What You Waiting For: Jyn and Sun Montgomery
Eu nunca mais vou cozinhar tanto uma ideia, porque sempre resulta em bomba.
De todos os motivos, de todas as possibilidades, e de todas as somas se problema, esse era o tópico. Um bebê. De novo.
— Outra criança, quando nossa criança mais nova é quase adulta. — Refletia em voz alta, encarando o par de sapatos minúsculo em cima da mesa. — Mas ainda não é uma criança, é?
— Final do primeiro trimestre, estamos quase lá. — Minha esposa explicou, alcançando minha mão em cima da mesa, parecendo tudo, menos preocupada, quando apertei com força. — E é sobre isso que queria falar… Só não sabia quando ia ser a hora certa.
A hora certa pra dizer que íamos ser pais de novo, e que, talvez, isso envolvesse muito mais do que já tínhamos passado e conhecíamos sobre o processo.
— Se quiser continuar com a gestação, a maior parte do tratamento vai ter que ser pausado.
— E quando você diz pausado…
— Quero dizer que conheço os riscos e que entendo a gravidade da situação. — Elisa dizia, com tanta calma que nem parecia que tudo aquilo era sobre ela, em primeiro lugar. — E que vou assumir cada um deles, e passar por tudo isso.
A minha permissão ou opinião, eu sabia, ela não estava mesmo pedindo, e eu meio que fiquei feliz por isso. Mais triste e sentido e preocupado e apavorado, mas feliz. De algum jeito estranho e melancólico, por não saber o que estava por vir, mas que ia fazer o meu papel, que era apoiar e amar ela.
— Não estamos mentindo pra ela, estamos garantindo que ela fique feliz e se concentre no primeiro ano da faculdade. — Elisa dizia sem nem se bater, como se coagir a família inteira, e os amigos e namorado dela, não fosse grande coisa. — A Sun… É meio intensa, e descobrir tudo isso de uma vez pode deixar ela preocupada e não é o que nós queremos. — E como se pra ilustrar, minha esposa expôs todas as notas azuis do nosso solzinho, e como ela carregava o título de melhor da turma sem esforço. — Mais uma vez, não estamos mentindo pra ela, só preparando o terreno pra quando for a hora certa.
Um final de semana surpresa foi suficiente, pra gente descobrir que não teve hora certa, e que nada naquela casa passou despercebido pela ira do nosso sol, que encontrou energia e disposição pra quebrar tudo pela frente depois de uma viagem de duas horas no meio da madrugada.
— Eu pensei, poxa, faz tanto tempo que não volto pra casa, nunca consigo vir porque as aulas tiram o melhor de mim e quero ser o tipo de engenheira que não esquece de calcular o peso da água de uma piscina interna em um prédio, mas posso surpreender eles no café da manhã. — Sun dizia em plenos pulmões, tirando as roupas de sua mala com tanta violência. — Então ela fica doente e vocês não me falam, ela fica grávida e vocês não me falam. Eu ainda pertenço a essa família?
— Você parecia estressada com a faculdade, a gente pensou que pudesse dar um tempo até te contar. — Tentei voltar a preparar o terreno, quando ela passou com uma retroescavadeira por cima de tudo.
— Tem um tumor nela e você achou que não podia me contar? — Esbravejou, jogando tudo pro alto, antes de apontar um dedo acusatório na minha direção. — E o que vocês vão fazer quanto à gestação? Vocês pensaram no quanto vai ser perigoso manter a gestação e o tratamento ao mesmo tempo?
Fiquei em silêncio com medo de eu ser a próxima coisa sendo jogada pro alto naquele quarto, quando vi ela fazendo os cálculos em sua cabeça, recuando muito devagar, até se sentar na cama.
— Ela vai ter que escolher. Não é seguro manter os dois, então é claro que vão pedir pra ela escolher e ter toda aquela conversa sobre prós e contras. — Confirmava cada palavra sua com a cabeça, tomando o cuidado de me sentar ao seu lado. — E se vocês se deram o trabalho de fazer o enxoval e reformar um dos quartos…
— Nós vamos ter o bebê, e isso nunca esteve realmente em discussão. Foi decisão dela.
— E foi decisão de vocês dois mentir pra mim.
O braço que estava tentando envolver em seus ombros, foi rapidamente descartado no ar quando ela se levantou de novo, vinte vezes mais furiosa do que antes, e não era como se eu pudesse culpar ela.
— A faculdade podia esperar. — Sun começou, segurando a respiração tanto quanto eu, mas eu já tinha falhado em tentar não chorar. — Tudo podia esperar, porque família é família não importa o que aconteça e sempre vem em primeiro lugar e foi você quem me criou assim. Não ia me importar.
— Mas nós nos importamos. Eu me importo e ainda me sinto muito responsável pelas coisas que aconteceram no ano passado. Só queria poupar você, por enquanto, de outro problema. Queria que vivesse coisas novas, que melhorasse das feridas que você já tem, e que ficasse bem. — Admitia em um tom contido, só ouvindo ela se mover em círculos pelo quarto, sem muita coragem de olhar pra cima e pra ela. — Família vem sempre em primeiro lugar, e no primeiro, ainda colocamos você.
— Só queria que não tivesse me impedido de colocar vocês no meu primeiro. — Então eu só aceitei que por mais que bem, eu tivesse alguma boa intenção e só estivesse tentando ser um bom pai, aquilo não tinha sido justo.
Sun ainda ia levar um tempo pra falar comigo como se não quisesse exigir que o governo tirasse meu sobrenome do seu, mas eu podia lidar com isso desde que ela estivesse segura e bem.
Agora todos nós tínhamos outras pessoas, e outra prioridade, como mais importantes.
Eu achava que o pior lugar da terra era o quarto de Jaehyun uma semana sem ser arrumado, até estar numa sala de espera de maternidade ouvindo minha madrasta, e umas tantas outras mães daquela cidade, dando a luz.
Hollywood não tinha me preparado pra experiência real, sobre ficar preocupada cada vez que uma enfermeira passava pelo corredor, sobre sentir vontade de vomitar e chorar e bater em alguma coisa o tempo todo, sobre pensar no pior quando, uma por uma, as salas do corredor eram desocupadas por famílias agora completas, e a dela era a única ainda trancada e iluminada. Nossa família sentindo a falta de um membro, talvez dois, porque dependia muito de como as coisas iam terminar.
O coração dela parou assim que ele conseguiu ser tirado totalmente do útero, e quando trouxeram ela de volta, fomos todos informados que dali em diante, ela não podia mais sair da UTI por um tempo. Tudo de uma vez e na mesma frase, ela quase morreu, mas vai passar bem. Literalmente.
Depois que minha semana de provas antes do verão terminou, voltei pra casa me convencendo que não podia continuar evitando minha família porque eles eram uns traidores. Elisa não podia amamentar, ficava a maior parte do tempo dopada no hospital por causa do tratamento acumulado, e eu não queria admitir, mas ver meu pai e meus irmãos a beira do desespero quando passei pela porta, fez meu coração amolecer, mas só um pouco.
Eu preferia preparar as mamadeiras, jogar as fraldas fora e fazer todas as compras, do que ter qualquer contato com ele. Não tinha o visto direito desde que ele entrou pelo berçário, e eu estava mais do que depressa passando pela porta de saída pra pegar a estrada de volta pra Cornell, e mantive as coisas assim por um bom tempo.
Achava que se ignorasse a existência dele, ia ser mais fácil lidar com o resto. Fingia que não me importava, mas estava sempre checando o celular quando saia com Ferris e Layla, procurando por qualquer tipo de mensagem suspeita de casa e sinal de que precisavam de mim.
— Eu devo ser a pior irmã mais velha da face da terra. — Murmurava contra o peito do meu namorado, depois de pedir abrigo aos seus pais por algumas horas, quando YoonOh entrou em uma crise de cólica tão grande que os vizinhos chamaram a Polícia, e achei muito difícil ficar naquela casa com seu choro estridente e constante, mas não superava o sentimento de culpa que agora sentia, rodeada pelo silêncio e decoração duvidosa do quarto de Torres, enquanto me encolhia em sua cama. — Um dia desses, ele veio engatinhando até mim no sofá e eu sai de perto dele como se ele fosse radioativo. Um bebezinho de três meses só queria um pouco de carinho e foi rejeitado na cara dura. — Contava arregalando os olhos um tanto, porque na minha cabeça, era tão ruim quanto agredir um unicórnio, talvez um panda, e meu coração doía de verdade. — Eu sei que a culpa não é dele, e que a escolha foi dela… Mas não consigo evitar canalizar todas essas coisas e tornar ele o alvo da minha raiva e todos os sentimentos ruins. Fico pensando que se ela está lá, é por causa dele, mas esqueço que ele também esta sem a mãe em casa. Ele também sente a falta dela, talvez mais do que eu, e eu me sinto uma fracassada sendo tão egoísta e cruel com um bebê que não faz a menor ideia do que está acontecendo.
Eu normalmente era a pessoa com as respostas, àquela que sempre tinha algo positivo pra dizer ou um plano mirabolante pra dar a volta por cima, então era desesperador não conseguir consolar a mim mesma.
— Só estou cansada de pessoas saindo da minha vida, e acho que no fundo, não quero que ele passe pela mesma coisa que eu passei. — Me restava chorar e sentir pena de mim mesma, porque estar travando TODA aquela crise mental por causa de um bebê, era uma vergonha.
Uma hora eu só voltei pra casa, decidida que ia enfrentar aquele problema de frente, me munindo de argumentos como se fosse ter a discussão do século com Yoon Oh Montgomery, meu irmão caçula sem dentes e que vivia pra cagar e comer, e fui derrotada sem dizer uma só palavra, quando ele me olhou com aqueles olhinhos enormes e sorriu pra mim.
Como se não tivesse tocado o terror por horas a fio, como se não tivesse deixado meu pai e irmãos loucos; o encontrei pleno e acordado em seu bercinho enquanto o resto da casa dormia, brincando com as pelúcias soltas ali, fazendo sons que eu jurava, não eram nem de longe os dos desenhos que Karim botava ele pra assistir pra desenvolver suas habilidades de fonética.
— Pelo menos uma coisa a gente tem em comum, ficar numa boa com a mesma intensidade que ficamos trincados no ódio. — Murmurava pro bebê meio alheio ao que eu dizia, alcançando sua cabeça minúscula com uma das mãos tentando deixar seus cabelos menos caóticos. — Eu disse e pensei em muitas coisas… Horríveis antes de você nascer, mesmo sabendo que era o desejo deles, e eu sinto muito por isso. Eu só queria proteger ela, queria o bem dela, e não sabia que independente de qualquer coisa, você era a coisa que deixou ela mais feliz no meio de toda essa confusão. — Recitava meu monólogo um tanto baixo, com medo de acordar alguém ou incomodar o próprio Yoon, enquanto me sentava no chão ao lado de seu berço e brincava com seus dedinhos por entre as barrinhas de proteção, com muito medo de machucar ele agora. — Você é precioso e um lutador e se alguém um dia te disser o contrario, juro que vou quebrar todos os dentes da boca e nunca mais vão mexer com você. Você vai crescer bem, e ser uma pessoa incrível, porque eles vão se esforçar pra te dar o mundo todo se você quiser e eu tenho certeza que você merece. Eu amo você com todo o meu coração, e se um dia fiz parecer que não, foi porque estava muito assustada em primeiro lugar, e não sou a melhor pessoa hoje em dia pra enfrentar as coisas que me deixam com medo. — Contava pra pequena versão de Elisa e meu pai, colando minha testa com a sua encostada do outro lado, já não ligando mais se estava chorando de novo, quanto mais que ele estivesse mais atento aos bichinhos em seu colo. — Mas eu prometo que, por você, vou me tornar forte e corajosa de novo, e vamos passar por tudo juntos, porque sou sua irmã mais velha, e esse é um dever que estou feliz em assumir, se quer dizer que você vai ficar bem.