O vi umas quatro vezes no ônibus.
Seu cabelo tem cor de café,sua pele tem cor de espuma, suas roupas nunca tem as mesmas cores,ele deve ter entre vinte e vinte quatro anos,um fone está enterrado em seu ouvido,o outro pende, balançando de acordo com o balançar do ônibus.
Ele estava de pé,o ônibus está quase vazio a essa hora,nesse lugar,sempre está,ele continuava de pé.Sua mão,despida de qualquer anel se enrolou em um dos canos de metal que servem para se apoiar.
Eu continuei olhando,ele contínuo olhando a paisagem que passava pela janela.
Lá na frente,as palavras "parada solicitada" se acendem em laranja,um som agudo encheo o ar,eu costumo descer duas paradas depois,ele se encaminha para a porta,eu olho o balançar de seus fones,então me levanto,isso tudo deve soar um pouco assustador,mas eu preciso saber um pouco mais,na verdade o considero uma pessoa comum,nada se destacava sobre ele.
Mas eu também sou comum,no entanto estava lá reparando um outro ser que também é comum,isso não é nada comum.
Então,ele saiu andando na direção oposta,seu cabelo cor de café balança a cada passo,observo ele se afastar por algum tempo,então,me viro e ando na direção oposta.
E a alguns dias lhe vi mais uma vez,ele usava roupas sociais,preto e brancas,não vi nenhum fone.
Ele desapareceu depois disso,acho que deve ter comprado um carro,ou pegar um táxi agora.
Hoje descidi descer no ponto dele,ando na direção oposta,tenho um fone enterrado na orelha,o outro pende balançando de acordo com meus passos.
Está nublado.
Pessoas de roupas sociais passam por mim,nenhuma é ele,na verdade,talvez seja,não consiguia me lembrar de seu rosto.
Pego o próximo ônibus que passa,tem espaço para se sentar,fico em pé.
Ele estava no ônibus,ele me olha nos olhos e pisca,eu pisco o mesmo de volta,abro a boca para falar alguma coisa e ele faz o mesmo,mas não falamos
Eu saio.
Ele aparece na janela e diz:
Espero lhe ver amanhã.
















