UMA DOENÇA CHAMADA PROTESTANTISMO II
Um Anti-Católico Primário Assume-se
Gosto de pensar que este texto não é para quem desejar brilhar com tiradas que nos põem nos tops das redes sociais. Exige alguma concentração e isso tende a ser custoso para quem anda a caçar likes. Nestes parágrafos ponho o coração na boca para vos confessar a minha condição cardíaca de cada vez que tenho de reflectir sobre documentos da Igreja Católica Romana. Ainda não é agora que avalio mais simples e analiticamente o “Fratelli Tutti” (está quase!). Aqui continuo apenas à porta, tentando da melhor forma que consigo assumir os meus preconceitos, conceitos, e pós-conceitos, até porque, como já vos tentei explicar assumindo que sou uma criatura do Génesis 3 num mundo que quer parar no 2, não acredito em leituras neutras.
Quero começar por reconhecer que não sou indiferente aos evangélicos que hoje em dia querem dar uma de sofisticação intelectual alinhando com o que o Papa Francisco diz (tendo a odiá-los), e quero reconhecer que não sou indiferente aos católicos romanos que me tratam com generosidade e inspiram a minha fé (tendo a amá-los e tentei fazer-lhes alguma justiça no texto anterior). Estes dois tipos de pessoas interferem com a paz de espírito de que careço para ler “Fratelli Tutti” e, por isso, não tenho como negar a existência de um conflito interno. Bem-vindos à minha leprosa leitura do Papa, sempre caindo aos pedaços ao mesmo tempo que crê que uma limpeza maior tem de ser possível.
Comecemos pelo que sou: um “anti-católico primário”. A palavra “primário” é-nos hoje especialmente ofensiva. Quando é colocada depois de alguma classificação, tem o poder de nos reduzir a bestas. Quando sou chamado de “anti-católico primário”, ou eu mesmo assumo que o sou, é provável que se torne moralmente aceitável que o que quer que diga acerca do catolicismo não mereça ser tratado com seriedade. Se, sendo o tal “anti-católico primário”, me tornar parecido com uma besta, a única seriedade que podem ter comigo é a de não reconhecerem humanidade à minha posição—fico fora do jogo, algures no universo dos primários, ou mesmo dos primatas. A melhor interacção que existirá será eu poder ser contemplado por seres humanos, dignos dessa humanidade, que me poderão ver a mim, dentro de uma jaula adequada para a minha condição primata. Resumindo: ser um “anti-católico primário” torna-me bicho do zoo. Cá estou eu, semi-enjaulado neste texto para o proveito da vossa observação.
Mas sabem, não me interessa contestar que usem a palavra “primário” para mim porque acredito que ela me elogia. O meu anti-catolicismo primário não é apenas um instinto animal, ainda que reconheça que também há muito de irracional nele. Sim, reconheço que, por ser Protestante num país de maioria Católica, é fácil (muito fácil mesmo) reduzir os erros do mundo ao Catolicismo. E reduzir os erros do mundo ao Catolicismo não mostra grande inteligência, reconheço. No entanto, há no meu anti-catolicismo um carácter primário que resulta de crer que ser anti-católico é uma consequência de compreender as coisas principais—daí a palavra “primário”. Onde quero chegar é a esta afirmação: com toda a aparência de burrice, creio que há alguma inteligência em assumir-me como “anti-católico primário”.
Há alguma inteligência em assumir-me como “anti-católico primário” porque o Catolicismo, como qualquer religião, ao fazer afirmações de tendência absoluta acerca da existência, trata de assuntos principais ou primários. Não é possível não exercermos algum tipo de comportamento primário em relação à religião quando a religião exerce um tipo de comportamento primário em relação a todas as pessoas. Independentemente do credo específico de qualquer religião, cabe-lhe pronunciar um juízo principal sobre a existência, juízo esse que inevitavelmente integra o universo das crenças principais na vida do que crê. É por isso que as pessoas que, reivindicando algum tipo de adesão religiosa, fazem-no relativizando o alcance dogmático das suas crenças, são o pior tipo de trafulhas. Até o relativismo é uma forma de dogma. E ser relativista em relação a uma religião que supostamente se confessa é afirmar dogmaticamente que nada é dogmático (podemos fazê-lo por sermos burros ao ponto de não compreendermos a falácia em causa, ou porque simplesmente queremos mesmo endrominar os outros, entre outras hipóteses).
Logo, assumir-me “anti-católico primário” é apenas tomar como principais as coisas que digo em relação ao que o Catolicismo toma como coisas principais. Ser um primário em assuntos de religião não é apenas o reflexo possível de ser uma besta (possibilidade essa que, em relação a mim, continuo a não descartar); é também em função daquilo que pode ser o melhor em mim, ao distinguir as coisas mais importantes das outras (esta ideia expressa em inglês é que resultava mesmo: being primary about religion is not only about what may be beastly in you; it may be about what you indeed know best). Chamarem-me “anti-católico primário” pode ser o melhor elogio que recebo vindo de pessoas que apenas queriam insultar-me. E, sabem, sentir-se elogiado pela tentativa de insulto dos outros é, para mim, uma religião—também é isso que me torna Protestante e assumidamente “anti-católico primário”.
Em função da lógica muito estreita que quero estabelecer neste texto (porque, como já devem ter entendido até aqui, sou todo acerca de lógicas estreitas), resumiria o Catolicismo a um insulto na tentativa de um elogio. É isso mesmo: é assim que quero resumir os milénios de discussão dentro da Cristandade. Por que considero o Catolicismo errado? Porque o Catolicismo insulta-nos enquanto nos tenta elogiar. Porque considero o Protestantismo certo? Porque, se na vida há algum elogio possível, será certamente e apenas através do insulto. Nas crenças religiosas não há grande hipótese de nos esquivarmos de paradoxos, por isso, escolha o seu (os anti-religiosos hão-de chamar-lhes pura e simplesmente contradições).
De cada vez que leio um documento oficial da Igreja Católica Romana, e da pena do Papa Francisco em particular, não consigo evitar convulsões salivantes, próprias de quem se toma como reencarnação rústica de Lutero num país que nunca o respeitou. Como me costuma dizer um colega pastor, num português evangélico e cuidado, “até me bolso todo”. Sabem, parte do problema é o esquema heróico que o Protestantismo infantilmente concede a qualquer Gru, o mal disposto (no Brasil, “Meu Malvado Favorito”). Onde o Catolicismo adora a acção certa para atingir o bem, os Protestantes adoram fazer coisas que parecem erradas para se livrarem do mal. São duas religiões opostas, neste sentido. Reconheço que o excesso Protestante é o do trolha entornado: a leitura literal da Bíblia já lhe serviu de bagaço no mata-bicho matinal e, com a marreta na mão, rebentar tudo é apenas vocação divina. Mas estes excessos revelam entendimentos sobre a existência realmente antagónicos e que nos melhoram a vida quando compreendidos.
Como vos disse, não é neste texto que vou entrar na leitura crítica de “Fratelli Tutti” do Papa Francisco. Isso, se Deus quiser, ficará para o seguinte. Para o efeito pretendido destas linhas, tudo isto é prolegomena. Mas é um ponto de partida necessário da viagem. Há algumas coisas que elogiarei no texto sobre o que escreveu o Papa Francisco. Como calculam, as coisas que não acho elogiáveis serão aquelas onde me exprimirei com mais exuberância. No entanto, tomei como necessário o reconhecimento formal destas tais duas visões contrastantes e totais que separam Protestantismo e Catolicismo (não me posso ocupar neste texto das margens existentes em ambos, de Católicos que operam sob lógica Protestante, e de Protestantes que operam sob lógica Católica—a vida é tramada e o pessoal tem de aprender a orientar-se nela e, por isso, give me a break). E o fundamental, quando leio o Papa, é lamentar que ele me ofenda tanto enquanto me julga elogiar. O pior nesta ofensa, nem é a dor por me sentir mal-tratado; é o que calculo ser a alegria dentro do Papa por estar convencido de que me ama mesmo. Estes romanos são loucos… Como é que o Vaticano pode estar tão certo do que diz só porque o que diz parece bonito?
Não me parece ser justo culpar um Católico por ser coerentemente Católico. Mas, por outro lado, também não me parece justo tomar como Católico o que um Católico toma como essencial à sua fé em 2020, só porque ele assim julga. Ou seja, para se ser realmente Católico não basta afirmar-se (daí que a piada se constrói acerca da certeza que um Protestante assume em seguramente ser mais Católico do que os Católicos Romanos). Portanto, uma das minhas reclamações fundamentais em relação ao “Fratelli Tutti” será, não apenas da ordem mais filosófica que até aqui tenho tentado apontar, mas de ordem histórica. E esse continua a ser dos pontos mais fracos da história do Catolicismo contemporâneo: a ânsia de universalidade (sendo a Igreja de todos os tempos em todos os lugares e para todas as pessoas) tende a verter-se na típica abstracção que não lida muito bem com a chatice dos factos históricos. O Catolicismo contemporâneo exige uma releitura histórica altamente selectiva para poder mostrar-se inclusivo.
Como é que funciona esta releitura histórica selectiva para efeitos de inclusividade total? Usando de omissões brutais e de simplificações ainda maiores. Dou agora um breve exemplo do “Fratelli Tutti”, que explorarei posteriormente nos próximos textos: a tradição franciscana (de Francisco de Assis) é usada como lógica global da encíclica, ignorando qualquer outra tradição dentro da Igreja, como se a história se fizesse de superação simples em superação simples (aliás, esta questão da “superação simples” dava pano para mangas porque traduziria a influência hegeliana no Catolicismo contemporâneo, mas agora vocês não estão com pachorra para este rumo da conversa—nem eu!). A pessoa não precisa de ter um doutoramento em Idade Média para saber que a Cristandade sempre reconheceu dentro de si debates que eram reflexo de entendimentos contrastantes: basta ter visto o “Nome da Rosa” em filme, e nem sequer ter tido a fortuna de ler o romance do Umberto Eco, para recordar as acessas discussões acerca da personalidade de Jesus (neste caso, se ele e os discípulos riam ou não). Simplificando: a postura de Francisco de Assis, que se colocava como irmão universal de todas as criaturas (animais incluídos), é uma tradição dentro de inúmeras na historia da Igreja. Repito: uma entre inúmeras. No entanto, o Papa assume-a como se história de divergências não existisse. Chapa-a na introdução e a partir daí é piloto automático. Será que, se alguém disser que no cristianismo há espaço para não concordar com a ideia de irmandade universal, nesse sentido, está errado? Aos olhos de uma interpretação histórica rigorosa, não. A prova é que, no geral, o Protestantismo, como fenómeno histórico consequente dos debates que existiam dentro da Igreja, e não fenómeno histórico consequente da imposição deles, continua a não assumir o que o Papa toma como óbvio.
Por isso, o Catolicismo insulta-me quando julga me elogiar. O Catolicismo tem vindo a aperfeiçoar o dom incrível de reclamar para si pessoas que, com alguma razoabilidade, não querem nada com ele. Esta última encíclica é especialmente insuportável porque parte do princípio que chamar todas as pessoas de irmãos é o segredo para ninguém cometer o sacrilégio de julgar que pode não pertencer à família. Em várias expressões da cristandade não se assume que, por todos termos sido criados por Deus, somos filhos dele—assim é na tradição à qual pertenço (muito sucintamente, filhos de Deus são os que através da fé em Cristo são tornados seus filhos adoptivos). Não nego a necessidade de reconhecermos semelhança entre todos os seres humanos: é isso que está em causa doutrina verdadeiramente universal entre todas as tradições cristãs de considerarmos que todo o ser humano é feito à imagem e semelhança de Deus. Não nego a necessidade de reconhecermos a amizade como o melhor caminho entre todos e tornar isso uma preferência nas sociedades que desejamos. Todas estas são preocupações que partilho com o melhor que o Papa escreve nesta encíclica. Mas, como anti-católico primário que sou, quero apenas defender um mundo em que, por triste que pareça, me assista a liberdade de sair da casa do Papá, que é a palavra que está por trás de Papa. Até para ser um Filho Pródigo que regressa, talvez seja útil não partir do princípio que qualquer casa é de família.












