O vidro dilatava as formas. Peixinhos. Peixões. O aquário todo de azul no calor do verão. Andava despreocupado. Os sapatos folgados. A blusa amarela e fresca. O sorvete de limão derretendo entre os dedos. Nenhum drama. Nenhuma perda. Nenhum amor desiludido. Nada que o fizesse olhar para os animais e pintasse neles a matéria de sua dor sofrida. As arraias eram apenas arraias flutuando na transparência com suas asas enormes. Os peixes palhaço dividiam suas vidas com as anêmonas, sem perdas. Outros peixes passavam sem que soubesse seus nomes. A vida era fácil. E as tardes de terça podiam ser gastas levianamente em aquários, cinemas, parques. O tubarão passava galante vestido de ócio enquanto rêmoras operárias comiam suas impurezas. Tartarugas antiquíssimas dormiam dentro de suas cascas próprias, sua casa. Inocentes do vidro que os prendiam tubarões, tartarugas e peixes palhaço nadavam despreocupados. Ninguém os comeria. Mas rêmoras e sardinhas batiam constantemente no fronteira e voltavam submissos ao espaço circunscrito em que se relativiza a palavra liberdade. Também o mar aberto tinha limite: talvez não saibam as sardinhas. Com certeza as baleias-azuis que encalham na areia da praia e ainda vivas sentem a navalha cortando a carne desejando óleo. Liberdade é não dar o próximo passo. O celular tocava. Mais um convite para mais uma festa. Podia recusar? Afinal o que faria em casa, sozinho? Ser sozinho era tão longe que nem se caminhasse muito tempo não ficaria só. Assim não se sabia. Assim podia parecer: livre. O cirurgião-patela nadava azul-azul como se não precisasse de mais nada para ser feliz. As ostras fechadas em si mesmas retiravam da miséria sua fortuna e para si guardavam: egoístas. As estrelas-do-mar perdiam pontas, mas logo se refaziam como se não pudessem morrer: hereditárias de sua dádiva. Talvez merecessem o que tinham, pois muito tinham se esforçado. Alguns peixes não cresciam por falta de espaço e não por falta de capacidade, dizia o guia. As focas pareciam espertas, porém adestradas só comiam o que lhe davam na boca, jamais iam atrás do que fosse bom pois não sabiam distingui-lo. Logo chegaria o aniversário: precisava pensar na lista de convidados, não chamaria Ana – o pai perdera o emprego e ela agora morava de aluguel num bairro muito longe. Também não gostaria de ganhar roupas de grife ou perfume francês, já enjoara de tudo o que tinha. Esses peixes nadam em grupo para se defenderem, mas ao se aproximar o perigo se dispersam e deixam pra trás o mais fraco, dizia o guia apontando uma massa escura que logo se desfez ao surgir os dentes afiados do tubarão. Caminhavam até chegar num recinto em que os quatro cantos eram feitos de aquário e os animais nadando pareciam tão certos da vida inútil que levavam que esse estoicismo tirava deles todo o tom trágico e o transferia para as pessoas do lado de fora: também em aquários. Não ele. Parado olhava com superioridade os peixes, todos ornamentais na posição em que se encontravam. O guia pedia para que se aproximassem para ver algo lá no turvo das águas. Encostou o rosto no vidro e não pôde ver: viu apenas o reflexo no vidro. A superfície sem desejo. E lá dentro o peixe maior comia o menor o sangue manchando a água e todos se afastando horrorizados com a própria animalidade naufragada há milhões de anos. Colocada em aquários também: os pequenos ódios, a soberba, o asco por gente que não fosse como a gente: na sala em cima da mesa, no quarto, no banheiro, no elevador de serviço, em pequenas redomas a fúria domesticada. Depois saía de perto do vidro, sem nada ter percebido. Arrastava os sapatos de couro italiano pelo piso frio. Os lírios-do-mar ondulavam seu aroma de morte, dissolvido na água quem sentiria? Há muito acabara o sorvete. Olhou o relógio: era tarde pra ir a lugar nenhum. Precisava ir embora para não se atrasar para nunca. Deixou peixinhos e peixões bem guardados ali e ganhou a rua. O sol era forte mas não escorreu uma gota de suor pelo rosto, sempre perfumado. Colocou então os óculos escuros e a claridade diminuiu em muitos tons: assim não via as formas nas sombras e podia andar sem culpa enquanto trinta foguetes rasgavam o céu de Teerã. Mas era verão no meu país tropical: graças a Deus.