As incríveis aventuras de Bippo e Kippo // parte 1.
Bastou incidirem os raios de sol da manhã sobre as pálpebras cerradas para Kennedy despertar. Fora, entretanto, um ato letárgico; a cabeça latejando em decorrência da ressaca enquanto piscava para se adaptar à luz. A mão foi até a boca na falha tentativa de conter um bocejo, e apenas após se inclinar ele tomou consciência do peso sobre seu abdômen. Confuso, baixou a vista, notando um braço ao redor de seu tronco. O braço de Felippo. E, virando o rosto na diagonal, notara também a cabeça que repousava serena sobre seu peito, ainda repleta de glitter da noite anterior.
Bayard sorriu. Era um sorriso comedido e abobalhado; admirado. E o era porque, dormindo, Felippo transmitia uma aura de tranquilidade completamente contrastante à comum personalidade agitada. A mão do braço que servia de travesseiro fora gentil até as pontas dos cabelos encaracolados, mas deteve-se antes de encostar de fato, receando acordá-lo. O LaGardé julgava ser facilmente capaz de se acostumar a presenciar aquela faceta todas as manhãs. Todas as manhãs de todos os dias. Porque, se não falhava-lhe a memória, a noite passada havia sido um divisor de águas no relacionamento que costumava esconder-se atrás de abaffiatos e feitiços de ocultação.
Se fizesse um paralelo, perceberia estar na mesma posição que há alguns meses, quando dormira com o Rizzo pela primeira vez: Fim de festa, ambos bêbados, uma das noites mais intensas de sua vida. Levado pelo calor do momento havia finalmente se entregado ao desejo reprimido que, à época, descobrira acompanhá-lo; o mesmo que teimava em disfarçar envolvendo-se com mulheres sem um pingo de sentimento. Lembrava-se perfeitamente de acordar na cama vazia inundado por um sentimento confuso, algo entre êxtase e extrema culpa, arrependido, ainda que não em sua totalidade. Descera as escadas para encontrar um Felippo brincalhão e insinuativo, mas as desconfianças de Kennedy o impediram de retribuir as expectativas. Fora grosso. Fora rude. Um completo idiota. Não o seria mais.
Admitir não estar nervoso seria uma mentira deslavada. Mais do que isso: Bay estava morrendo de medo. Assumir Felippo era um risco grande e complexo que envolvia abrir mão daquele orgulho que vestia como armadura desde que precisou ser forte por Emmeline; Desde que resolvera tomar como sua a responsabilidade de servir de exemplo e reconstruir o sobrenome da família. E, mais do que o preconceito de Aurores brocos e homofóbicos em sua grande maioria, teria de lidar com o temperamento de seu pai; encará-lo nos olhos e receber a reprovação e as palavras duras que o homem de certo esbravejaria. Teria de ser forte e corajoso como nunca antes fora.
Se ao menos aquele momento pudesse durar para sempre. Ter Felippo em seus braços e sentir a respiração quente contra seu peito, acariciar seus cabelos e permitir-se relaxar como se não houvesse nada além dos dois e daquele quarto de hóspedes. Não seria justo, porém. Felippo tinha anseios e merecia alguém que o exibisse com tanto orgulho quanto ele tinha de si próprio, que segurasse sua mão nos corredores e beijasse seus lábios sem pudor ou medo de julgamentos. Kennedy já o havia mantido nas sombras por tempo demais, e como cedê-lo a outro não era nem remotamente uma opção, estava mais do que na hora de ser quem ele precisava.
Seus pensamentos foram interrompidos quando sentiu o movimento alheio. Bay voltou a dar-lhe atenção, passando os dedos por sua testa e deslizando-os até atrás da orelha, onde começou a fazer um carinho vagaroso. “Bonjour, dorminhoco.”















