A ausência que seremos – Hector Abad
Mais um belo livro que conta, pelos olhos do filho, a vida do pai, mas sem se entregar a uma pieguice, sem ser uma biografia “neutra”, ao mesmo tempo. O pai, médico sanitarista, viveu brigando para que todos tivessem saneamento, água tratada e vacinas, entre outras, além de condições mínimas e dignas de vida. E, bem por isso, muitas vezes precisou sair da Colômbia, e depois voltar, até por fim ser assassinado por suas ideias, por pensar diferente daqueles que tem o poder das armas. Há inúmeras passagens interessantes e que valeria transcrever, mas vamos ficar com apenas algumas…
“Em última instância, no campo da religião, crer ou não crer não é apenas uma decisão racional. A fé ou a falta de fé não dependem de nossa vontade, nem de nenhuma misteriosa graça recebida das alturas, e sim de uma aprendizagem precoce, em um ou outro sentido, que é quase impossível desaprender.
Fora manos felizes, como já disse, mas a felicidade é feita de uma substância tão leve que facilmente se dissolve na memória, e quando volta à lembrança vem junto com um sentimento meloso que a contamina e que eu sempre refuguei, por inútil, enjoativo e, em última instância, prejudicial para viver o presente: a saudade. Mas também é preciso dizer que as tragédias que se seguiram não deveriam estragar essa lembrança feliz, nem cobrí-la com a sombra da desgraça, com às vezes acontece com alguns temperamentos que adoecem de ressentimento contra o mundo, e que, por causa de episódios posteriores carregados de injustiça ou de tristeza, apagam o passado até os inegáveis períodos de alegria e plenitude.
‘Em Medellín há tanta pobreza que, por dois mil pesos, é possível contratar um sicário, para matar qualquer um. Vivemos uma época violenta, e essa violência nasce do sentimento de desigualdade. Poderíamos ter muito menos violência se todas as riquezas, incluindo a ciência, a tecnologia e a moral – essas grandes criações humanas – estivessem mais bem distribuídas sobre a Terra. Esse é o grande desafio que hoje se impões, não apenas a nós, mas a toda a humanidade…”