Berlin Bruxa, Alemanha. 2018, um dia antes das aulas começarem.
[content warning: menções implícitas de aborto]
Há tempos os Kaisekamp deixaram para trás a tradição de morarem em uma só residência. Eike Kaisekamp I teve três filhos, cada um construiu a família em uma casa diferente. O mais velho era Egon Kaisekamp, pelo fato de ser o primogênito ficou com a Mansão Kaisekamp e se tornou o patriarca da família após a morte de seu pai. Teve três filhos, Erik Kaisekamp II -- o futuro patriarca da família --, Eden Kaisekamp -- o irmão do meio que sonhava com o cargo do mais velho por achá-lo corrupto demais para o cargo, e Eike Kaisekamp II -- o filho bastardo --. O filho do meio era Aaron Kaisekamp, se casou com Loki Magnussen, herdeira de uma família puro-sangue sueca, e teve Axel Kaisekamp. O filho mais novo era Lothar Kaisekamp, e por isso não teve muitas exigências além de levar adiante o legado da família. Se casou com uma puro-sangue, teve filhos homens, todos apropriados para perpetuar a linhagem Kaisekamp com mais filhos homens fortes e sadios. Disso, nasceu Lutz Kaisekamp.
Lothar se casou com Ophelia Beauregard, uma duelista francesa que fora campeã mundial sete vezes em categorias diferentes três anos seguidos. Ophelia estudou a vida inteira em Beauxbatons, e possui um antepassado que fora campeão do Torneio Tribruxo. O casamento dos pais claramente foi arranjado, fazendo com que a curta e promissora carreira de Ophelia chegasse ao fim. Para a família Beauregard, não era de bom gosto que ela continuasse fazendo isso, solteira e sem filhos. Aos vinte e nove anos, Lothar e Ophelia se casaram sem ao menos se conhecer direito. Ele era um político influente no Ministério da Magia alemão, trabalhando para o Wizengamot e trazendo muitos casos -- e galeões -- para o local onde trabalhava. Conhecido por sua paciência e temperamento brando, tinha uma mente calculista cujas engrenagens rodavam a partir do seu conhecimento do comportamento humano. Era fácil prever as reações das pessoas, bastava falar algo, e a resposta seria imediata como previa. Nunca teve a ambição de dominar, ser o líder mundial, receber todos os olhares. Em Durmstrang, era um garoto inteligente e reservado, não estava interessado em contatos que não fossem para o bem de sua carreira. O que Lothar queria era ganhar muitos galeões e viver montado no ouro pelo resto da vida.
Ophelia não fazia ideia da situação que estava se metendo quando se casou com Lothar, e entrou para a família Kaisekamp. Da mesma forma, os Kaisekamp não faziam ideia de quem era Ophelia Beauregard. Talvez fosse de praxe para famílias puro-sangue subestimarem umas às outras.
Ela logo notou que era uma família cheia de regras, três principais foram contadas por Lothar:
PRIMEIRA: Seu nome será Ophelia Kaisekamp, não usará mais o nome de solteira.
Desnecessário falar que foi a primeira regra que ela descumpriu, pois jamais deixaria de usar seu nome em troca do seu marido. Eles não estavam mais no século 18, pelo amor de Odin.
SEGUNDA: Lothar será o representante da família Kaisekamp no terceiro ramo, e ela o acompanharia.
Da mesma forma, Lothar achava isso uma verdadeira palhaçada. Nenhuma das esposas aturava isso, muito menos Hera Kaisekamp, esposa de Egon. Ophelia não foi campeã mundial sete vezes para abaixar a cabeça para homem algum. E Lothar não dava a mínima, tinha o comportamento completamente passivo nessa situação. Nota-se de quem Lutz puxou seu comportamento indiferente.
TERCEIRA: Vocês morarão na Alemanha e todos os filhos estudarão em Durmstrang.
Sinceramente, essa provavelmente foi a única regra que eles obedeceram. Todavia, era óbvio que Egon ignorou a regra completamente ao mandar Eike para Beauxbatons.
Regras ridículas, um ano de casamento e já notou como era uma família patriarcal e machista. Claro, Ophelia também veio de uma família assim, mas nem de longe era tão ruim como na família Kaisekamp. Nenhuma das esposas tolerava o comportamento machista dos maridos, apesar deles tentarem fazer o máximo para esconder a influência que elas tinham neles. Principalmente Egon e Hera, a situação era mais branda com Aaron e Loki Kaisekamp, e completamente insignificante para o mais novo, Lothar e Ophelia. A verdade estava entre quatro paredes, e não saía de lá para evitar incitar a fúria de Egon: Ophelia era a chefe da casa.
Não havia dúvidas de que Lutz Kaisekamp havia tirado seu bom gosto, em todos os sentidos, de Ophelia Beauregard. Quando olhava para a residência da família, seus olhos se sentiam confortáveis com a visão dos cômodos de cores predominantemente claras e detalhes em dourado. Obras de arte penduradas nas paredes, e esculturas mágicas em pontos estratégicos. Para a mãe, era como estar de volta à Beauxbatons. Ophelia Beauregard Kaisekamp era muito boa em tudo o que fazia, fazendo com que ela também acabasse querendo tomar conta da vida de todos ao redor dela. Porque, naturalmente, ela sabia o que era melhor. Lutz sabia que não era por mal, estava no gene da família ser controlador. Não podia dizer que ele não fazia a mesma coisa. Estava no sangue.
--- Deixe eu cuidar disso para você, querido, vai estar resolvido em um instante. Você não vai precisar se preocupar com nada, fique aqui esperando, leia um livro, tome um vinho. Eu vou voltar em um instante. --- A expressão de Ophelia era maternal, e seus lábios estavam mais cheios com o feitiço mais recente feito no medibruxo especializado em estética. A mão de pele suave, mas com o aperto firme, garantia o filho de que ela sempre estaria lá.
Se Axel e Eike estivessem ali, com certeza zoariam ele infinitamente sobre como ele era o filhinho da mamãe e do papai.
--- Por favor, mãe, tenha um pouco mais de boa fé no seu único filho, o qual você dedicou anos da sua vida para criar e se certificar de que ele estava se tornando uma pessoa tão eficiente quanto você. Eu dou conta disso. --- Lutz ostentava uma expressão charmosa, adquirida de observações constantes à sua mãe e seu pai, Lothar Kaisekamp. Os olhos azuis faziam contato visual inquebrável e direto, garantindo que ele sabia o que estava dizendo, ao mesmo tempo em que estava prestando total atenção no que a outra pessoa dizia. Os lábios abriam um sorriso galante, de canto de boca, como se ele soubesse mais do que aparentava.
A mulher observou o filho por alguns segundos, adquiriu um semblante pensativo por alguns segundos, seu olhar se aprofundando no rosto do filho, e os lábios se moveram para um sorriso vago.
--- Você realmente aprendeu. É igualzinho. --- Ophelia arrumou os cabelos loiros, colocando uma mecha para trás, e mudando o olhar para a caixa metálica de cigarros bruxos na mesinha de centro. Com um aceno de varinha, a caixa se abriu, e dois cigarros se levitaram. Um parou na sua frente, e um na frente de Lutz.
--- Eu sei, tive os melhores professores. --- Deu de ombros, fazendo pouco caso da situação. O cigarro se acendeu assim que seus lábios tocaram no filtro, e ele deu a primeira tragada. Sentia a fumaça espiralar em sua boca, e fazer um caminho direto até seus pulmões, onde permanecia até se dissipar, fazendo a rota inversa. Fumaça fina e prateada saiu de seus lábios, e misturou-se com a de sua mãe. Ele sempre observava o modo como os pais se portavam na com outras pessoas, era fácil imitar e saber o que funcionava pra ele. Hoje, para Lutz, carisma é muito natural e uma das suas maiores qualidades. --- Cadê o papai?
--- Você sabe como ele é. --- Ela rolou os olhos em impaciência, deixando a fumaça prateada do cigarro escapar pelos seus lábios. --- Quando alguma coisa dá errado, ele vai descontar a raiva lá em cima. Deve estar lá ainda, cercado de coisas quebradas. Suba lá, querido, converse com ele. Ele vai gostar de te ver. Toda semana eu tenho que redecorar algum cômodo, seu pai é inacreditável. --- Ophelia exclamou, gesticulando exaltada, claramente sem paciência para o marido no momento.
--- É uma ótima ideia, ou ele vai acabar realmente demolindo a casa algum dia. E quando eu voltar, precisamos conversar sobre essa história do casamento com a Calendre. --- Ele se levantou, deixando um rastro de fumaça prateada por onde passava, e olhando para a mãe com as sobrancelhas erguidas. Ophelia se limitou a acenar com a mão, fazendo pouco caso da situação, e mandando o filho desaparecer das suas vistas, mas sem precisar falar alguma coisa.
Lutz subiu as escadas, observando a madeira da mesma tremer sob seus sapatos italianos, e presumiu que o pai estaria em algum cômodo perto. As cinzas do cigarro caíam na medida em que ele batia com o dedo, mas ao invés de sujarem o chão, desapareciam. Ele já havia fumado cigarros trouxas antes, e tudo sobre eles era impraticável. Desde o cheiro horrível nas roupas, até as cinzas que caíam no chão, e o trabalho de ter alguma coisa pra acender toda vez. Assim que chegou ao segundo andar da casa, ouviu o barulho de algo quebradiço explodir na sua esquerda, e seguiu o som, até chegar na terceira porta.
--- Pai? --- Lutz anunciou sua presença, batendo na porta ao sentir que estava encantada com um feitiço para selar a sala. Demorou alguns minutos até que a porta se abrisse.
Lothar Kaisekamp era um homem jovem, não especialmente alto, com olhos azuis e sobrancelhas grossas. Exatamente como seus irmãos, e como seu filho. Ao ver o pai, Lutz soube imediatamente que a mãe estava fazendo a situação parecer melhor do que realmente era. Lothar estava com cortes por todo o corpo sangrando em profusão, vestes rasgadas, cabelos selvagens e suor descendo em bicas.
--- Scheiße! --- O filho soltou um palavrão imediatamente após ver a figura do pai, que segurava a varinha de azevinho firmemente com a mão esquerda. --- Que porra está acontecendo?
--- Tranque a porta. --- Lothar murmurou, fechando os olhos. Parte da sua camisa se partiu e caiu no carpete vermelho. Seria cômico, se não fosse trágico, porque Lutz não fazia ideia do que era o carpete e o que eram manchas do sangue de seu pai. Imediatamente seguiu a orientação, e ainda de olhos fechados, o pai acenou a varinha em gestos complexos e uma luz verde escuro saiu de sua ponta. Lutz reconheceu como um feitiço do grego antigo para tornar portas indetectáveis, o que assustou imensamente o garoto.
--- Pai, porque você usou esse feitiço? Nós estamos em casa, não tem necessidade... --- Ele não conseguiu terminar a frase, pois um vaso se quebrou do outro lado da sala e a voz de Lothar ribombou no ambiente.
--- Você vai ter uma irmã, Lutz.
Seria uma notícia excelente para qualquer outra família bruxa que não fossem os Kaisekamp. Afinal, só existiam filhos homens por um motivo. Não existiam mulheres Kaisekamp vivas e legítimas para contar história, pois as que conseguiam nascer, eram passadas adiante e jamais seriam reconhecidas como Kaisekamp. Até podiam existir filhos bastardos, mas filhas? Jamais. Filhas se casavam, seu nome de solteira era apagado, e a linhagem era passada para outra família. Ninguém sabe quando essa regra inescrupulosa surgiu, e ninguém questiona sobre quantas irmãs poderiam ter nascido.
--- Puta merda. Você contou pra a mamãe? --- O mais novo arregalou os olhos, se abaixando para pegar a única garrafa de vinho intacta na pequena adega.
Sua mente ficou nublado e sua respiração entrecortada, suas mãos tremiam e apertavam com força na garrafa. Ophelia não sabia da quarta regra da família Kaisekamp, e Lutz não gostaria de estar ali quando ela descobrisse.
QUARTA: Você só terá herdeiros homens.
--- Ainda não. Eu conheço sua mãe, Lutz, eu... Nunca estive em uma situação como essa na minha vida inteira. Ela vai lutar por essa filha até o inferno, e eu não posso dizer outra coisa... Eu concordo com ela. Eu só nunca imaginei que isso fosse acontecer comigo. --- Lothar olhava para o filho com lábios tremendo de desespero, uma certeza dura e cruel que ele não queria encarar.
--- É melhor você beber, velhote... --- Lutz entregou a garrafa para o pai, que aceitou sem pestanejar. --- Porque você vai ter a primeira garota Kaisekamp em trezentos anos.
--- Que Odin nos abençoe e nos proteja. --- O pai ergueu a garrafa para o filho mais velho, dando um gole sedento no vinho.
Que Odin abençoe Egon Kaisekamp, pois seus dias de rei estavam contados.
“Eu juro! Eu nem sabia o que isso significava até você me contar. Sou um moço puro. Bem, tirando o fato de que... Deixa pra lá. Não acredito que você seja capaz de algo assim, porém.”