Heitor, em resposta ao "todos vocês são pais em potencial"
Ainda estava na cama de Shivani quando recebi a mensagem de Eponine, e queria dizer que assim que vi seu nome brilhando na barra de notificações, nem me lembrava mais quem era ela, assumindo que era só engano ou alguma pessoa querendo contratar coisas com Caterina, e que estava tudo bem ignorar aquilo e voltar a me enrolar com a assistente da minha mãe e fingir que o resto do mundo ainda nem tinha começado a existir, outra vez, aquela hora.
Então, a mensagem em si me bateu quando voltei a deitar minha cabeça no travesseiro com o cheiro dela; a que eu li muito por cima, mas que consegui captar frases como "sobre mês passado" e "é confidencial" e "o que aconteceu". No segundo seguinte, quando comecei a fazer cálculos sonolentos e meio lentos, a única coisa que caiu fui eu, ruidosamente no chão. Não era vidente pra adivinhar e nem era bom conectando situações, mas abrindo a tela do celular de novo e vendo os outros nomes marcados no recado coletivo, podia dizer que só alguma coisa muito errada tinha acontecido e provavelmente saído do controle e, se eu estava sendo solicitado pra uma espécie de reunião de estado, era porque a culpa era minha também.
Victor… Victor… Victor… Victor… Victor… — Pra cada pausa, uma sequência de batidas desesperadas em sua porta, e quanto mais ele demorava, mais vezes eu repetia o processo, só com metade das minhas roupas no meio do corredor do mausoléu gigantesco que aquela casa de NY era, sentindo um ataque de emoções e incertezas e desespero crescer enquanto eu obrigava minha cabeça a me dar respostas o e laudos o mais rápido possível. — Alguma coisa deu muito, muito, muito errado. — Comecei assim que ele apareceu do outro lado, tentando abrir os meus olhos e me obrigar a escolher uma língua que tivesse muitos palavrões, quando ouvi a porta de Shivani, no final do corredor, se abrir e ela começar a jogar meus sapatos e resto de roupas na minha direção. — Naquele encontro, no mês passado com… Aquelas pessoas. — Continuei, apoiando uma das mãos na cintura e a outra na testa, sentindo tudo girar e meu corpo querer se fundir com as paredes. O desespero, bicho, ele era muito real. — Mas não sei o que é, e estou com medo de descobrir, e não posso fazer isso sozinho, então é sua obrigação me impedir de manchar mais o nome dessa família do que eu já faço no escuro. — Prossegui enquanto acenava com a cabeça algumas vezes, lhe ditando o plano e seu único compromisso do dia, que consistia em me julgar e apontar por ser um lixo. — É sua obrigação me matar e me deixar numa caçamba de lixo, também, caso isso seja muito ruim mesmo.
No meio de um banho que levou eras e uma missão de parecer visualmente despreocupado, comecei a fazer um enorme cálculo mental de todas as coisas absurdamente erradas que eu vinha fazendo desde o começo daquele verão; podia ter aceitado brincar de acampamento com o Jae e os amigos dele no dia do ato pecaminoso e extremamente anti ético que compareci, então me prestado ao papel de comparecer nos encontrinhos de sorvete e cinema e shopping aos quais meus irmãos também eram convidados, e fazer coisas normais de adolescente de férias, ao invés de ter conseguido transar com mais da metade daquela cidade em trinta dias. Tenho certeza que nem Victor e nem Caterina recebiam aquele tipo de intimação em forma de mensagem, só de andar por aí com novaiorquinos da idade deles e guiados por Jaehyun, tinha certeza que se só tivesse ido naquelas excursões de escola e fingido que era super legal, Victor não estaria me julgando do jeito que estava fazendo, desde que saímos de casa, e que não tinha chances de arrancar a minha cabeça muito em breve, como tinha certeza que estava planejando fazer, enquanto eu me perdia em todos os caminhos que o GPS me dava pra chegar no lugar marcado. — Como foi ontem? Os passeios com a trupe do Jae são tão legais quanto ele faz parecer? Já conseguiu falar com a amiga dele e marcar um encontro só de vocês dois? Qual era mesmo o nome da prima da namorada dele? — Ia me resultar outros tipos de esporros, mas era melhor do que o silêncio ensurdecedor e propenso a um ataque de nervos da minha parte. Naquele momento, qualquer coisa seria melhor do que estar caminhando pro resultado de uma grande merda minha, tipo ser atropelado por um ônibus.
E pior do que estar caminhando pro tal resultado, era estar lá, sentado, atrás de um copo de café preto enorme e me segurando muito pra não pedir meu irmão mais novo pra segurar uma das minhas mãos como se fosse uma consulta ao dentista. Por fora, a definição de plenitude e sem tempo, irmão. Mas por dentro, prestes a entrar em combustão, explodir em milhares de mini eu's, que começariam a fazer um escândalo coletivo nas cinco línguas que eu conhecia e chorar descontroladamente. Por que era isso o que eu virava em situações assim, um escandaloso e descontrolado emocionalmente depois que a merda já estava dita, e era por isso que Victor estava ali.
Queria pontuar isso e explicar sua presença assim que Eponine pareceu incomodada com ele ali, mas preferi manear a cabeça na direção dele como se não fosse nada, que Victor não era nem de longe o mais perigoso dos gêmeos, e ele não apresentava mesmo nenhuma ameaça, ao menos não pros presentes.
Saber que ao menos da saúde das minhas partes íntimas eu sabia cuidar direito era um alívio, e motivo pra me dar um auto "ta vendo? Podia ser pior, você podia ser apontado como aquele que não lava o Pinto direito e só balança depois que faz xixi, mas não, tá tudo certo, você fez tudo certo" e já era um ponto ao qual podia me orgulhar, então a menção de testes "profundos" e "específicos" veio, e eu só queria um saco de papel pra hiperventilar, quando aquela parte terminou com "teste de farmácia".
Me lembrava de ter espalhado caixas e mais caixas de preservativos pelo recinto daquele encontrinho, um mês atrás; porque segurança nunca era demais e eu não tinha tempo pra ficar conferindo se todos estavam "encapados", entre uma tour ajoelhado na frente de alguém e beijando uma boca ou duas ao mesmo tempo. Podia dizer que, minha parte como anfitrião e responsável, tinha feito e que se alguém tinha se metido em outro alguém na cara e coragem, eu não tinha nada a ver. Mas então o teste estava ali pra todo mundo ver e os documentos do exame de sangue também, e sabia que não podia tirar o meu da reta em um mundo onde nada era 100%, que dirá contraceptivos, mesmo que eu tivesse usado uns tantos naquela noite e assumir a responsabilidade mesmo assim.
Então era isso, eu tinha chegado no auge de todas as minhas confusões, e me afundei na minha cadeira assim que constatei isso mentalmente e fechei os olhos pra tentar processar tudo sozinho e não ter que ver o ataque de julgamento e esporros telepaticos e contidos que meu irmão, eu tinha certeza, estava me dando só com seu olhar. Era a reação mais aceitável e a menos desesperada, se eu fosse comparar com a dos outros meninos na mesa, que podia me esforçar muito, mas não conseguia dar nomes.
Ouvir o resto do discurso de Eponine foi como ser levado de volta as aulas de saúde sexual da Fiancée, as conversas muito sinceras e abertas com meus pais, então os constantes conselhos e apelos de Nadia, e parecia que finalmente aquelas palavras estavam entrando na minha cabeça e se fazendo reais e dignas de atenção, bem como se fazer o entendido, depois que a merda já tinha descido ladeira abaixo, só depois de correr o risco de ser pai no auge dos dezessete. Ah, cara, se eu tivesse me contentado em ir assar uns marshmallows na praia, quando tive a oportunidade. E minha reação era só acenar com a cabeça, porque sabia que como a adulta da roda e a única que parecia realmente responsável ali, ela estava certa e só queria ajudar, acima de tudo, agora que as coisas mesmo já tinham acontecido e a gente não podia impedir mais nada, mas ponderar muito no futuro.
Queria dizer que sentia muito, e que mesmo que ela já estivesse recusando, queria poder ajudar de alguma maneira com gastos e qualquer tipo de necessidades por parte dela e do bebê, que ainda não sabia se era meu, mas só com a menção que corria o risco de ser, me sentia na obrigação de fazer algo sobre. E que estava disposto a esconder aquilo tudo quanto tempo fosse necessário, mesmo que eu já estivesse desesperado e prestes a ter um colapso desde que tinha acordado, mas então ela terminou seu monólogo e era isso. O recado estava dado, os conselhos também e parecia que todos nós quatro envolvidos tínhamos uma agenda muito certa e determinada pelos próximos oito meses.
E era a minha oportunidade de ficar calado e sair com meu rabo entre as pernas que, como minha mãe mesma dizia no auge dos discursos sobre desobediência e ser um merdeiro, aquele não era nem o meu local de fala, mas depois de matar meu copo de café, pensando no que a minha vida ia ser daqui pra frente e o que ela ia virar, caso eu fosse o pai daquele bebê, comecei a falar. Pra ninguém em especial, mas todo mundo que quisesse ouvir um adolescente começando a ter uma crise muito séria. — Podia ser pior, a gente podia estar doente agora e todos prontos pra cair numa vala sem direito a um "a". Podia ser ainda pior, e ser mais de um bebê. Pior do que isso, ela poderia ir presa agora mesmo e nossos pais também então as vidas de todo mundo iam estar em risco e comprometidas. Ser pai em potencial não pode ser pior do que estar doente, morrendo e ainda mandar seus pais pra cadeia por isso, pode? — Eu não fazia ideia e não queria nem começar a calcular de verdade por que estava tão assustado e com medo quanto eles.