o amor fez em mim um alvo aos nove anos após ter dado a curva montado em uma bicicleta vermelha, sem freios. o amor sorria pra mim, com a boca e as covinhas, com os olhos e o levantar das sobrancelhas. o amor me convidou nas piadas, nos sustos, nos cuidados e nos cafunés antes de dormir. no banco de trás do carro, com seus braços cruzados e apoiados no do motorista, enquanto seu indicador fazia correntes elétricas estrondosas na pele no meu braço. no balançar das redes, enquanto os grilos harmonizavam o tom da despedida e nossos dedões involuntariamente se atraíam na tentativa de formar um nós que ninguém poderia separar no dia seguinte. na roda de piada, quando nossos corpos sentados lado a lado já sabiam que se pertenciam mesmo sem pertencer, e seu braço deu a volta em minha cintura, alcançando com a mão a minha perna para que você pudesse me entregar sem palavras todas declarações engolidas a força.
desde então, eu não tive mais escolhas, mais volta, ar, palavras, pulsação, batimentos cardíacos ou qualquer nome que se dá a sentimentos que explodem e transcedem. o amor fez a curva e tomou conta de todo o meu campo de visão. ele sabia. e eu também.
hoje, quando meu queixo se encaixa perfeitamente na curva do seu ombro e eu sinto o cheiro que é só seu, sempre me lembro da imagem do menino-amor e sorrio. penso que é uma grande bobagem quando digo que não existe nenhum lugar em que eu me sinta em casa. lar sempre foi essa fortaleza que me recebe, onde minha respiração quente transmite tranquilidade no seu ouvido. é aqui onde sempre quis estar, desde que o amor fez a curva em alta velocidade e, mesmo desenfreado, parou a tempo, exatamente na minha frente.
- g.s.















