Daredevil by Felipe Fernandes
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Daredevil by Felipe Fernandes
Piracema by Do Amor from the album Piracema
Undum by Do Amor from the compilation rolê: new sounds of Brazil published by Mais Um
i finally drew something digitally after ages check this out
Felipe Fernandes
Felipe, Olhe eu aqui novamente escrevendo sobre você, depois de me prometer que jamais o faria depois daquele dia distante. E eu estou escrevendo sobre (e para) você porque, dessa vez, preciso desabafar. Não, Felipe, eu não me distanciei de você por causa de término. Eu não cortei nossa amizade porque não sentia mais nada. Eu não fui embora por raiva. Eu fui embora porque você doeu. E fez tudo sem pensar. Você se envolveu com ela e falou obscenidades comigo no mesmo dia. Falou que só eu servia para sanar suas vontades - e, logo depois, apenas minutos depois, disse que não deixaria de ficar com ela. Embora, é claro, só servisse eu. Além de ser incoerente, subjugava minha inteligência. Mais tarde, disse que sim, havia transado com ela, mas não me dissera anteriormente por medo. E depois desfez a pior mentira que você poderia ter me contado. O que você teria sentido se eu tivesse dito a você que tinha transado com outro? Sim, ainda dói. É por isso que não quero falar com você, porque cada meia palavra sua me machuca. Sua necessidade de sempre colocar em mim todos os defeitos, de sempre reclamar sobre como não me importo com seus sentimentos... Isso tudo é nocivo. É mais nocivo ainda porque você faz exatamente a mesma coisa comigo. Você não se importa com o meu sentimento a respeito dessa menina, não se importa em frisar, de modo desnecessário, que estava na casa dela, possivelmente transando, e que ela te deu todo o apoio do mundo - ou seja, como ela é aquilo que, supostamente, eu não dava para você. Por favor, pare com isso. Pare de querer me ferir. Pare de querer me atingir. Hoje, quando vi que você tinha lido o livro, realmente quis saber sua opinião. E ainda quero. Mas o meu medo a seu respeito supera qualquer coisa. Eu sinto muito. Eu estou me envolvendo com alguém. Por favor, não me faça sentir culpada por isso. Se você pôde, por que eu não poderia? Ele não é um santo, não é um anjo que caiu dos céus (como você a define), mas é um amigo importante. E, diferentemente de você, ele percebe quando ambos estamos errados. Embora jamais tenhamos brigado. Não me condena pelo mundo, não diz que eu o salvei e muito menos que sou a causa dos problemas. E eu não digo que ele me salvou. É algo simples, reto, retilíneo, como um feriado que caiu numa quarta feira. Eu espero de coração que você dê certo com ela. Mais do que isso, que você não a culpe, não cobre, não lamente sobre o quanto ninguém te entende - quando, na verdade, você não tenta fazer o mesmo. Quanto a mim: talvez dê certo, talvez não. Sinceramente, não estou preocupada com isso. Eu só quero paz. Então, por favor, Permita-me. P.s.: eu li aquela resposta no seu tumblr. A que ficou poucas horas no ar. Parte do que eu decidi responder depois disso, no whatsapp, advém de certezas adquiridas no seu texto. Peço que, por favor, não faça isso de novo. Não vomite em mim crueldades. Eu tenho respeito absoluto por você e espero o mesmo em troca.
Igraínne M.
Felipe Fernandes, Essa carta é pra você, unicamente para você. Aviso que não vai ser curta. Aviso também que não será nem um pouco bonita, de modo que, se você quiser, pode parar por aqui - fica por sua conta (em risco). Eu me prometi, há uma semana, que jamais escreveria de novo para você. Isso já me faz odiá-lo mais um pouco: eu estou escrevendo, novamente e infelizmente, para você. Bela merda. Após longas análises acerca do nosso pseudo relacionamento de 4 meses, cheguei a sete distintas conclusões, algumas livres de pontes, e outras intimamente ligadas. Sete, um número simbólico, como você bem sabe. A conclusão 1, como você pode prever, é: eu te amei. De verdade. E infelizmente. Essa coisa de amar é complexa. Cada um ama de um jeito. E esse amor que senti por você foi bem bonito, foi. Diferente, é claro, porque nenhum amor que a gente sente é igual ao outro. Mas acontece de a gente amar, às vezes, poucas vezes, desse jeito meio babacão. Tão babacão que nos leva a bloquear o outro. Contece, foi mal. A conclusão 2, que você a essa altura também sabe, é: você não me amou. Mas não se preocupe com isso, ambos sabemos que não foi por falta de tentativa. Afinal, segundo você, houve duas longas e depressivas tentativas. Como se eu não tivesse valido mais que isso. Para mim eu não tentei hora (porra) nenhuma. Eu estava acertando. Mas, como eu disse, você não precisa se preocupar com isso. A conclusão de número 3, também conhecida como conclusão-que-possibilitou-que -eu-chegasse-à-segunda-conclusão, é: você já ama outra pessoa. E é a distância. Agora você vai sentir na pele essa coisa da utopia de se esticar o braço e ser um completo inútil financeiramente. Porque, igual a mim, você é o elo miserável, sem um único centavo no bolso. Quero dizer, sem centavos quando você não quer, porque.... Conclusão número 4: você só tem dinheiro para quem o interessa. Para sair com ela, você arrumou. Para ir à festas com ela, você se desdobrou. Para dormir com ela, você fez do céu o inferno, pegou empréstimos. E eu? Ah, eu? Qual o meu nome mesmo? Sei lá, não se preocupe (de novo) com isso. Conclusão 5: Se ninguém lê o seu tumblr, se ELA não lê o seu tumblr, você sabe que eu o faço. Você escreve lá para, mais do que desabafar, me castigar por ter ido embora. Caso tivesse sido o contrário, você teria ficado? O que me leva à conclusão 6: você é um verme. Alimenta-se da tristeza alheia, trata mal quem mais lhe quer bem para, posteriormente, embebedar-se de dilemas que não tem e jamais teve. Doisdiasdepois. Doiscurtosdiasdepois. Pense nisso. Mais uma vez: Caso tivesse sido o contrário, você teria ficado? Fatídica conclusão 7: posso ser insensível, idiota, babacona, ridícula e desastrada, mas uma coisa que eu não sou é burra. Então, por favor, pare de escrever a respeito de Capital no seu Tumblr. Eu nunca mais vou lê-lo novamente. Ainda que eu não vá ler, porém, por respeito, não faça isso de novo. Não levante referências a mim. Falo (na boa) porque, infelizmente, eu.não.vou.voltar, e não vou em múltiplos sentidos. Eu engulo o choro, desamarro o nó na minha garganta, trinco os dentes e finjo estar ótima; burra eu NÃO sou. E eu não vou voltar. Caso tivesse sido o contrário, você teria voltado? Não. E nós dois sabemos disso. Adeus, Fernandes.
Igraínne M.
Essa é uma daquelas histórias que nos despontam em sonhos; claras demais quando acordamos e cheias de lacunas quando as escrevemos. Era noite. Eu nadava numa piscina límpida, a luz de uma luminária solitária batendo diretamente no meu cabelo comprido que balançava sob a água. Atrás da luminária, uma casa enorme, de um único andar, saltava para esconder o céu. De modo estranho, eu sabia que não estava vazia. Sabia que nela viviam pessoas que eu não gostava - e isso de imediato me lembrou realities shows de cunho tendencioso, embora eu passasse a tentar, a partir dali, ignorar a semelhança. Saí da piscina ao chamado de alguém de dentro da casa. Era a comida, ela saltitava com seu cheiro saboroso. Pingando e de repente congelando, caminhei da piscina à porta e entrei, passando por um vidro colorido que parecia advir de uma igreja. Senti-me adentrando outro espaço, embora ainda fosse a casa enorme que emoldurava a piscina: agora, eu vestia uma saia longa estampada, uma camiseta cinza e um cachecol vermelho. O tipo de roupa que me deixava à vontade em qualquer ambiente, independente da estação. - Hey, a gente só estava esperando você - disse uma moça morena que eu jamais tinha visto. - Senta aí. Hoje é carne! Eu sentei na bancada, uma espécie de bar, e a moça jogou, diretamente da frigideira sibilante, um pedaço de bife no meu prato. Olhar aquela comida, tão cheirosa em outro momento (e tão estranha agora) me deixava enjoada. E então um homem se sentou na minha frente. Como a moça que cozinhava, eu jamais tinha visto aquela pessoa antes. Ele era alto, esguio, tinha uma barba rala e pele bronzeada. No meu inconsciente, algo apitou, sinalizando códigos que, naquele momento, eu não conseguia compreender. - E aí! - ele cumprimentou, sorrindo. O sorriso dele era um amontoado de dentes perfeitos, uma espécie de dentição humanamente impossível. De alguma forma, diante do sorriso, imaginei já tê-lo visto ao menos uma vez, como um desconhecido que se fixa na nossa mente apenas para se tornar material para os pesadelos futuros. - E então, querida - ele continuou, pegando na minha mão. Um toque terrivelmente quente, quase como se ele estivesse queimando em febre. - Onde está a moeda? Moeda? Que moeda? Embora eu estivesse pensando em questioná-lo acerca da moeda, me ocorreu, enfim, que eu era incapaz de falar, fosse por medo ou qualquer outro motivo. O homem não pareceu se importar. Ele apertou o meu pulso. - Você sabe, querida. A moeda dos mundos. Ele falava da moeda como se falasse do anel do Senhor dos Anéis e aquilo me assustava. Eu não tinha moeda alguma. Tentei me desvencilhar do aperto dele. Ele segurou mais forte e seu rosto ficou mais bruto, como se ele estivesse se transformando numa espécie de gárgula. Pensei em gritar. Minha voz não saía. O pânico brotou, bem no fundo da garganta, pronto para ser vomitado. Eu não tinha a moeda. E então, antes que o terror transbordasse, uma figura surgiu, atrás de mim, vinda de algum outro canto da casa. Antes mesmo de olhar, eu sabia que era você. Eu tinha uma certeza irracional de que era você. - Solta ela - você disse, como numa frase clichê de filme norte-americano. O homem da minha frente parou de me apertar, mas não me soltou. Em resposta, você me aproximou, parando ao meu lado. Era o mesmo menino-homem que eu conhecia: vestia jeans e quadriculado, a loirisse refletindo no relógio de prata. Você não me olhou. Não olhou para ninguém a não ser para o homem. - Então, * - você disse o nome dele, um nome que parecia pertencer a alguma outra língua. - Sabe como é. O Conselho não permite. O homem arregalou os olhos, congelado. Você sorriu, simpático, e tirou de dentro da camisa um colar dourado, um tipo de colar que eu jamais tinha visto, com uma adornação estranha e brilhante. Na ponta, havia uma moeda. Uma moeda que cintilava e tinha uma inscrição numa da laterais, algo que eu não conseguia discernir o que significava. O homem soltou o meu braço. Embora eu soubesse que tinha sido por efeito da sua moeda, eu sabia também que aquela não era a mesma moeda que o homem estava procurando. - Obrigada! - você sorriu, me puxando para longe. Você cheirava a literatura. Era um cheiro absolutamente doce e delicioso, um tipo de cheiro que era capaz de acalmar. - Me siga - você disse, de modo seco. Eu o segui. Você caminhou pela casa e chegou a um corredor. Portas estavam enfileiradas nas paredes, todas a mesma distância uma da outra e todas do mesmo lado. Você escolheu a última, a mais distante de nós, e girou a maçaneta sem dificuldade, como se não precisasse de chave alguma para nada. Isso me fez pensar que talvez sua moeda fosse a chave, o que fazia certo sentido, embora eu achasse que não. Entramos no quarto. Era um quarto quadrado, sem móvel algum a não ser um sofá cama do lado direito. Era um ambiente escuro, difícil de se enxergar. A única luminosidade vinha da parede em frente à porta, uma parede que não era, de fato, uma parede. Era vidro. Ou talvez fosse blindex. Eu não tinha como ter certeza. A única coisa que eu podia ter certeza era de que, através do vidro, eu via outro mundo. Como se estivéssemos numa visita a um aquário, do outro lado era apenas água. Mas em vez de animais, eu via dragões esbeltos, animais alados (embaixo d'água) e gárgulas, todos nadando como se aquele fosse o ambiente deles. Mais do que isso: eles pareciam saber que eu estava ali. E pareciam estar procurando por uma forma de chegar até mim. Era uma visão completamente irracional e linda ao mesmo tempo. - O quê… - comecei, pela primeira vez falando alguma coisa. - Isso não importa agora - você disse, num tom apressado. - Eu preciso saber se você está com a moeda. Você me encarou. Também pela primeira vez, percebi que você não tinha olhado para mim até então. Seus olhos pareciam mais vivos do que nunca, seu rosto tinha uma expressão quase celestial e, enquanto eu te encarava de volta, sua fisionomia mudou por uma fração de segundo. Dei um passo para trás, assustada. - Ig? - você disse o meu nome, o tom agora mais acolhedor. Olhei melhor. Era você. Eu tinha certeza. Mas, por trás da sua imagem, eu podia ver um outro Felipe. Um Felipe que tinha o mesmo rosto, mas vestimentas amarronzadas, um tipo de homem do passado. - Eu não… eu não tenho moeda alguma - falei, num gaguejo confuso, um tipo de confissão pronunciada não só pra você, como para os animais fantásticos além do vidro. Você pareceu perceber o medo. Riu apenas uma vez, como alguém que acha bonito e singelo uma criança que tem medo de comer jiló. - Ouça - você começou. - Você tem a moeda. Ela brilha na sua mente quando você sente medo. É por isso que o homem na cozinha quis assustá-la. Fiquei quieta, esperando. - Você não precisa ter medo de mim. Você me conhece. Sua imagem voltou a se firmar quando você disse isso. Sim, eu o conhecia. O cheiro de literatura se intensificou, sinalizando que você estava mais à vontade. - Essa moeda é muito poderosa - explicou, calmamente. - Se você tem essa moeda, significa que você pode passar para o mundo paralelo. Esse mundo aqui - você sinalizou para o outro lado do vidro. - É importante que você leve a sua moeda para lá, porque o Paralelo precisa dela. - Eu não tenho moeda alguma - me defendi, nervosa. Você sorriu e novo, o tipo de sorriso que você dava quando queira cuidar de mim. Você estendeu a mão devagar e colocou sobre a minha testa. Fechei os olhos e senti uma queimação estranha, quase insuportável. Estava pronta para reclamar quando você tirou a mão. - Olhe - você pediu. Abri os olhos e olhei. Na palma da sua mão, entrei seus dedos, estava uma moeda dourada - a minha moeda. Ela tinha inscrições em latim, agora eu podia ver. Estava escrito “Ego sum caos”. - Só você pode ler a sua moeda. Assim como só eu posso ler a minha - você explicou. - Mas a sua é absurdamente poderosa porque permite que você veja o Paralelo sem estar nele. Permite que você veja o Paralelo até sem estar com a moeda. Quem tem a sua moeda, tem o seu poder. Pensei por um curto instante. - Então… A moeda é como minha alma? Você riu de novo, uma risada sutil. - Quase isso. Entenda como quiser. - Mas se é minha alma, por que então você a tirou de mim? Seu sorriso sumiu. - Ouça - você estava sério agora. - Não é como sua alma, tudo bem? Eu a tirei para protegê-la. Eu ia fazer isso de qualquer forma. Agora, quando você sentir medo, eles poderão ver que você estava, sim, com a moeda certa, mas que ela já não se encontra com você. Se estivesse com você, eles a matariam só para pegá-la. Pensei por um segundo. - Então eu poderia apenas fingir que não sinto medo, certo? Tentar me controlar. Você se aproximou, os olhos cintilando de modo cegante. - Eles conhecem os seus medos. É impossível - decretou. - Qualquer um pode ver o medo do outro, é um treino. Se eu não tivesse chegado, aquele homem a arrastaria para esse quarto bem ao nosso lado e estaria fazendo coisas com você. Coisas que eu não seria capaz de interromper, por simples limite de zonas. A zona dele é aquela. Essa é a minha zona. As paredes delimitam isso. Engoli em seco. Sim, era o meu maior medo. Um dos mais gritantes. Tão gritante que, por um segundo realmente insuportável e longo, pude ouvir meus próprios gritos no quarto ao lado. - E eu também posso ouvir os seus gritos, no fundo da minha mente - você disse, como se tivesse lido meus pensamentos. Nós nos encaramos, sua expressão muito firme, a mandíbula marcada por baixo da barba - como se você estivesse com raiva. Você respirou fundo apenas uma vez e se virou para o vidro. - Nós vamos pegar um trem - informou. - Sua moeda vai com uma mensageira. Não é seguro tê-la com você. Eu não respondi. - A mensageira mostra-se como uma figura diferente para cada tarefa. No nosso caso, imagino que ela apareça vestida de vermelho. Você estalou os dedos uma única vez, ainda sem me olhar. Uma menina de mais ou menos 12 anos, com os olhos arredondados e cabelos presos em duas tranças, surgiu no aposento. Ela vestia um poncho vermelho vivo e tinha uma boina da mesma cor. Segurava uma cesta de frutas, soando assustadoramente semelhante à chapeuzinho vermelho. - Apenas nós saberemos que ela é uma mensageira - você continuou, virando-se para a menina e entregando-lhe a minha moeda. A garota enfiou a moeda na cestinha. Imediatamente pensei que ela poderia guardar em algum lugar mais seguro, mas nada falei. - Para o restante dos mundos, essa menina é sua irmã mais nova - você decretou, agora num tom apressado. E, no instante seguinte, nós estávamos num trem. Era um trem antigo, com pessoas sem rosto ocupando quase todos bancos. Eu tropecei no meu próprio pé e percebi que agora eu vestia um vestido florido. Você revirou os olho e olhou em volta, em silêncio. Estávamos os três de pé, em frente à porta. O barulho dos trilhos sendo deixados para trás era quase ensurdecedor. Pelas janelas, eu via uma floresta fria, de algum país que eu jamais tinha visto. - Maninha - a menina apertou o meu braço. - Nós estamos longe? - Ah… Não sei, meu amor. Estamos longe, tio Felipe? Você não me olhou quando respondeu. Estava nitidamente prestando atenção em outra coisa. - Mais ou menos. Você caminhou dois passos para a direita, levantando o rosto. Tinha percebido alguma coisa que eu não conseguia ver. A menina segurou meu pulso mais fortemente. Num estrondo estranho, a porta do vagão se abriu, bem na minha frente, o trem em movimento. No instante seguinte, uma figura deformada, grande, escura e com garras agarrou o outro braço da menina e a puxou pra fora do veículo. Ela gritou uma única vez e vi, num borrão disforme, ela se debater, já do lado de fora, nos braços da criatura. Você xingou alto e deu um pulo na direção da porta. Mas já era tarde demais. O trem não havia parado. O dois já tinham se perdido em meio à floresta. A última coisa que eu tinha visto era a cestinha sendo jogada para longe. - Merda, merda, merda - você disse. - A gente vai descer na capital. Em choque, eu havia me agarrado ao suporte central do vagão, completamente congelada no lugar. As pessoas sem rosto, sentadas, nem sequer pareciam ter percebido a movimentação, o que era assustador. - Já íamos descer lá antes, mas agora desceremos no lago - você continuou, virando-se para mim. - Quando chegarmos lá, pergunte pela sua irmã, diga que ela se perdeu no trem. - Ah, ok… - gaguejei, ainda congelada. O lago da capital era, de fato, um lago. A água batia na cintura, uma espécie de agonia que me incomodava e me deixava querendo ir ao banheiro de cinco em cinco minutos. Você estava ao meu lado, com os braços sobre os meu ombros, possivelmente para me manter calma. Você sempre fora bom nisso. Sua imagem voltara a se firmar na figura que eu conhecia, o que me ajudava muito a não gritar a sair correndo. Por todos os lados, pessoas comuns caminhavam, era uma espécie de quadro surrealista que eu não conseguia compreender. Havíamos perguntado sobre “a minha irmã” a mais de vinte pessoas, sem qualquer sucesso. - Vamos nos separar - sugeri. - Quanto mais rápido a acharmos, mais rápido teremos… hm… a minha coisa. Você me olhou com cara de reprovação. Estava claro que você já havia pensado nisso antes, mas havia descartado a ideia. - Você sabe que estamos procurando a cesta e não a menina, correto? - você sussurrou. - Sei, sim - respondi. Você pensou por um breve segundo. - Tudo bem - disse, tirando o braço de cima dos meu ombros. - Mas tome cuidado. E então, você desapareceu. A inesperada ausência abrupta me encheu de pânico por um milésimo de segundo, e então só apertei os dentes, pensando que eu poderia fazer aquilo. A uma curta distância, havia um grupo de adolescentes - todos meninos, alguns fumando. Um deles se virou pra mim, mas não disse nada. Opa. Se ele tinha reparado em mim, eu podia usar isso ao meu favor - e provar ao Felipe que eu podia me cuidar. Me aproximei. - Com licença! - gritei. O menino que havia me olhado se virou, sorrindo. Cheguei mais perto. - Eu estou procurando minha irmã. Ela se perdeu de mim - expliquei, de modo pausado. - Ela estava com o cabelo amarrado em trancinhas e usava um poncho vermelho. O menino, agora eu podia ver, não era um adolescente. E sim um homem. Possivelmente regulava a minha idade, tão jovem quanto eu. Ele fumava e estava completamente de preto. Era bem bonito. Mas eu não o conhecia, apesar de o olhar dele me dizer o contrário. - Não sei se eu a vi - ele respondeu, sorrindo. O voz dele era absurdamente familiar. - Como não sabe? Ela é dessa altura… - continuei, agora com alguma esperança. O homem deu um passo à frente. - É, querida, eu não sei se a vi - ele enroscou um dedo no meu cabelo. - Mas posso vir a saber diante de alguns favores. Os outros homens atrás dele riram. Eu senti medo. Tentei controlar, me manter firme. Firme, isso, bem firme. - Se você a viu, por favor, me diga para onde ela foi. Eu estou nervosa atrás dela - continuei, ignorando o que ele havia falado. - Eu acho que você compreendeu, gatinha. O “gatinha” fez meu coração retumbar. Pronto. Medo. Estampado. O olhar do homem cintilou. - Ig! - uma voz gritou atrás de mim. A mesma voz que tinha me salvado não fazia nem um dia. Você se aproximou, dessa vez sem falar com ninguém, e agarrou o meu braço. Me puxou para longe com violência - estava puto. Eu me sentia uma criança que precisava de orientação, como se aquele sonho fosse uma espécie de Crepúsculo e isso me irritava (muito!). - QUAL É O SEU PROBLEMA? - você estava gritando. - Eles disseram que sabem da mens… minha irmã! - me defendi. Você olhou para o grupo de homens, agora bem distantes, e observou. - Eu não acredito - você soltou o meu braço para apertar a ponte entre os olhos. - Eu não estou acreditando. - O quê? - perguntei de volta. - Não acredita que eles realmente tenham informações? - NÃO! NÃO É ISSO! - você gritou. - Felipe, mantenha a calma. Não dá pra conversar com você assim - pedi, sem paciência. Você ficou me encarando em silêncio durante um curto instante. - Eles sabem alguma coisa - você disse, de modo pausado. - Eu consigo sentir. Mas só vão falar se você colaborar. - Ah! - respondi, num sinal de compreensão. - Bom, eu posso… - Não! Isso está fora de cogitação! - gritou, descontrolado. - Bom, que bom que você não decide nada, não é mesmo? - respondi, sorrindo. A cena mudou. Eu estava no fundo de um caminhão em movimento. Havia sentado ao lado de uma cesta de frutas (a mesma cesta de frutas da menina mensageira). A cesta, agora, encontrava-se vazia, todas as frutas estava alocadas sobre uma toalha de piquenique. Do outro lado da toalha, também sentado, sorria o homem que eu havia encontrado na capital. Ele era bonito, embora eu tivesse a certeza agora, que eu realmente nunca o vira antes. - E então - ele disse. - Agora que te dei a cesta, que tal nós… Você sabe - ele se aproximou, afastando a toalha. Sim, ele havia me dado a cesta. Não, minha moeda não estava lá. E eu sabia, de verdade, que aquela era a cesta correta. Não fazia o menor sentido. Ele ia me beijar. E eu não sabia nem o nome dele. Eu me afastei. - Por que a gente não conversa mais um pouco? Me conta de você - eu disse, improvisando. Ele suspirou, mas atendeu. - Po, você sabe que o Felipe é um aldruida, não sabe? A menção ao seu nome me desconcertou. Eu sabia o que era um druida, não um aldruida. - Olhe pra mim - ele continuou. - Esquece ele. Os olhos escuros pareciam dois copos de vinho tinto. O cheiro também se assemelhava à vinho, uma espécie de embriaguez do olfato. Pensei em deixá-lo me beijar. Ele era bonito, afinal. E eu merecia esquecer toda a história de moedas por um curto momento… Os lábios se tocaram por uma fração de segundo, e então você estava lá. Bem do meu outro lado. Não estava gritando, não fazia escândalo. Eu simplesmente sabia que você estava lá por causa do contraste de odores. Literatura contra bar de esquina. - E então? - disse o homem cujo nome eu não sabia. - O que houve, gata? Quando ele disse gata, eu entendi. Era um truque. Ele estava me enfeitiçando. Me afastei até quase cair para trás (sentada). Do meu lado, você me segurou. Gritei muito baixo, de repente rouca. E você deu um pulo, como se tivesse asas, para fora do caminhão em movimento. Não era estrada. Era lago ainda. Mas você pisou na água como se ela fosse, sim, estrada firme. A cena mudou de novo. Estávamos no alto de uma sacada que poderia ser o quinto andar de um prédio. Eu poderia ver, dali, a beira de um penhasco que acabava em mar aberto. Estávamos nos divertindo jogando moedas comuns lá embaixo, apostando quem jogava mais longe. Na água, sereias iam atrás das moedas, que afundavam com facilidade. Nós ríamos como duas crianças felizes. Olhando com atenção, eu podia ver que só havia sereias mulheres - e, no meio delas, as únicas outras pessoas do sonho, além de você, que eu conhecia: algumas eram colegas de faculdade, outras alunas do estágio. - Como você anda sobre água? - eu perguntei, de repente. Você bufou, soando cansado. - Eu te disse, Ig. É só você se concentrar. Parecia que você era meu mentor em alguma coisa importante. E parecia que eu tinha tido aulas exaustivas, muitas que nada adiantaram. - Combine seu medo à sua vontade. Necessidade e desejo, entendeu? - você continuou, tacando mais uma pedrinha lá embaixo. - É assim que você deixa sua criatura interior vir à tona? - perguntei. Você parou, em silêncio. - Desculpe - eu disse, entendendo que não devia chamar assim. - Tudo bem - você respondeu. - Eu já volto. Preciso pegar umas coisas. Você deu meia volta, saindo da sacada sem me olhar. Me debrucei no parapeito, respirando fundo. Era noite, exatamente como, no início do sonho, eu nadava na piscina. Naquele instante, lá no passado, eu não sabia das moedas. Se eu soubesse, talvez tivesse brincado de buscá-las no fundo da piscina da casa grande. No Fundo Da Piscina. Era isso! Minha moeda estava no fundo do lago. Moedas eram atraídas por água. Era por isso que eu estava sempre nadando e todas afundavam quando jogadas em lagos. Porque elas tentavam se prender à água. Eu precisava voltar ao início da capital, onde a moeda havia se perdido junto com a mensageira. A mensageira era uma criatura não viva, mas a minha moeda não. Ela podia brilhar. Olhei para trás, esperando que Felipe estivesse comigo. Ele não estava. Um momento de ansiedade se seguiu, onde eu tive medo que alguém encontrasse a moeda antes de mim. Num momento de surto e desespero, subi no parapeito e pulei. Não gritei. Senti meu cabelo chicotear e o meu corpo zunir. Concentração e desespero. Necessidade e desejo, ele havia dito. Eu precisava daquilo e desejava aquilo. No instante em que meus pés tocaram o lago, bem próximo de duas sereias, elas surgiram. Duas asas enormes, amareladas, maiores que meu próprio corpo. E então entendi o que Felipe tentara dizer sobre andar e caminhar sobre o lago. Era mais do que isso. Embora fosse difícil me manter em linha reta, eu sabia que o lago era mágico e eu podia “voar” dentro dele. Mergulhei, sentindo toda a força gelada me atingir. Dei meia volta e segui, o mais rápido que eu conseguia, como um tiro, para os portões do lago, perto da primeira estação do trem. Passei pelos monstros, mansos, que eu havia visto através do vidro no quarto do casarão. E depois de um instante, sob a água, eu podia ver, ao longe, as duas criaturas de pedra que vigiavam o portão. Elas pareceram ter me visto no mesmo instante, e se moveram de seus lugares, saindo dos próprios postos. Por um segundo, pensei que os dois dragões fossem me atacar. Mas eles não o fizeram. Como deuses, eles esticaram as mãos, cada um segurando, por uma ponta, um colar que tinha no centro uma moeda que eu conhecia bem. Com inscrições em latim. Passei direto entre os dois, o pescoço em posição, e eles soltaram no momento exato, atando a moeda a mim. Sorri comigo mesma, virando para cima, a fim de voar para os céus. O oxigênio, límpido e ao mesmo tempo cintilante, pareceu vibrar com o impacto. As asas giraram e fui o mais alto que pude, como um anjo que tenta retornar. Eu não havia percebido, até então, que tinha fechado os olhos para sair do lago. Abri-los, abruptamente, me fez perceber que o Paralelo parecia mais bonito do que antes, especialmente fora da água. A felicidade bateu e em mim e me jogou de volta, em pleno ar, para baixo. A cena mudou, de novo, dessa vez para a última das cenas, eu sabia. Novamente eu estava na sacada e uma mulher que eu jamais vira na vida tinha vindo me chamar. Seu semblante me dizia que eram notícias ruins e, quando ela as pronunciou, eu simplesmente dissera “não”. Atrás da mulher, eu correra as escadarias, a fim de transformar a minha pressa em remédio para o mal. Descera todos os andares do que parecia ser um prédio integralmente branco, rodeado de flores, como uma instituição do divino, e parei na beira do lago. Lá, justamente na beira do lago, você estava. Deitado no chão, sem ferimentos no corpo, mas completamente imóvel. Você não tinha mais asas e sua imagem piscava entre o homem alado (o anjo) e o você que eu conhecia. - Ele trocou de lugar com a senhora, Ig - me informava a moça que me chamara. - Ele percebeu que o seu ápice de felicidade a levara para o colar de moedas sem a proteção adequada. Ele fez a troca sem nosso consentimento. - Ele podia ter feito isso? Ele tinha autorização? - perguntei, numa voz esganiçada. - Ele tinha poder, ele é um deus, afinal. Mas autorização, não. Só quem podia autorizar era o Conselho de Deuses. Ele nem sequer está no conselho, senhora. Ele está um nível abaixo do Conselho. Eu não respondi. Apenas olhei para você, olhei para seus olhos abertos. Chorei. Chorei de verdade. Senti minhas pequenas asas sob o vestido que sinalizava minha posição (eu sim fazia parte do Conselho) e desejei, assim como você havia desejado, estar no seu lugar. Tentei fechar seus olhos. Você os abriu de novo. Verdes como um mar ao contrário, o mesmo cheiro de literatura. - Quando os olhos não se fecham, senhora - explicou a mulher que havia me chamado novamente. - É porque apenas um corpo dele se foi, ainda que a outra parte não esteja bem para permanecer viva por muito tempo. Eu olhei para você de novo. Conseguia ver, sob o ângulo falho, que sua parte criatura havia se perdido, ao contrário do que acontecera com os deuses dragões, que haviam perdido sua parte humana. Para te salvar, eu sabia o que fazer. Sabia que nós dois deveríamos voltar, abrir mão das moedas. Uma moeda pela outra. Exatamente a troca que você havia feito. E eu, enfim, acordei.
Igraínne M.