Comecei a ler Madeleine E. de G. Backwell e já fazia mais de um mês. O livro não é extenso, mas não sabia como tirar aquilo das mãos, deixar de dobrar as orelhas de quase toda página e, na falta de um marcador, com a unha do polegar ir assinalando o que eu queria pra mim. Foi difícil termina-lo. E tive a sensação de que isto se dava pelo medo do abandono de mil histórias que se encerram ali dentro. Parte da minha, inclusive.
Em 2009, depois de ver mais uma vez Vertigo, acordei uma noite escrevendo sobre o filme. Quando, há pouco tempo, recordei que o havia escrito já fazia 7 anos, o espanto me fez voltar ao filme, cena a cena.
Na mesma semana que terminei a última cena - revista insistentemente - fui angustiado ao cinema e ali fiquei por quase oito horas. Era sábado e na sala vazia projetavam a trilogia 1001 Noites de Miguel Gomes. Atordoado com a abertura de O Inquieto, crescia em mim o mesmo nódulo resoluto dos apaixonados.
No prólogo de O Inquieto, assistimos a um diretor em crise e logo em seguida nos damos conta de que ele se põe em fuga. Lembrei então que meu melhor amigo, cineasta e desaparecido, era acrófobo, que seu mal nunca foi levado a sério dentro de nosso círculo de amizades e que quando ainda era possível tomar o trem da capital para o interior, cruzávamos uma ponte sobre o Pinheiros, onde reconheci seus primeiros sintomas.
Acho que foi em 2012 que conheci Gomes pessoalmente no aeroporto de Guarulhos. Do saguão seguimos até uma van que o esperava e pedi ao motorista que tocasse pelo centro para que o diretor visse algo da cidade. O translado até o hotel na brigadeiro permanece claro na minha memória. Era a primeira vez de Gomes no Brasil e quase antes de sair da van para só reaparecer no prólogo de O Inquieto, virou pra mim e me disse que a melhor literatura escrita em língua portuguesa era feita por M. de Assis.
Já o último filme de meu amigo foi feito no interior da Colômbia. Seu desaparecimento ainda me convence mesmo que posso vê-lo na primeira cena deitado nu sobre as colinas. Em sua última edição, meu amigo deu forma a outro filme, menos autobiográfico e menos vertiginoso. Uma história visível. Notei que perto do fim uma longa cena havia sido retirada. Era justamente a cena que mais me incomodava por ocupar o espaço da história de seu personagem: nela uma lanterna em movimento inquisitório ilumina um caminho noturno, assim como para mim deveria ser a luz no fim de um túnel durante um maremoto.
Depois de semanas procurando em vão pelo texto de 2009, encontrei-o ontem. Por coincidência, encontrei também o rascunho de um email a meu amigo. Ali eu comentava todo o seu último filme e, em particular, como a cena noturna me causava vertigem. Depois de reler meus dois achados, por descabimento, deletei o segundo. Foi quando tive certeza e alegria de que em 2009 vimos, eu e meu amigo ainda não desaparecido, todo o Hitchcock juntos.
“Dificilmente se sai ileso deste quadro. E a perturbação que nos provoca está na contramão da nitidez com que a nós parece revelar as profundezas de seu olho. Pois talvez escandaliza-se aqui o centro da vertigem, a repetição e a causalidade, que nesta leitura, refere-se sempre ao interior da própria personagem. Sua mão suspensa, por exemplo, procurando o apoio que fosse de um sustentáculo e a própria extensão e profundidade das sombras que, ora escondem, ora multiplicam as escadas, e vestem a fragilidade com que ela avança cautelosa mais um degrau abaixo, senão condizem, integram sua futura queda, fazendo-a desprender-se de qualquer idéia ou vestígio do que chamaríamos equivocadamente de acidente. Aqui concentra-se a matéria-prima da personagem, sua celula mater. Ela não se inclina e procura um apoio na dúvida, mas na certeza de que não pode se desvencilhar do que a persegue, do que vem por sobre o seu ombro sussurrando e a faz impulsivamente conferir a distância que a separa do chão. Por isso é ela que impele a si mesma contra o solo, ela, sempre pronta neste primeiro degrau, que reaparece negra, como as sombras que agora a consomem e se projetam depois do seu corpo, no momento em que, a todos nós, e somente assim, se entrega através de sua primeira e última evidência: a morte. Portanto, se a morte é o traço que a descobre, a torre onde uma escadaria desce, análoga à maneira como prende os cabelos, é o seu (dela, claro, da vertigem) verdadeiro lugar de nascimento.”
(Diário, entrada em 1:49, 8 de abril de 2009 sobre o still de J. Stewart nas escadarias de Vertigo)










