Estou terminando o último ano do ensino médio, espero a muito tempo por isso.
Enfim vou poder me decidir a algo mais pessoal, um trabalho mais meu. Eu cresci, e por mais que isso às vezes seja bom, não tenho certeza que é a melhor coisa a se fazer... Não sou mais aquele menino de 11 anos quem mal sabia empinar pipa.
De quem eu mais sinto falta? Do meu tio. Tio Daniel – ou Dani, que era como eu o chamava – não vive mais aqui, ele faleceu faz 3 meses. Eu desistiria de qualquer coisa, se o meu tio dissesse que era o certo a fazer. Ele ajudou muito eu e minha mãe, foi o pai que eu nunca tive.
– Mason! – uma voz exclamou. – Está com a gente, ou foi para Marte outra vez?
Todos à minha volta riram, então com um susto, percebi que estava cochilando na classe da Senhorita Chase.
Eu estava no meio da aula de francês.
– Estou aqui. – falei. – Desculpe...
– Bom, eu presumo que não saiba a resposta para a minha pergunta. – falou ela. – Então, continuemos.
– Ãh, – levantei a mão. – Je peux aller aux toilettes?
Pra quem não gosta de francês, ou até pra quem gosta, mas não teve a oportunidade de aprender, eu pedi para ir ao banheiro.
– Mon plaisir, monsieur Rowe. – respondeu a senhorita Chase. Ela gosta muito quando falamos com ela em francês, ela diz que é uma maneira de compartilharmos nossos conhecimentos. Acho que ela até me perdoou por dormir em sua aula.
– Merci. Excusez-moi... – falei. Eu gosto de francês, por mais que a senhorita Chase pareça severa, ela é uma pessoa boa.
Levantei da minha mesa e ouvi cochichos. Olhei por cima do ombro, eram alguns garotos do fundo da sala que riam e conversavam entre sí.
Saí da sala, fechei a porta. Os corredores estavam quase totalmente vazios. Tirando os funcionários e alguns veteranos que matavam aula para ficarem se pegando com as namoradas pelos cantos, não havia mais ninguém.
Fui ao banheiro. Estava cansado, molhei o rosto com a água da pia para me despertar um pouco. Enxuguei-o, e encarei o espelho. Passei as mãos pelo meu cabelo, levando-o quase todo para trás.
Não sou muito de parecido com a minha mãe. Na verdade, tirando os olhos cor de avelã, não temos mais semelhanças. Nunca cheguei a ver uma fotografia sequer do meu pai... Temo que eu me pareça com ele. Sinceramente, não é uma das coisas que mais me agradaria.
Quando fui sair do banheiro, ouvi vozes. Seriam as mesmas vozes que riam na sala de aula? Sim, eram eles. Carlos e seus dois guarda-costas, eles estavam entrando no banheiro.
– Bom dia, Mason. – falou Carlos. Os outros dois só riam. – Como vai a vida? Continua com seus furtos? – Zomba ele.
– Do que você está falan... – Antes de terminar de falar, entendi o que ele queria dizer.
– O casaco... – falou ele. – O casado da senhora Morge.
E então eu lembrei...
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" – Eu estou com frio... – uma voz reverberava em minha cabeça. Era a voz da minha mãe. Lembrei de suas palavras, do que ela disse naquele outro dia...
– O casaco eu dei ao Mason. – falou ela. – Prefiro passar frio, do que vê-lo congelar. – eu ouvira ela falando isso ao telefone, com uma amiga do trabalho.Estavam preocupados com ela, comigo... conosco.
Minha mãe já fez muito por mim, eu precisava fazer algo por ela. Não conseguiria encará-la todas as manhãs, dizendo que estava tudo bem, enquanto por baixo da face de mulher forte, ela era só mais uma pessoa como qualquer outra, que sente frio e fome. É claro que eu sei que o que eu fiz não foi certo, e sei também que se ela ficasse sabendo disso, seria mais um peso pra mim, pois ela não sentiria orgulho algum por eu ter feito isso. Mas eu estava desesperado, porque eu sabia que era tudo por mim... era tudo minha culpa.
E então eu o peguei.
Depois da aula, quando a Senhora Morge estava guardando as suas coisas, fui até a secretaria e anunciei um recado para ela. Ela foi, mordeu a isca. Quando saiu, eu entrei na sala, e peguei o casaco.De alguma forma,Carlos estava lá... E ele me viu.
Foi aí que aconteceu...
Antes que eu conseguisse sair da sala, ela voltou. A senhora Morge me olhou com uma cara de fúria e questionamento. Se eu conseguisse ler seus pensamentos, saberia o que ela estava pensando: – Que porra é essa?
Eu estava na cena do crime, pego em flagrante... Estava com o casaco em mãos, estava totalmente ferrado.
– O que significa isso, senhor Rowe? – indagou ela.
– E-eu... – gaguejei. Tentei falar, mas não conseguia. De repente, alguém irrompe na sala: Carlos.
Ele entra e diz:
– Desculpe, senhora Morge. – falou Carlos. – Eu o desafiei a pegar o seu casaco. Era uma brincadeira... Desculpe.
Olhei para ele, eu tentava entender o que tinha acabado de acontecer. Qual a razão para o Carlos estar me ajudando?
Carlos me olhava sério.
– Isso fui muito infantil da sua parte, senhor Lawynski... Pare com esses desafios. E você, senhor Rowe, cresça e pare de aceitá-los... Que infantilidade! – falou ela
– Desculpe... – falei enfim.
– Podem ir, vou levar essa na esportiva. – falou a senhora Morge. – Mas que isso não se repita. Ouviram, garotos?
Nós assentimos e deixamos a sala.
Assim que nos afastamos da porta da sala, empurrei Carlos na parede. Coloquei meu braço sobre seu peito, segurando-o ali, sem poder sair.
– O que foi isso? – falei.
– Ficou louco, cara? – respondeu ele. – Essa não é a melhor maneira de me agradecer por ter livrado você dessa.
– Por quê fez isso? – perguntei.
– Eu já te subestimei muito, Mason... – falou ele. – Agora eu sei do que você é capaz.
– Não entendi! – falei, com raiva.
– Primeiro... – começa ele. – Pode me soltar?
– Claro, foi mal. – falei, soltando-o.
– Eu sei qual é o seu tipo... – fala ele ajeitando a roupa. – Faz de tudo pela família e amigos... Na verdade, você não é muito de fazer amigos, certo?
Eu apenas o olhava, sem dizer nada.
– Você é corajoso, cara... Eu admito. – fala ele. – E agora, está me devendo uma.
– O que você quer? – falei.
– Agora? Nada. Você vai ser tipo a minha espécie de "carta na manga". – falou Carlos. – Vou lembrar muito bem dessa dívida... Espero que faça o mesmo.
O sinal tocou. Eram onze horas.
– Hora da última aula. – falou ele. – Até qualquer dia desses...
Ele se virou e começou a caminhar em direção à sala de aula. E então ele parou e se virou para mim outra vez.
– Afinal, para que merda você queria aquele casaco? – E então ele revirou os olhos, e voltou a andar até a sala. "
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– Tá, eu já sei. – falei. – Agora me diga... O que vai querer que eu faça?
– Calma, calma... – falou Carlos. – Por quê essa pressa toda?
– Eu tenho muito o que fazer, não posso perder a manhã toda aqui.
– Estamos no meio da aula de francês, e você já é muito bom nisso, não é?
Olhei-o, tentando entender onde ele queria chegar.
– Eu não me importo com as aulas, é claro. – falou ele. Seus dois lacaios riram. – Mas é algo necessário, então... Se eu for mal, não vou me formar. Mais um ano de colégio não é nada, mas meus pais não acham isso. Então...
– Então? – falei. – Você quer aulas particulares?
– Você quer dizer... – ele apontou para mim. – Você me ensinando? – Os três riam. – Não, claro que não. Eu combinei com a Chase um tipo de trabalho de recuperação. Ele é grande, óbvio.
– E você quer ajuda? – falei. De novo, eles riram.
– Eu acho que o seu problema, é ser muito lento. – disse ele. – Talvez seja por isso que não conseguiu pegar o casaco...
Fechei os olhos, e cerrei os pulsos. Respirei fundo... Um, dois, três.
– Isso foi há muito tempo atrás... Ninguém nem lembra mais disso. – falei.
– Tem razão... – falou ele. – Mas sua mãe não iria gostar de saber disso, de qualquer forma.
– Ela não acreditaria em você. – falei.
– Ah sim, ela defenderia o filho amado que ela pensa que é a melhor pessoa do mundo. – falou ele. – Seria uma pena se essas fotos aqui, fizessem com que ela pense de outra forma.
Ele tirou o celular do bolso, e mostrou as fotos que ele tirou de mim naquele dia.
– No minuto em que eu vi você ali, eu sabia que estava planejando algo... – falei. – Por que você me odeia tanto?
– Eu não te odeio. – falou ele, secamente. – Você só não entrou para o lado certo da história.
– Nunca que eu seria como eles. – falei, apontando para os dois atrás dele. – Viver como sua sombra... Realmente não é pra mim.
– Eu não os obrigo a nada. – falou Carlos. – Pode até pensar que eu os suborno, ou chantageio, mas não... Eles estão aqui por livre e espontânea vontade.
Assenti.
– Tudo bem. – falei. – Eu faço o seu trabalho.
– É isso aí! – falou ele. – Você vai fazer, e vai fazer bem feito. Ou então, peço que meus amigos deem um jeito em você.
Os dois caras atrás de Carlos me olham.
– Agora está me ameaçando? – pergunto.
– Digamos que é minha garantia. – falou ele. – Minha maneira de me certificar de que o trabalho será feito.
– Ele será feito. – falo, não gaste seu tempo pensando nisso.
– Não se preocupe comigo, eu sei o que faço. – falou Carlos.
Reviro os olhos e cruzo os braços.
– É vida, Mason... – fala ele. – Alguns nascem com o poder de mandar em seus servos, e outros nascem para apenas para seguirem ordens.
– Todo poder, tem sua batalha... – falei, sem nem sentir que tinha falado.
– Como é? – pergunta Carlos.
– Nada, eu apenas pensei alto. – falei.
– Que seja. – falou ele.
– Posso ir agora? – falei.
– Claro. – falou Carlos. – Eu lhe mando um e-mail com os requisitos do trabalho, depois.
– Eu não tenho e-mail. – falei.
– Ah tá... – falou ele. – Isso é possível nos dias de hoje?
Olhei para ele sério.
– Eu passo na sua casa depois que soltar do trabalho. – falei.
– Você sabe onde eu moro? – fala ele.
– Eu dou um jeito. Agora, se me permite, alteza... – falei, debochando dele com um tipo de reverência. – Até logo.
Empurrei o escravo um que estava trancando a passagem, ele grunhiu. Enquanto saia, ouvi Carlos dizer.
– Que garoto estressado. – disse ele. – Eu hein...
Desejei no meu subconsciente que ele morresse ali mesmo, naquele exato momento... Mas mais uma vez, tudo não passou de um desejo.
Olhei o relógio, era quase meio dia já. A aula de francês já tinha acabado, eu não voltaria pra sala para assistir vinte minutos da aula de filosofia.
– Uma falta não vai me fazer falta... – falei. Meus materiais ficam todos guardados do armário, só deixei um caderno quase em branco na sala. – O dia parece bonito, eu poderia chegar mais cedo em casa. Quem sabe eu até poderia dormir um pouco antes de ir para o trabalho... – Pensei bem, e então saí porta a fora.