens
tomadas emprestadas
à casca
de cada coisa
aos vários ângulos
da Torre Eiffel
ao cachorro morto
na praia
Foi ali naquelas reticências que eu parei de escrever o texto. (Quase não) lembro que ainda queria contar das reflexões que os exercícios tecidos em versos e tintas despertaram. Que nesse dia conheci esse poema* que se entrelaça aos meus parágrafos. Que o convite pra essa oficina foi um desafio gostoso que topamos juntas, eu e a Gabs, numa aproximação bonita. Que nos abrigamos num bar ali do lado enquanto a chuva que ia cair na volta se transformou em tempestade (saudades de digerir as profundidades todas da vida tomando uma na mesa do bar juntas, Gabs! Mesmo que molhadas de chuva e choro…). Que voltei pra casa com o frio da chuva misturado com o calor da pedalada e que desviei o caminho do minhocão vazio pra ruas movimentadas de muita vida do centro. Que o retrato que guardo de mim daquele dia é poesia, porque estava inteira.
8
Cortar relações
e depois voltar-se
verificar se o que restou
suporta
remendo
demorar-se
sobre a cicatriz
do corte
9
Esperar horas a fio
e então desvencilhar-se
das coisas tecidas na espera
dos ponteiros do relógio
cada um mais lento que o outro
dos pelo menos dez cigarros
das poltronas de mogno
uma delas
vazia
10
Amar
profundamente
mas testar
volta e meia
se ainda
dá pé
Foi ali, naquelas reticências, que eu parei de escrever o texto, mas foi justamente delas que ele seguiu. Aquelas belezas ainda ressoam nos meus dias, talvez até mais intensamente agora nesse cotidiano isolado em que mergulhar em mim e encontrar poesia tem sido tão constante quanto vital.
Ainda queria dizer tantas coisas das belezas desse dia e dos encontros que surgiram dali, mas elas já estão se traduzindo em tantas outras poesias. E poesia é daquelas coisas que, se ficar explicando muito, esvazia.
11
Correr riscos
e ao fim arfante
da corrida
voltar-se
para avaliar
o traçado
12
Chegar em cima da hora
e espiar
de relance
como quem levanta o tapete
em casa alheia
o que ficou
por baixo
13
Esperar junto àqueles
que caíram em si
que caíram na risada
que caíram no ridículo
que caíram do cavalo
que caíram das nuvens
que a noite
caia
14
Quebrar promessas
e ao recolher os cacos
discerni-los
entre aqueles
do silêncio
quebrado*
E me lembro bem que, na verdade, eu comecei a escrever esse texto todo só porque eu queria compartilhar a escrita que surgiu de um dos exercícios propostos na oficina. Desculpa fazer vocês pegarem o caminho mais longo pra chegar até aqui, mas achei que era o mais bonito :)
A ideia do exercício era escrever uma carta para mim contando sobre um momento marcante da vida. Pra ajudar na hora de me autorretratar, de pintar meu rosto e meu momento, eu. Mas eu acabei não escrevendo pra mim, o remetente era outro. E na angústia de que ele não recebera até hoje minha carta, publico aqui, finalmente, para, quem sabe, ele poder ler (apesar de que talvez agora seja mais difícil ainda dele ser encontrado...).
Em algum momento do ano passado, 2019, eu te perdi… Acordei várias manhãs, bruscamente, te buscando. Colocava a mão no peito e você não estava lá. Sentava, um tanto desesperada porque você nunca tinha sumido assim, e nada. Na batalha entre o sono e a saudade, sua ausência sempre ganhava. E, ironicamente (ou não), essa ausência sua apareceu quando o Sono chegou. Sono, meu novo gato. Pois é… alergia fortíssima, mesmo convivendo intensamente com minha outra gata há uns 4 anos já.
Nas buscas médicas pra tentar entender o que acontecia, o porquê de você ter partido assim, descobri que meu pulmão tem um defeito… mas que muito possivelmente eu já tenha nascido assim e a natureza deu um jeito de contornar isso e te acomodar lá dentro sem muitos problemas…
No fim, eu ainda nem descobri o que te fez ir embora. Mas estou aqui tentando respirar com as memórias que você deixou. É um pouco estranho, você levou contigo os cheiros e alguns sabores. Meu nariz coitado, está numa tristeza só… se trancou em si. A bombinha de ar tem ajudado, mas não é a mesma coisa… Volta… Por favor.
* Visitas ao lugar-comum em O livro das semelhanças de Ana Martins Marques.