E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos, azuis, brancos e amarelos hão de gritar: morte aos poetas! Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados de infância, o plexo aberto, exposto aos lobos. Hilda Hilst

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E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos, azuis, brancos e amarelos hão de gritar: morte aos poetas! Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados de infância, o plexo aberto, exposto aos lobos. Hilda Hilst
Brazilian poet Hilda Hilst
2020 | no cotovelo do mundo | colagem manual.
“como posso sabendo, pensar que não sei? e sabendo, querer no fundo me desvencilhar desse conhecimento? uma hora me sinto no cotovelo do mundo, despencando, e outra hora me sinto acolchoada dentro de alguma barriga.”
- Extraído do conto Maria Matamoro dentro do livro Tu Não te Moves de Ti, de Hilda Hilst.
Se for possível, manda-me dizer – É lua cheia, a casa está vazia. – Manda-me dizer, e o paraíso Há de ficar mais perto, e mais recente Me há de parecer teu rosto incerto. Manda-me buscar se tens o dia Tão longo como a noite. Se é verdade Que sem mim só vês monotonia. E se te lembras do brilho das marés De alguns peixes rosados Numas águas E dos meus pés molhados, manda-me dizer: – É lua nova – E revestida de luz te volto a ver.
— HILDA HILST
“Colada à tua boca a minha desordem. O meu vasto querer. O incompossível se fazendo ordem. Colada à tua boca, mas escomedida, árdua. Construtor de ilusões, examino-te sôfrega. Como se fosses morrer colado à minha boca. Como se fosse nascer e tu fosses o dia magnânimo, eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.”
Do Desejo, por Hilda Hilst.
Sorrio quando penso Em que lugar da sala Guardarás o meu verso Distanciado Dos teus livros políticos Na primeira gaveta Mais próxima à janela? Tu sorris quando lês Ou te cansas de ver Tamanha perdição Amorável centelha No meu rosto maduro? E te pareço bela Ou apenas te pareço Mais poeta talvez E menos séria? O que pensa o homem Do poeta? Que não há verdade Na minha embriaguez E que me preferes Amiga mais pacífica E menos aventura? Que é de todo impossível Guardar na tua sala Vestígio passional Da minha linguagem? Eu te pareço louca? Eu te pareço pura? Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade Que nunca me soubeste?
— HILDA HILST.
Contente. Contente do instante Da ressurreição, das insônias heroicas Contente da assombrada canção Que no meu peito agora se entrelaça. Sabes? O fogo iluminou a casa. E sobre a claridade do capim Um expandir-se de asa, um trinado Uma garganta aguda, vitoriosa. Desde sempre em mim. Desde Sempre estiveste. Nas arcadas do Tempo Nas ermas biografias, neste adro solar No meu mudo momento Desde sempre, amor, redescoberto em mim.
Hilda Hilst, Desde Sempre em Mim.
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível
E o que eu desejo é luz e imaterial.
Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis. Como te amar sem nunca merecer?
Hilda Hilst