Júlio Pomar, Ilse Losa, 1950
seen from Brazil
seen from United States
seen from Philippines

seen from United States
seen from United States
seen from India
seen from United States

seen from United States
seen from Canada

seen from United States
seen from United States
seen from United States

seen from United States

seen from United States
seen from Netherlands
seen from China
seen from United States
seen from United States

seen from China

seen from Germany
Júlio Pomar, Ilse Losa, 1950
Ilse Losa (1913-2016)
PENSAVA EM MEU IRMÃO
Quando a luz tímida anunciava o novo dia, pensava em meu irmão.
Imaginava-o a olhar o nascer do sol através do postigo gradeado.
Parecia-me vê-lo estremecer ao lembrar-se do tormento que o esperava. E eu sabia que os seus olhos escuros estavam cheios de tristeza e de saudade.
Quando à hora do almoço me juntava aos meus na nossa casa, pensava em meu irmão. Imaginava-o dobrado sobre a tigela grossa, comendo o magro rancho sem gosto. Parecia-me ouvir o berro brutal do guarda para que ele se apressasse. E eu sabia que as suas mãos largas se fechavam num gesto de revolta.
Quando à tardinha a chama da lareira nos aquecia amigavelmente, pensava em meu irmão. Imaginava-o arrepiado de frio na cela sombria e gelada. Parecia-me ver o seu rosto pálido, as mãos que o ar áspero e cortante tornara rígidas. E eu sabia que cerrava os dentes para não gritar o seu ódio surdo.
Quando na noite negra e triste estava estendida no leito, pensava em meu irmão. Imaginava-o na tábua húmida e dura, que não dava descanso ao seu corpo dorido. Parecia-me que o meu quarto se enchia dos gemidos abafados nas mãos regeladas. E eu sabia que as suas lágrimas quentes caíam amargamente como as minhas.
E, pela noite lúgubre, comunicava-lhe: «Sê forte, meu irmão! Não tarda que as nossas mãos se unam de novo! Não tarda que o sol se levante também para ti e que as tuas lágrimas se acabem. Hás-de viver, irmão!»
Os meus pensamentos, penetrando a noite escura, alcançavam meu irmão; fechavam-lhe os olhos ardentes como uma mão subtil e fresca. E então o sonho, com as imagens de tempos idos, envolvia no seu manto caridoso, por umas curtas horas, meu pobre irmão.
Ilse Losa (Buer, Melle, Alemanha, 1913 - Porto, 2006), Grades Brancas (poemas em prosa), Lisboa: Centro Bibliográfico - Cancioneiro Geral, 1951, pp. 23-25. Membro da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos
Ilse Losa nasceu na Alemanha. Frequentou o liceu em Osnabruck e Hildesheim e depois um Instituto comercial em Hannover. A sua qualidade de judia criou-lhe embaraços no seu país, de onde foi forçada a sair. Na Inglaterra teve os primeiros contactos com escolas infantis e com os problemas das crianças. Refugiou-se em Portugal, aqui casou, adquirindo a nacionalidade portuguesa. A sua já vastíssima obra inclui romances, contos, crónicas, trabalhos pedagógicos e literatura para crianças. Tem colaborado em diversos jornais e revistas, alemães e portugueses, está representada em várias antologias de autores portugueses e ela própria colaborou na organização e traduziu antologias de obras portuguesas publicadas na Alemanha. Traduziu do alemão alguns dos mais consagrados autores. Em 1984 recebeu o Grande Prémio Gulbenkian, premiando o conjunto da sua obra para crianças. Alguns dos seus livros estão também publicados na Alemanha e em França.
Ilse Losa - 6 janeiro 2006
Ilse Losa – 6 janeiro 2006
A 6 de Janeiro de 2006, morre, no Porto, a escritora e tradutora portuguesa Ilse Losa. Havia nascido a 20 de março de 1913, em Buer, uma pequena aldeia alemã localizada a 125 km de Hannover. Filha do casal judeu alemão Artur Lieblich e de Hedwig Hirsch Lieblich, é criada, em criança, pelos seus avós paternos Joseph e Fanny, que se encarregam da sua educação. Anos mais tarde, volta a viver com os…
View On WordPress
Portuguese stamp issued in tribute to Ilse Losa (1913-2006), famous writer and translator mostly of books for children.
She was originaly born in Germany, from where she and her family had to escape due to the Nazi persecutions.
After a short stay in England, Ilse found refuge in Portugal, where she came to live in 1934. She settled in Porto city (north of Portugal) and later married a Portuguese architect.
In 1984, Ilse was awarded the Grande Prémio Gulbenkian (Gulbenkian Grand Prize) for her work dedicated to children. In 1980/81, she had already been awarded “best text” prize in Children’s literature category by the same Foundation.
© Egídio Santos
José Rodrigues, Eugénio de Andrade, Óscar Lopes e Ilse Losa.