as letras miúdas que caminham o meu corpo
vêm de um engasgo; um entalo no fundo da alma.
(fitei).
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as letras miúdas que caminham o meu corpo
vêm de um engasgo; um entalo no fundo da alma.
(fitei).
Unknown
Girl with Pearl Earring, at the museum - Johannes Vermeer
tudo o que eu não queria
você é uma farpa
do tamanho suficiente pra incomodar
e fazer gritar pelo abandono
você é uma falha
na imensidão de um vazio
que rompe e invade minhas sinapses
até no sono
você são as horas de ócio
enferrujadas nas dores
gastas por reprimir tremores
e tudo o que eu não imaginei de uma árvore robusta
mas tinha em você
tuas raízes eram tão fortes
que tudo o que te tocasse
parecia invicto
e isso me distraiu
você, sem raiz,
trouxe ao chão essa folha ainda verde
e observou a secura abalar
o tempo rastejar
e destruir aquela esperança pueril.
- g.s.
esperei
com paciência
pelo momento
em que meu coração fosse bater
mais rápido que as asas de um beija-flor
por minuto
e pela surpresa
que roubaria as palavras
de uma escritora
- g.s.
― Fyodor Dostoevsky, The Brothers Karamazov
o que me causa espanto
é pensar
no que fomos
e em como o tempo
corre
e corrói
desrespeitosamente
a gente,
a nossa memória.
Se eu fecho os olhos, tento me agarrar a qualquer espaço do tecido no colchão com as minhas mãos. Porque existe a chance de eu voltar pra lá. 10m² dos silêncios mais sujos que eu presenciei. Não quero estar lá. Mas existe tanto detalhe que o tempo me traz de volta. Tanta lamúria, desculpa, fúria. Tanta imaginação que eu cultivei, sentada ali. Tanta pureza que eu desgastei até perceber que me perdi.
Sem sucesso, saturo as cores que eu vejo nesse quarto. Branco, amarelo, azul, verde, marrom. Quero que saturem até que sumam da minha mente. Quero não saber mapear cada parte desse cenário e me desfazer dos gritos que não dei. Apagar meus rastros. Não me sentir presa em meio à caça, aceitando o destino. Porque eu consigo sentir o vento bater nas pequenas cortinas azuis, o cheiro úmido da toalha salmão estendida na cabeceira, a textura da madeira antiga da cama, a tensão no equilíbrio da cadeira quebrada sustentando o ventilador, a cômoda com gavetas e segredos emperrados, os objetos jogados, largados como eu.
Eu, deitada no travesseiro baixo, com meu corpo tomado pelo tremor, esperando a promessa se tornar real. Eu, movendo um colchão no espaço ao lado de onde ele dormia, esperando acordada, com medo de ser assustada com seus movimentos e sua presença de repente no meio da noite. Eu, sucumbindo em suor e lágrimas. Eu, sentindo suas palavras e dedos me atravessarem sem pedir, sentindo seu corpo me interromper, sentindo o gozo forçado sair. Eu, em cima da cama, presa entre ele e a parede num espaço sufocante - o ar abafado mesmo com as janelas abertas, cada partícula inspirada se tornava alívio e culpa no meu corpo (como duas sensações poderiam caber em um mesmo instante? eu não saberia dizer). Eu, contando os minutos e vendo eles se tornarem horas na minha cabeça enquanto espero um bom momento pra ir me lavar. Eu com ele, sozinha. Eu com o silêncio, sem vida.
- g.s
via instagram
“7-30” by Yizheng Ke
- Matilde Campilho - Jóquei.
por muitas vezes achei que eu seria mais bonita na morte do que na vida.
ser noticiada pelas grandes mídias e finalmente ter o meu trabalho reconhecido
(afinal, ser artista parece mais poético quando já não se pode ser mais nada)
ter os meus rascunhos jogados aos quatro cantos do mundo e as pessoas tentando descobrir qual veio primeiro
o que era verdade ou mentira
e dizer isso requer uma coragem muito grande
dessas que eu quase nunca tenho
porque percebi que sim
talvez eu pudesse ficar mais bonita estando morta do que viva
mas
para quem?
eles leriam os meus versos
alguns mais próximos seriam consumidos por uma tristeza durante alguns meses
e seguiriam suas vidas
volta e meia esbarrando no que sobrou de mim
enquanto eu
estaria morta
nem desfrutar da minha beleza trágica
eu conseguiria
por isso, me mantenho aqui
intacta
publicando quando dá na telha
cantando canções no único tom que sei cantar
escrevendo da única forma que sei escrever
vivendo a vida entre medo e coragem
que é a única forma que sei
viver
mas ainda sim
felizmente
vivendo.
mv
(escrito no dia 11 de março de 2022)