Lembranças de um futuro presente.
Tudo começou quando eu tinha uns seis para sete anos, foi quando a minha vida estava começando a chegar perto da ponta do iceberg sem que eu fizesse a mínima ideia. Hoje eu sei, e sou agradecida a várias sessões de psicanalistas e psiquiatras, pela minha calmaria ao conseguir falar sobre isso hoje.
Não eram dias com muita coisa em comum, a não ser o fato de que estávamos sozinhos e meus pais, estavam em algum lugar, tentando colocar o casamento pra cima. Não os culpo, não tenho coragem e nem posso culpá-los, pela falta de consideração, respeito e bom senso (para não dizer outras barbaridades), de quem estava comigo naquele momento.
Há dias, em que você se pergunta, o porquê que você deixaria aquilo acontecer, sendo que no fundo, você sabia que aquilo por algum motivo que você não faz ideia, era errado. E isso não tem resposta, além de, você ter que se convencer que você não tem culpa de nada, porque você não sabia e não era sua obrigação saber. Mas é isso que mata, mesmo que ninguém admita, a culpa. Você começa a culpar seu corpo, sua vaidade, seu amor próprio, seu humor, sua inocência, tudo que você tem de bom, você culpa e se destrói pelo o erro do outro. É ai, que você começa a ser desleixada, a se cobrir inteira, a não amar ninguém nem a você mesma, a ser arrogante, mal humorada e a colocar todo dia tem malícia em qualquer bom dia que houve, de qualquer um, não importa o sexo, a idade ou parentesco.
Você não vai querer admitir, que você carrega isso com você, mas você vai ter sempre, em algum momento ou em todos os momentos, aquele sentimento de que nada te machuca mais, de que nada te toca mais, de que você está morta por dentro, que não vale tentar nada, que você só quer ficar sozinha, que o amor é uma merda e sempre negar a proximidade de ninguém, você não vai ter foca em estudo, não vai pensar no seu futuro, vai inventar defeito para as pessoas mais improváveis do universo, sem fazer a única coisa que você deveria fazer, admitir, lidar e seguir em frente. É isso que a terapia tenta enfiar na sua cabeça. E quando você não tiver um bom desempenho e sua psicóloga for louca o bastante igual a minha, ela vai te dizer: “É o seguinte, eu posso tentar fazer você falar, posso dizer que você precisa de psiquiatra, que tem tendência suicida e que provavelmente, vai acabar se matando em qualquer esquina, posso te dizer o que precisa, mas eu não posso fazer uma única coisa, fazer que você não desista de você. Então, por favor, lide com isso, lide até ter idade para fazer o que te faça bem. Mas enquanto alguém te mandar, não tente não viver, porque eles vão exigir isso de você, sem entender o que você ta sentindo por dentro e o quanto você não quer viver, e vão te forçar a viver, mesmo que seja dopada em um quarto com uma cama, uma escrivaninha, flores e nada pontiagudo. Você sabe como é um manicômio, ou como eles dizem, um lugar de “apoio”. Eu aprendi a amar você, suas dores, seus sorrisos, seu esforço, e não quero, aliás, eu exijo que você não deixe ninguém te dizer como viver e suportar até você poder voltar aqui, me abraçar e me dizer que está indo pra onde você se sente bem. Seja onde for, longe daqui, numa cidade grande, numa fazenda, em qualquer raio de lugar. Viva! Mesmo que só pra você ou só pra mim!” Adianta, acreditem! É brutal, mas eficiente. Acho que ela foi a primeira mulher que eu me apaixonei. Como mulher, óbvio.
Bom, naquela época, eu não sabia no que pensar ou se poderia falar para alguém, o que eu era instruída é que era um segredo para dois, eu e ele, que era especial, uma brincadeira, brincadeira de amor, para ser mais exata. Certas coisas não são cogitadas a serem faladas, mas poderá eu, dar a mim mesma, a chance de reviver mesmo quem em lembrança, o horror que mudou tudo que eu poderia ser hoje. Não, obviamente.
Vamos aos danos. Isso me danificou, como pessoa, como mulher, nas escolhas sobre profissão, na maneira de lidar com tudo, na maneira de ver o mundo, na maneira de amar minha família, na chance de confiar em alguém, na chance de amar alguém, na minha arrogância, na minha insegurança, no meu humor, nas minhas mudanças de humor. Isso acabou comigo, com quem eu poderia ser. E mesmo que eu não posso me culpar por isso, se eu continuar me destruindo e deixando que a minha vida tenha um ritmo diferente do de uma pessoa sem traumas ou histórias para superar, eu seria muito mais fraca se continuasse de cabeça baixa de frente a isso tudo. Os danos que me causaram, não são algo que eu posso retroceder e arrumar, mas são consequências que eu posso e consegui driblar com o tempo. Embora quem eu seja, continua me afirmando, por onde eu passei, é um preço a se pagar. Minha profissão, me confirma autonomia, superioridade, igualdade quanto ao sexo contrário. A maneira de lidar e de ver o mundo, é de forma que eu consiga terminar o dia e não de fazer planos para o dia seguinte. O amor, a confiança, a insegurança, humor, são sempre inconstantes. E as mudanças de humor, essas são diárias, em segundos, em minutos. Seu podia começa linda, mas se uma criança passar ao seu lado... Se um humor falar alto com uma mulher... Se passar uma cena na tv.... Se você ver uma roupa que te lembra, um perfume, um baralho, ou Deus me livre, se um cara que você conheceu te falar uma única frase igual ou parecida com a que você ouviu, naquelas horas quase que eternas que você passou ali, calada se questionando do seu valor e do caractere de quem estava, em cima de você.
Quando você cresce, e sua vida adulta te chama a responsabilidade, os danos são escandalosamente maiores, seus relacionamentos, suas responsabilidades, seus compromissos se tornam carmas dá qual você não pode abrir mão, e te atormentaram todos os dias e a cada vez mais, você pensa em uma forma de se tornar algo o mais distante possível de uma relação de importância ou um simples carinho. Eu me identifico com médicos. Dizem que eles deixam as suas famílias e sua vida pessoal de lado, para cuidar da vida pessoal e da família de seus pacientes. E olha, cem horas por semana trabalhando, não é nada comparado, a anos convivendo com a pessoa que te dá ataques de pânico e te deixar vulnerável a qualquer momento, totalmente instantâneo, sem você consigo ter qualquer tipo de controle, das suas próprias reações. O tempo todo, somente o tempo todo, eu cogito a possibilidade, de voltar a aquela infância cheia de traumas, que eu não sabia que eu tinha, só para não pegar as consequências de tudo, depois que se passou. Ou até mesmo, a terminar, o tormento que eu vou ter que continuar a viver, até que então, eu não esteja mais... Viva!