This video is part of the Project "Micromachismos Cotidianos no Ambiente do IME-USP" (Daily Micromachisms in the Environment of the Institute of Mathematics ...



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▼ Sobre militância nas exatas
Acho bem estúpido quando alguém tenta hierarquizar não só opressões, mas militantes. E hora ou outra aparece alguém com manifestos do tipo " em curso de exatas militante é (e tem de ser) tudo acomodado". Quando qualquer campanha ou protesto é feita em um curso ou instituto de exatas, em geral a resistência encontrada, a meu ver, ao menos no IME-USP (onde estudo), não é contra o significado do protesto em si, mas em se estar "acabando com a cara de um instituto de exatas". Ano passado, quando rasgaram uma entrevista sobre o DiversIME (Grupo de Diversidade do IME) e pregaram em um mural, diziam, entre várias coisas até piores, que "não podíamos transformar o IME na FFLCH” (esta é a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, também da USP). E o mesmo discurso falacioso acontece todo dia. Em um dia vejo um comentário do tipo em um post no facebook, e no dia seguinte em um grupo lgbt. Por favor, né. O coletivo de diversidade mais antigo e ainda ativo da USP é de um instituto de exatas. Isso significa que ele faça isso melhor? Não. Significa que não é preciso ninguém de outra área para ensinar a militar. As opressões que a gente combate existem não em cursos específicos, mesmo que possam se manifestar de formas específicas. Opressões estão na sociedade inteira, e pessoas oprimidas não têm de lidar com elas somente dentro de seus cursos. Ou seja: de um jeito ou de outro é preciso resistir, de algum modo, quando se é oprimido. E não é nenhum curso universitário nem a academia que ensina a fazer isso.
Desconsidera-se ainda o quão masculino é o ambiente de qualquer instituto de exatas, e a natural resistência extra que passa a ser necessária por isto. Em um lugar assim, não se é apenas minoria ideológica, mas minoria proporcional também, não importando qual a bandeira militante que você levante. Ao se agir como minoria proporcional, numérica, é naturalmente mais difícil que se possa apelar sequer para a administração do instituto. Vide o IntegraPoli, competição feita na Escola Politécnica para os calouros e lotada de provas machistas, ou qualquer outra atividade semelhante. Reclamar de uma situação assim dificilmente resulta em algo, afinal mal há gente em quem buscar apoio.
Dizer que, comparativamente, institutos de exatas possuem esse diferencial numérico que tende a fortalecer opressões? Ok. Dizer que grupos oprimidos de institutos de exatas não conseguem tornar sua luta relevante em seus institutos ou têm menos capacidade para tal? Não ok. E não só não é ok como ainda reforça uma aparente necessidade de "conformação" das pessoas militantes ao ambiente onde estão inseridas. Militância não é "coisa de humanas" e pessoas oprimidas não "têm de ir pra humanas pra lutar". Não reflitam seus desprezos por institutos de exatas cujos estudantes fazem muita besteira, ou mesmo por exatas em si, para cima de militantes de exatas. Nem se refiram a pessoas de exatas em geral como pessoas acomodadas. Se outras áreas são mais abertas à militância é por uma questão proporcional, porque tem mais gente para levantar bandeira, assim transformando o ambiente de fato. Não é por acomodação, afinal, se alguém vai levantar uma bandeira, é a pessoa oprimida e não a maioria ideológica. Capisce?
E vou aproveitar esse post para fazer minhas oferendas aos deuses Lovelace e Turing. Vocês, dentre outros, dão a maior força para a gente abrir espaço para debate e repensamento dentro do IME.