O Regresso de Jefté de Gileade
O quadro complementar de "David Encontra Abigail", da autoria de Johann Georg Platzer (1704-1761) e pintado por volta de 1725-1730 é "O Regresso de Jefté de Gileade".
Este é outro episódio bíblico integrado no período conturbado das guerras entre as tribos de Javé, que antecedeu a unificação sob a égide do grande rei David.
Uma vez mais o episódio, embora menos conhecido que o encontro de David e Abigail, não foi só pintado por Platzer. Outros artistas o fizeram, antes e depois dele, como Giuseppe Varotti, Édouard Debat-Ponsan, Giovanni Battista Pittoni ou Gustave Moreau, entre outros.
Jefté é um personagem do Antigo Testamento que foi o 8º juiz de Israel por um período de seis anos, entre a conquista de Canaã e o primeiro rei.
A sua história encontra-se em Juízes 11, embora seja também mencionado em Juízes 12, 1 Samuel 12, Hebreus 11 e na Galeria dos Heróis da Fé.
Jefté viveu em Gileade e foi um membro da Tribo de Gade. Na divisão das terras de Israel, a tribo de Gade (7º filho de Jacob) ficou com a terra além do Jordão, a terra de Gileade.
Depois de ser expulso da casa do pai, após a morte deste, pelos seus meios-irmãos, por ser filho de uma mulher canaanita (algumas versões afirmam que seria filho de uma prostituta), ele foi viver em Tobe, a leste de Gileade, onde se tornou um guerreiro e líder afamado de homens.
Os amonitas entraram em guerra contra os israelitas e estes não tinham nenhum homem com as qualificações de Jefté, homem valoroso e guerreiro, para comandar o seu exército. Pelo que os anciãos foram buscá-lo na terra de Tobe.
Segundo o historiador dos hebreus Flávio Josefo, quando os anciãos de Israel suplicaram a Jefté que lutasse por eles, de início ele recusou, pois quando ele fora expulso por seus irmãos de sua própria casa ninguém o ajudou, mesmo todos sabendo que ele era o filho primogênito. Jefté acaba contudo por aceitar a proposta, com a condição de, caso saísse vitorioso, ele seria o líder de todos os habitantes de Gileade.
Estrategicamente, para evitar derramamento de sangue, Jefté tentou negociações com os reinos vizinhos, no que não obteve sucesso, pelo que partiu para um ataque temerário sob a direção de Deus. Antes da batalha decisiva, porém, Jefté faz um voto solene a Deus: se voltasse vitorioso, ofereceria em sacrifício a primeira pessoa que saísse de sua casa para recebê-lo.
Ao retornar vitorioso, a sua única filha saiu ao seu encontro, para dançar e celebrar. Ao ver a filha, Jefté rasga as suas roupas e lamenta, pois percebe que fez um voto que não pode quebrar.
A filha aceita o seu destino, pedindo apenas dois meses para se despedir da vida, chorando a sua virgindade com as amigas nas montanhas. Após os dois meses, ela regressa e Jefté cumpre o seu voto, sacrificando-a. Daí surge o costume, no povo israelita, de as mulheres saírem anualmente, para lamentarem a filha de Jefté.
Existem porém diferentes interpretações sobre o significado deste sacrifício. Alguns interpretam o cumprimento do voto como um sacrifício humano literal, enquanto outros sugerem que ela foi dedicada ao serviço de Deus por toda a vida, como virgem perpétua.
A história de Jefté é um alerta sobre a importância de pensar antes de fazer promessas e as consequências devastadoras das decisões impulsivas. Mas é também um regresso do Deus impiedoso de Abraão, que exige ou aceita sacrifícios humanos, em nome da fé do seu povo eleito.
Na arte o episódio é retratado sob várias perspetivas distintas. Por um lado há os que enfatizam o regresso de Jefté e a terrível constatação que teria que sacrificar a sua única filha a Deus, em cumprimento do seu voto. É o caso dos quadros de Platzer, de Varotti, de Gustave Moreau ou ainda de Giovanni Antonio Pellegrini. Outros preferem o dramatismo do sacrifício literal da filha virgem de Jefté a Deus. É o caso de Giovanni Battista Pittoni. Finalmente alguns, como Charles de Sousy Ricketts ou Édouard Debat-Ponsan, retrataram a jovem e as suas virgens amigas, durante o retiro de dois meses na montanha, que antecedeu o sacrifício, dando um carácter mais erótico a um episódio bíblico, na sua essência, profundamente dramático e violento.
21 de Novembro de 2025












