Sofia Mirrors não deveria temer a própria imagem, afinal, se traduzirmos o nome ao pé da letra, temos sabedoria e espelhos. Sabedoria dos espelhos, não é mesmo? Mas naquele momento, sentada diante uma das curandeiras da instituição, conforme as orientações sobre o resultado da poção lhe eram passadas, ela não se sentia sábia, na verdade se sentia uma completa idiota, e por mais fútil que seja, ignorava totalmente a voz da senhora de meia idade, debatendo internamente se continuaria bonita após todo quele processo denominado gravidez.
Astrologicamente, seu signo solar explicava suas características controladoras, e a desconfiança foi crescendo paralela aos dias de atraso, só acabando quando teve todas as garantias de que existiria sigilo profissional entre ela e a senhora Roosevelt, independente do resultado. Agora, porém, se achava uma tola por ter confiado na maga — seria muito mais discreta se houvesse procurado a poção com @breedingwall do que com a senhora que a olhava com um misto de pena e decepção. ❛Você entende que por isso terei de contar, correto?❜ O tom veio a ser mais grave, e isso lhe causou um arrepio, mas também a fez depositar toda a sua atenção na senhora do outro lado da mesa, que arrumava os óculos sobre a ponte do nariz. ❝ —— Só me dê alguns dias para contar à minha família, por favor. ❞ Sofia pediu, recebendo um oscilar cúmplice da mais velha antes de abandonar a saleta, indo diretamente ao seu quarto.
O resultado da poção: azul como céu, era sua sentença. Estava acabada, arruinada, e se o destino não resolvesse aquilo, Vanity com certeza o faria. A mãe a mataria quando soubesse, não tinha dúvidas, afinal, estava jogando o nome da família na lama e acabando com todos os seus sonhos. O que fizera de errado? Além do óbvio, é claro. Não se privava de uma vida, divertida, mas como havia permitido que aquilo acontecesse? Sempre havia se cuidado tão... Qualquer linha de raciocínio da patinha fora interrompida quando a recordação do exato dia atingira sua mente com tanta força que precisou fechar os olhos para tentar livrar-se da imagem. A pessoa que viera a sua mente fora a responsável pela reação sonora, a destra levada aos lábios para abafar qualquer possível grito. ❝ —— Idiota, idiota, idiota! ❞ Embora as palavras parecessem serem pronunciadas para se xingar por ser uma idiota grávida antes de terminar os estudos ou ter um companheiro, eram na verdade para a burra que estava grávida do melhor amigo, com quem deitou-se por um momento de carência mútua.
Não tinha como simplesmente bater à porta de @evilprrnce e felicitá-lo por aquilo. Ainda que ações em conjunto tivessem feito-na chegar naquele resultado, não achava justo acabar com a vida do mais velho também. A sua já estava arruinada o suficiente, ademais, não sabia exatamente como chegar no outro e dizer que aquela fatídica — e bem prazerosa — noite, havia resultado em algo muito maior. Por este motivo, o evitaria, e não existia jeito melhor do que trancar-se no seu quarto, tendo a ajuda de Roosevelt para encobrir seu repentino sumiço com um resfriado. Seu confinamento durou cerca de uma semana, a qual usou para pensar. Naquelas noite a inconsciência não viera como um presente. Levara horas para que conseguisse adormecer, afinal, sua mente não parava. Mas, ao final do período, havia tomado uma decisão: aquele era o seu bebê e ninguém iria tocar ou dizer o que ela devia fazer com ele.
Os dígitos delicados acariciavam a barriga em momentos de distração, fosse enquanto ouvia o monólogo de um professor ou se encontrava sentada em uma roda de amigos. Não se sentia como uma mãe protegendo seu filho, aquele tipo de sentimento não surgia de uma hora para a outra e principalmente não enquanto ainda estava processando a raiva que sentia de si mesma — raiva que descobriu também nutrir por Sersak. Ainda assim, um elo havia se formado, e este ela defenderia. Ademais, mesmo que @tresdedoze houvesse se autointitulado pai da criança que esperava, ela sabia que não podia manter a farsa por muito mais tempo, ou correria o risco de ser odiada pelo filho da rainha má. Ou, pior ainda, Vanity poderia descobrir e exigir um casamento entre ela e o príncipe — seria a realização de um sonho da mãe. E por mais que não achasse ruim viver uma vida ao lado do sempre gentil Ever, não era a vida que se via vivendo. Tinha de acabar com as mentiras.
Patrícia e Thomas estão andando no parque. Apaixonados, de mãos dadas, praticamente em uma cena de um filme do Woody Allen. De repente começa a chover e eles começam a correr, rindo, para alcançar a marquise mais próxima. De repente, se lembrando dos filmes que já havia visto e livros que havia lido com cenas parecidas com esta, Thomas para. Patrícia estranha e o puxa pela mão. Ele se mantém parado, com um sorriso bobo no rosto e um ar de triunfo. Ele a puxa, a abraça, a beija e começa a rodá-la, como em um clipe musical de comédia romântica. De repente, a trilha sonora para, Patrícia o afasta e procura abrigo em uma marquise próxima. De lá, ela grita para ele:
- Você é idiota? Eu tô com celular, Ipad, Ipod, minha Polaroid nova e dois pendrives na bolsa! Seu animal! E a minha escova progressiva? Eu gastei duzentos reais nessa escova e você fica querendo beijar na chuva que nem um imbecil e me fazer ficar com o cabelo do David Luiz? Besta!
Patrícia vai embora, deixando-o desolado e agora muito molhado Thomas fica sozinho no meio da rua.