Gustavo Paim: o simbólico patrimonialismo
Gustavo Paim é um indivíduo desconhecido a maioria da população de Porto Alegre. Nem ele mesmo conhece bem a cidade. Em seus vídeos, aponta que acabou tendo essa aproximação maior ao se deparar como vice-prefeito em seu atual mandato.
Sua figura teve maior repercussão e importância quando seu partido, que dava base ao governo de Marchezan Jr, o ‘Progressistas’, decidiu por romper a aliança e passar a ter um posicionamento de oposição às investidas do prefeito. Isso ocorre, sobretudo, quando Marchezan propõe o projeto sem diálogo com a população para um aumento gradativo do IPTU, o que ocasionaria segregações maiores e dificuldades de morar nas áreas centrais ao mesmo tempo em que mexeria no bolso dos contribuintes mais ricos possuidores de maiores bens avaliados. Ou seja, o prefeito não agradou a ninguém com esse projeto e piorou a sua delicada relação com a base que lhe dava sustentação.
O Progressistas, antigo PP (agremiação do PFL na democracia e ARENA na ditadura) é até hoje um dos partidos com maior força política no estado do Rio Grande do Sul. Ele representa o conservadorismo político e se sustenta pelo agronegócio, pois representa quem comanda os principais latifúndios na parte sul do Estado, o que lhes proporciona uma facilidade para determinar os rumos dos diferentes territórios. São os típicos casos dos donos do poder analisado por Raymundo Faoro no Brasi (1958). Devido a concentração econômica nas mãos de determinadas famílias, a máquina pública e a burocracia funcionam legitimando a importância da sua contribuição à sociedade, em um claro processo de patrimonialismo, onde o capital financeiro e comercial se encontra entrelaçado em uma rede de interesses politicamente ligados com a cidade.
Como Porto Alegre não possui grandes terras agráveis, a capital é comandada principalmente pelos donos do solo urbano com a união financeira e de investimentos de famílias das incorporadoras, empreiteiras, supermercados e redes hospitalares privados. E é a partir da determinação da cidade como um balcão de negócios que esse capital tramita em seu favor para lucrar com as regiões que eles constroem e gerar um estilo de vida urbana segregado e unívoco, sem espaços para debates democráticos com as diferentes organizações que compõe a cidade.
Foi a partir da posição deste partido na câmara de vereadores que organizações de sindicatos patronais e empreiteiras determinam regras burocráticas à cidade, tais como os Planos Diretores, IPTUs, vendas de terrenos, rompendo com qualquer força popular que possa combater esse poder. O discurso empresarial de Gustavo Paim tem por referência, portanto, a ideologia de políticas urbanas estrategicamente planejadas para levar a cidade a uma imagem de ser atrativa aos negócios, levando o valor de uso do território para o valor de troca ‘business-oriented’ (ARANTES, 2010). É nesse sentido que o Progressistas esteve nos bastidores da política local, a fim de garantir que essa forma desigual atrelada a convenções de mercado à cidade permaneça. Por isso, a proposta que também aumentaria os impostos dos locais mais privilegiados da cidade foi rejeitada veementemente pelo vice-prefeito, rompendo de vez com o governo de Marchezan.
Apesar de inicialmente parecer uma candidatura forte com o provável apoio do empresariado e conservadorismo ideológico relacionado a figura de Bolsonaro, o alto número de candidatos mais conhecidos no setor à direita diminuiu as chances do PP em conquistar o cargo à prefeito. A dúvida na última semana para ser candidato ou não demonstrou a fragilidade do partido em financiar as eleições de um reduto eleitoral onde não há personalidades fortes para cabeça de chapa.
Três outros partidos que poderiam lhe dar sustentação conservadora decidiram por apoiar outros, quais sejam, o PRTB, partido do vice-presidente Hamilton Mourão, e o DEM, partido do braço direito de Bolsonaro, Onyx Lorenzoni, decidiram por Sebastião Melo e o partido evangélico PSC desistiu de sua candidatura e apesar das aproximações, decidiram por sustentar a base do ex-prefeito, José Fortunati. Mesmo assim, Gustavo Paim (e a convenção estadual do PP) decidiu permanecer sua campanha afim de manter a posição de seu partido, lançar seus candidatos à vereador e também por já não ter mais chance de ser aspirante à vice. Assim, o partido nanico AVANTE (antigo PTdoB) foi o único a estar ao seu lado nessa candidatura simbólica, mas que determina o principal rompimento de Marchezan ao empresariado, além de demonstrar que antigas forças conservadoras que representam o PP mantém o seu poder patrimonialista inclusive nas grandes cidades.
Próximo candidato será João Derly (REP).
Obs: Essa é uma análise independente cujas informações adquiridas do vice-prefeito foram retiradas a partir de páginas e vídeos oficiais do twitter do candidato.
@luizhapollo













