As incríveis aventuras de Bippo e Kippo // parte 1.
A primeira coisa que Felippo sentiu ao acordar foi um extremo mal estar. A dor de cabeça, o estomago revirado e a garganta ardendo, tudo indicava que ele havia exagerado na bebida na noite passada e, pouco a pouco, foi se lembrando dos acontecimentos. Lembrava-se de ter desabafado seus sentimentos com Claire, de ter tentado tirar o nervosismo com doses e mais doses de sopro de dragão, de ter comido uma bala de extrato de ferrão gira-gira erroneamente, vomitar no casaco de alguém, jogar bebida em Oberon e se lembrava de Bayard; a maioria lembranças da festa eram com ele, as melhores lembranças também. O que o levava pra onde estava agora, deitado no quarto de hospedes, envolto nos braços de seu namorado.
Ouviu a voz doce o cumprimentando, sentindo o carinho alheio, o que o fez estender um largo sorriso ainda de olhos fechados, estava com medo de que quando os abrisse sua cabeça fosse doer mais por conta da luz. Aninhou-se em seus braços, puxou o corpo do outro um pouco mais para si, se permitindo sentir seu cheiro, sua pele. Ele sentiu que poderia ficar ali para o resto da vida, até a ressaca parecia insignificante perto da felicidade que aquele momento lhe proporcionava. - Buon giorno, mio bello. - O respondeu de maneira preguiçosa, com a voz saindo rouca.
O cenário todo parecia um sonho, seu melhor devaneio, e talvez fosse por isso mesmo que seu subconsciente o alertava que logo iria acordar para a realidade. Rizzo se lembrava de todas as palavras de Bay durante a festa, lembrava-se que ele havia lhe garantido que as palavras não mudariam no dia seguinte, mas seus medos e inseguranças gritavam dentro de si, tentando lhe dizer que estava enganado. Talvez eles estivessem deixado seu relacionamento claro para a festa inteira, mas aquele era um ambiente propício para isso, o que aconteceria quando voltassem para escola? Kennedy teria se quer ao seu lado nos corredores? Iria tomar coragem para contar ao patriarca dos LaGardé? No fundo, Lippo ainda tinha medo que o mais velho o olhasse nos olhos e dissesse que tudo havia sido um arrependimento, da mesma forma que aconteceu com os antigos namorados, afinal, era sempre assim que acabava, com o outro arrependido e Felippo de coração partido. Porém, mais forte que suas inseguranças falava sua esperança. Ele queria acreditar em Bayard, queria confiar nele e se sentir seguro naquele relacionamento. Por isso, estava escolhendo ignorar o sentimento ruim até que ele se calasse por completo, e a cada prova que Bay lhe dava, sentia o medo mais e mais baixinho. Talvez essa fosse a diferença do ruivo para os outros, ele era o único que lhe dava algum tipo de segurança.
Ele abriu os olhos a fim de ver o rosto do namorado, mas a luminosidade fez com que ele os fechasse de novo quase que imediatamente. Tentou uma segunda vez, agora conseguindo mante-los abertos. Abriu um largo sorriso ao ver o rosto alheio, não se importaria se acordasse com aquela imagem para o resto de seus dias. Como havia presumido, a luz do dia intensificou a dor de cabeça, fazendo com que levasse uma mão até a própria testa. - Cazzo, parece que a festa saiu la de baixo e foi pra dentro da minha cabeça porque não é possível uma coisa dessas. Eu nunca mais vou beber, pode escrever ai, nunca… nunca mais é muito tempo também né, não vamos exagerar, eu to querendo enganar quem? Mas eu vou ficar um mês sem beber. Talvez uma ou duas semanas. Mas eu não quero sentir isso de novo não, é muito ruim credo. - Inconscientemente, escolheu um assunto banal para falar. A verdade é que ele ainda não queria falar sobre sentimentos ou significados, só queria estender aquele momento o máximo que conseguisse.
Gostava de ouvir Felippo falar em italiano, soava exótico. Seu conhecimento do idioma era parco, mas suficiente para entender palavras de cumprimento como aquelas. O país também nunca o havia interessado muito até conhecer o bruxo, de modo que detivera-se a noções geográficas básicas e à mitologia greco-romana. Pensar naquilo, enquanto o sentia aninhar-se e enlaçar-se em si com um pouco mais de vontade, levou Kennedy à conclusão de que deveria conhecer a família Rizzo. Oficializar um namoro, ao menos da maneira decente, incluía pedir permissão aos pais do outro e, no mínimo, passar uma noite ouvindo histórias constrangedoras de infância enquanto vasculhava junto à sogra um álbum de fotografias antigo. Talvez fosse em decorrência da criação -- ou da falta dela -- mas tradições sempre foram importantes para Bayard, passavam certa sensação de marco. E ele queria aquilo genuinamente, por mais ultrapassado que pudesse parecer.
O comentário fez Kennedy soltar uma gargalhada. Não havia bebido tanto até a metade da festa, uma vez que ajudava na organização e na reposição das bebidas, permitindo-se aproveitá-la de fato apenas quando grande maioria dos convidados já estava completamente alterada -- e isso incluía Felippo. Se mesmo daquela maneira sua testa latejava incomodamente, sequer podia imaginar a fanfarra que deveria estar a dele. Tateou então a mesinha de cabeceira ao lado da cama, lembrava-se vagamente de ter largado a varinha por lá antes de adormecer. Assim que a encontrou, bastou um movimento firme e silencioso para a esquerda e as janelas fecharam-se sozinhas, levando embora metade da luz excessiva. Bay estava ficando particularmente bom em feitiços não-verbais desde que entrara na Academia de Aurores, principalmente por sempre praticá-los no clube de duelos. “Está melhor assim?” perguntou com doçura, curvando os lábios num sorriso. “Uma semana é o suficiente pra recuperar esse seu fígado guerreiro. Precisava ver a festa de comemoração do time quando ganhamos o campeonato contra os Feue de Durmstrang. Jenex passou dois dias inteiros desacordado na enfermaria com coma alcoólico, foi hilário.” a diversão da lembrança alargara o sorriso, mas logo lembrou que o colega de quadribol era amigo de seu namorado. Bay então moldou no rosto uma expressão séria, ou o máximo perto disso, assentindo enfaticamente enquanto se retratava. “Quero dizer, foi bem preocupante. Muito, muito preocupante.” uma risadinha involuntária escapou ainda assim.
Soltando a varinha sobre a cama, levou os dedos até o braço de Felippo e passou ali o polegar de maneira ritimada. “Eu estava pensando… como é mesmo o nome da sua cabra de estimação?”














