[Flashback] Great expectations | Charity Burbage & Mafalda Hopkirk | February 78
Quando Charity decidiu transferir os estudos para Hogwarts tratou de buscar o máximo de informações possíveis sobre a escola inglesa. O livro “Hogwarts, uma história”fora devorado durante apenas uma madrugada e a cada página lida era acompanhada de uma sensação estranha, como se uma brisa gelada invadisse todos os poros de seu copo, num calafrio de proporções gigantescas. De acordo com as histórias que ouvira de Monsieur Dufour (um de seus vizinhos trouxas que fora embrenhado na cultura hippie durante os anos 60) aquela parecia ser uma sensação bastante similar ao que ele provava com os efeitos do LSD. Como Charity jamais experimentara o tal ácido lisérgico contentou-se com a comparação.
Lidar com a ansiedade não era exatamente uma das habilidades da franco-inglesa que, desde o momento em que deixara o território francês, sentia como se seu estomago se embrulhasse como um origami japonês. Adaptar-se a uma nova rotina seria uma tarefa demorada e exaustiva, desde os onze anos estava habituada com os horários e tarefas predeterminadas da academia francesa, e como jamais fora uma pessoa que conseguia deixar os velhos hábitos com facilidade, tinha ciência de que sair de sua zona de conforto seria quase fisicamente doloroso. A imponência do castelo inglês também não ajudava a acalmar seus ânimos, os muros altos e arquitetura antiga a intimidava, porém, seu semblante estava muito mais próximo de um possível refluxo do que algo parecido com medo. Charity tinha o péssimo hábito de somatizar suas emoções, de maneira que sua principal preocupação ao adentrar no castelo era não vomitar no tal Sorting Hat.
Demorou um bocado de tempo até encontrar a tal sala de Minerva McGonagall. Havia lido sobre as escadas que mudavam de direção, apenas não havia imaginado que trariam tantas dificuldades e demandaria que subisse/descesse tantos degraus. Com as bochechas rosadas e cabelos levemente armados, finalmente encontrara seu destino.
Observou com curiosidade a estante de livros em uma das paredes antes de se acomodar na cadeira em frente à mesa da professora. Juntou os joelhos apoiando as mãos sobre eles, àquela era uma posição deveras desconfortável, mas também sabia que não era como se em algum momento conseguiria ficar confortável naquela situação. A bruxa demorou cinco minutos para retornar com um chapéu marrom surrado em mãos, para Charity pareceram cinco eternidades. Respirou fundo e fechou os olhos com força antes de sentir o chapéu tocar sua cabeleira.
“Interessante... Certamente não é uma dessas pessoas mais destemidas do mundo, mas com o estímulo certo se torna determinada o bastante para deixar os medos e anseios de lado.” Franziu o cenho se sentindo levemente ofendida. Obviamente não era o tipo de pessoa corajosa como sua mãe costumava ser. De Guènievre a única coisa que herdara era seu nome e as madeixas loiras, é claro. “Uma combinação incomum de passionalidade e lógica. Gosta de coisas concretas ao mesmo passo que sente necessidade em ajudar as minorias, hein?!” Se por minoria ele se referia aos nascidos trouxas, era de fato uma verdade. Sua convivência com os trouxas de Castelmoron-d’Albret fora um fator decisivo para seu interesse na cultura não mágica e não conseguia entender como os bruxos mais tradicionais (como, por exemplo, seus familiares paternos) não enxergavam a genialidade dos trouxas. “Prefere decisões baseadas em teorias, fatos e lógica, no entanto, é a sua intuição a direcione em suas escolhas. Acho que já sei...”
Ravenclaw. Mesmo não sabendo o quão bom era isso, sentiu um pouco aliviada. Todo o mistério não lhe fizera nem um pouco bem, concluiu. Massageou o próprio estômago como numa tentativa frustrada para que ele parasse de ameaçar refluxos. Não seria muito legal vomitar nos sapatos da tal Hopkirk que, conforme Minerva McGonagall informara, era a monitora de sua nova morada. Ecomo se iniciar um diálogo com sua nova mestre de Transfirguação fosse uma tarefa muito árdua, a franco-inglesinha apenas aguardou a chegada da garota de cabelos castanhos e grandes olhos da mesma coloração. – Olá. Charity Burbage, muito prazer. – apresentou-se com seu sotaque francês carregado ao mesmo tempo em que esticava a mão direita como num cumprimento. Por um ou dois segundos cogitou em esboçar algum sorriso, mas optou por não fazê-lo. As chances de um refluxo ainda eram grandes.