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Pequeno Pássaro
Ó, pequeno pássaro, Por onde voas? Por que voas tão longe de casa? Disseste-me que, se te libertasse, Voavas de volta.
Ó, pequeno pássaro, Por que mentiste? Por que não voltaste?
Ó, pequeno pássaro! Voas de volta! Voas de volta para mim! Prometo não te abandonar ao ninho Prometo voar contigo pelos céus!
Pequeno pássaro... Com quem voas? Pequeno pássaro...
-AC
— Não precisa dizer obrigada, eu fiz.. porque eu gostei de você.
— Ãhn, como assim? — ela se lembrou da vez que o Lucas proferiu aquelas mesmas há muito tempo atrás, quando os dois eram apenas criancinhas.
— É, você, com esse jeitinho sem jeito, e esses olhos e mãos vacilantes. Com a boca que abre, pensa, e fecha.
Ele era observador, mas ela também era. Só estava admirada com tamanha percepção em tão poucas olhadas. Era quase como se ele conseguisse desvendar cada cratera que ela havia por dentro, apenas olhando fundo em seus olhos. Enquanto ela era descoberta, ele era um mistério. Um mistério loiro, de olhos azuis e olheiras profundas.
— Enfim, o que você faz da vida, Guilherme?
— Ah, claro. Não sabe aceitar elogios. Enfim, — ele a olhou fundo nos olhos, como se a quisesse hipnotizar — eu toco violão em bares, componho canções e etc. E você?
— Eu queria me formar em Medicina, mas acabei trocando para Letras em Inglês, e agora estou dando aulas. Puta inferno.
— Crianças podem ser terríveis... Eu imagino. Mas com uma professora com você eles devem ser bonzinhos, não?
— Eles são, mas às vezes... — ela respirou, e tentou botar o cabelo para trás da orelha, ainda segurando o cigarro. Suspirou. Olhou para ele sorrindo. — São pequenos diabinhos.
— Você quer, sei lá, sair daqui?
— E ir para onde?
Ela sabia muito bem onde ele provavelmente iria sugerir. Sua casa, seu apartamento. E ela por um segundo pôde pensar que ele era diferente. E mesmo assim, não conseguia acreditar que ele pudesse ser igual. Claro, é muita ilusão de sua parte pensar que o cara que acabou de conhecer num bar pudesse ser o amor de sua vida, quando o amor de sua vida estava nos braços de alguma loira. Estava? Não fazia importância. Talvez, aceitasse o convite, só para quem sabe, se vingar um pouco de Lucas e tudo que ele havia feito para ela.
— Eu poderia tocar alguma música para você. Não sei... só me arranjar um violão.
— E você é bom nisto? — ela deixou a surpresa transparecer em seu rosto e suas palavras e ele chegou a dar um pequeno ar de quem estava prestes a rir.
— Estou sendo bem pago, então, acho que sim. — os dois riram. Tudo calmo e natural. Não era aquela simpatia forçada entre estranhos, era algum tipo de entendimento mútuo. Algo bom e sincero. A fazia sentir bem, e quase apagava todos aqueles sentimentos errados e melancólicos.
— E bem, onde vai arranjar um violão? — ela estava ficando com fome. Toda aquela conversa jogada fora, e todo aquele entusiasmo não mascararam o fato de que já passava o meio-dia e sua barriga roncava.
— Para sua sorte minha cara, o show do Guilherme, também toca neste bar! — ele falou com voz de locutor de circo. — Meu violão está ali atrás. Eu só deveria chegar daqui umas seis horas, mas enfim, é a vida, certo? Que tipo de música você gosta?
A voz aveludada foi se esvaindo enquanto ele ia se aproximando do pequeno palco nos fundos do bar. Ela se levantou e o seguiu com certa curiosidade. Tudo estava escuro, até que ele acendeu uma pequena luz. Ela pôde ver o violão de pé, e o microfone suspenso. Ela já achava que neste momento ele poderia ter bebido demais e estar um pouco fora de controle. Aí ele sorriu, e ela sentiu seu coração palpitar. Ela já havia pensado infinitas vezes em como ele era bonito, e encantador. Ele era generoso, afinal estava ajudando uma completa estranha. Era talentoso e fazia algo da vida. Entendia como era difícil não depender do dinheiro do papaizinho rico.
— Eu vou tocar uma música que eu adoro, e que acho que combina muito bem com você. Você e o jeito estranho que uma estranha pode me fazer sentir.
Então a voz aveludada foi mais surpreendente e começou a cantarolar Oasis. Step outside the summertime's in bloom...Stand up beside the fireplace, take that look from off your face. Ela adorava aquela música, e cantarolava baixinho. Quando ele cantou At least not today, ela se levantou e aplaudiu. Era a única ali, fora o bartender, que o encarava com desdém. Ele provavelmente se perguntava se Guilherme ganhava todas as mulheres daquele jeito. Provavelmente também, considerou aprender a tocar violão, a ir passando de bar em bar para achar alguma mulher que tivesse a metade da doçura, da beleza e da fortaleza que ele enxergava na pequena ruiva.
— Então, o que achou? — ele passou os dedos no cabelo, sorrindo. Envergonhado.
— Ah, eu? Não gostei muito não sabe..
— Mas por quê? — os olhos caíram, e o sorriso sumiu.
— Ah, você não me deixou terminar! Eu amei, eu amo esta música. Você tem um bom gosto musical. E tem uma ótima voz também!
— Sério? Eu vi que você gosta de Cazuza, o toque do celular..
E ele subitamente parou de falar assim que notou a frieza e o vazio tomarem conta dos olhos dela. Ela cruzou os braços, como se quisesse evitar que algo escapasse dela. Ele pôde ouvir os pensamentos dela de tão altos que estavam. Ele com certeza não deveria ter mencionado a droga da música. Deveria ter algum tipo de significado. Ele queria consertar as coisas.
— Ei, ei. Não fica assim. Você gosta de Joan Jett? Tem algo dela que eu posso tocar. Fazer algum solo de guitarra. Não sei... Você deve estar pensando, bem aonde está a guitarra, tá lá atrás eu posso...
— Fica quietinho, só por um instante? — a voz falhada, chorosa, rouca. Como se houvesse usado o resto de suas forças para proferir aquela súplica.
Ele se aquietou. Assistiu ela vagarosamente se mover, descruzar os braços e sentar na beira do palco. Olhou para cima como quem dissesse para se controlar, para não chorar. Então encarou os pés. Ficou assim por uns cinco minutos, até que teve a coragem de se levantar.
— Você conhece algo do The Smiths? — ela tentou sorrir, uma, duas vezes. Na terceira deu certo.
— Serve There’s A Light That Never Goes Out? — ele era um orgulho para ela, nunca havia ouvido algum inglês tão perfeito, e praticamente limpo de sotaques.
Ele cantava Take me out tonight... Because I want to see people, I want to see life, e ela via como a letra se encaixava no momento. Não toda ela, mas algumas partes. Don’t drop me home, because it’s not my home, it’s their home and I’m welcome no more. Não era como se ela não fosse bem-vinda em seu próprio apartamento, onde morava sozinha. Ela só não se sentia à vontade. Ela precisava de alguém, qualquer companhia que fosse para salvá-la das lembranças, da necessidade enorme de se machucar. De voltar atrás nas decisões. Ela queria alguém que entendesse, e enquanto o observava cantar, notou que ele entendia. E que ele não iria machucá-la. [...] Camila Reis