O que o passado é para o tempo, o sentido é para a linguagem, e a ideia para o pensamento.
Gilles Deleuze, A Imagem-Tempo

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O que o passado é para o tempo, o sentido é para a linguagem, e a ideia para o pensamento.
Gilles Deleuze, A Imagem-Tempo
Nada há de relevante ou de singular na vida; as mais estranhas aventuras se explicam facilmente, e tudo é feito de ordinários. Um termo ordinário sai de sua sequência, surge no meio de outra sequência de ordinários em relação aos quais ele assume a aparência de um momento forte, de um ponto relevante ou complexo. São os homens que fazem a confusão na regularidade das séries, na continuidade corrente do universo. Há um tempo para a vida, um tempo para a morte, um tempo para a mãe, um tempo para a filha, mas os homens os misturam, fazem com que surjam em desordem, os erigem em conflitos. É o mesmo que pensa Ozu: a vida é simples, e o homem não pára de complicá-la "agitando a água que dorme".
Gilles Deleuze, A Imagem-Tempo
O esplendor da Natureza, de uma montanha coberta de neve, só nos diz uma coisa: Tudo é ordinário e regular. Tudo é cotidiano! Ela se contenta em reatar o que o homem rompeu, reergue o que o homem vê quebrado. E, quando uma personagem sai por um instante de um conflito familiar ou de um velório para contemplar uma montanha coberta de neve, é como se ela procurasse refazer a ordem das séries perturbadas em casa, mas restituída por uma natureza imutável e regular, tal como uma equação que nos mostra a razão das rupturas aparentes, "voltas e mais voltas, altos e baixos", segundo a fórmula de Leibniz.
Gilles Deleuze, A Imagem-Tempo
Em Umberto D, De Sica constrói a célebre sequência: a jovem empregada entrando na cozinha de manhã, fazendo uma série de gestos maquinais e cansados, limpando um pouco, expulsando as formigas com um jato d'água, pegando o moedor de café, fechando a porta com a ponta do pé esticado. E, quando seus olhos fitam sua barriga de grávida, é como se nascesse toda a miséria do mundo. Eis que, numa situação comum ou cotidiana, no curso de uma série de gestos insignificantes, mas que por isso mesmo obedecem, muito, a esquemas sensório-motores simples, o que subitamente surgiu foi uma situação ótica pura, para a qual a empregadinha não tem resposta ou reação. Os olhos, a barriga: um encontro...
Gilles Deleuze, A Imagem-Tempo