As Personas por Ingrid Macedo
Frederick arrumava seu terno, observando no espelho o quão bem o corte italiano ficava em seu corpo, dando-lhe uma imagem de poder. O tecido bem acinturado, estreito no peito e justo nas mangas, transmitia um ar esbelto e intelectual.
Seu cabelo, de fibras negras, possuía um estiloso topete, coberto de gel para que todos os fios ficassem em seu devido lugar, assim como seu relógio ajustado perfeitamente ao tamanho do seu punho.
Conferiu sua maleta, pegando-a pela alça e sentindo seu peso, tendo consciência de que seria o suficiente para derrubar alguém no chão apenas com um golpe, utilizando as ferramentas que se encontravam no seu interior.
Seu primeiro alvo do dia se chamava Braiden Williams. Estudava o quarto semestre de Direito na Universidade de Calamish e suas vítimas em potencial eram calouras de Economia ou Engenharia Ambiental. Agia atrás do prédio abandonado da antiga biblioteca municipal, no banco traseiro de seu carro, um Ford Maverick vermelho 1974.
As ruas da universidade eram largas, repletas de luminárias de ferro fundido acopladas em postes cinza chumbo. Um pequeno reflexo da luz solar iluminava o lado esquerdo de seu rosto, transparecendo em seu semblante tenso algumas pequenas cicatrizes, que passam despercebidas a qualquer olhar desatento.
Carros e motocicletas passavam pelas laterais das calçadas, formando um diversificado de cores, que se destoava, desde o preto ao vermelho. As calouras de Economia, alheias aos olhares maliciosos dos veteranos de Direito, dirigiam-se para o gramado perto da porta central do Bloco A. Rodeadas de amigas, lendo livros ou escutando música em seus fones de ouvido.
Seu alvo em potencial, um cara alto e loiro, perto dos um e oitenta de altura, observava um grupo de 6 meninas, todas loiras. Atento em cada movimento feito, porém, uma em potencial, claramente, chamava sua atenção. Kristy Caill.
Lembrou-se do nome sendo pronunciado pelos corredores da universidade. Com suas curvas marcantes na calça jeans de lavagem clara justa, os ombros estreitos, braços finos e seios avantajados. Soube logo de cara que aquela seria uma das vítimas do desconhecido, nem tão desconhecido, encostado em um dos carros que ali estava, com um sorriso de ponta a ponta em seus lábios.
Olhou em seu relógio, contando os segundos para o fluxo de indivíduos diminuir daquele lado, esperando ansiosamente Braiden se distanciar dos amigos, caminhando em direção a sua, nem tão famosa, cópula, vulgo carro.
Observou ao redor o estacionamento vazio - apenas carros e motos em suas devidas vagas -, preparou sua maleta, puxando a alça, abrindo o trinco com o movimento e pegando rapidamente o macete de couro, revestido de pregos com pontas enferrujadas, cuja as quais rastros de plasmas ainda se encontrava ali.
Caminhou silenciosamente até o veículo vermelho, entrando rapidamente no banco do passageiro. Esperou exatos 2 segundos e meio para Braiden o reconhecer mas não assimilar o que estaria acontecendo logo em seguida.
Apertou um mini botão localizado na lateral de seu relógio, revelando uma pequena lâmina afiada que logo se encontrava repleta de sangue pelo golpe dado na clavícula de seu alvo.
Escutou o início de um uivo, aplicando seguidamente golpes com o macete na face do indivíduo e apenas um pensamento passava em sua mente:
Todos pensarão que ele viajou. Ele sempre viaja.
...
Como de costume, o parque estava vazio e nenhuma alma viva passava perto o suficiente para identificar uma sombra sentada no balanço enferrujado, ou o pequeno ruído de ferro enferrujado, disputando com o vento para ver se o brinquedo permaneceria parado apenas sustentando o peso da criança, ou se rendia ao balançar do ar.
Albert passava a mão em seu coelho de pelúcia bege, que ao decorrer dos anos e pela falta de lavagem, estava encardido, com um olho faltando e pequenos fiapos de algodão saindo nas beiradas da frágil costura. Mas não deixava de ser perfeito aos olhos que, naquele momento, eram inocentes.
Suas roupas desgastadas eram compostas por uma calça jeans larga, uma camisa vermelha G e sua capa de chuva cinza, que não o protegia tanto dos pingos da frágil chuva devido aos buracos localizados em quase todo o tecido. Em seus pés, apenas meias furadas os aquecia e protegia das inúmeras pedras que cobriam quase todo o chão do parque.
Uma melodia saia de seus lábios em pequenos assobios, às vezes acompanhada de sorrisos e batidas em sua perna. A Christmas Carol sempre fora sua cantiga favorita, rodeava a sua mente durante toda noite, enquanto, eventualmente, balançava para frente e para trás.
Ao longe, escutou um barulho de sirene do corpo de bombeiros, ao qual suas luzes vermelhas e brancas refletia no teto das pequenas casas ao redor, ocultas pelas sombras das árvores e a precária, se não nenhuma, iluminação na rua.
Cachorros e gatos perambulavam ao redor do parque, mas nenhum chegava perto para espiar a fonte do severo assobio ou do choque entre correntes, por medo do que encontrariam ou pelo simples fato de saber que era algo ou alguém insignificante, ao qual não valia a pena perder tempo.
Com o badalar da antiga igreja, soube que já era meia noite e seu horário estava acabando. O amplo sorriso, que antes permanecia em seu rosto, diminuiu, deixando apenas rastros de sua vasta diversão. Seu coelho rapidamente foi parar dentro de sua vestimenta, assim como suas mãos dentro dos bolsos da precária capa.
Levantou relutante de seu brinquedo e saltitante, partiu em direção a sua casa para descansar, afinal, quem iria assobiar a melodia amanhã?
...
Ela está chegando.
Seus saltos faziam barulho na antiga madeira, que rugia com seu peso.
Crec crec crec. O corpo pequeno na cama, estava em posição fetal, encolhido e coberto por sua manta vermelha. Abraçando seu coelho e totalmente estático, como se aquele gesto fosse o proteger, ou melhor, fizesse com que ela fosse embora. Entretanto, como todos os outros dias, ela não o deixou em paz. A porta rangia ao ser aberta lentamente, evitando que qualquer outra pessoa soubesse o que ela estaria fazendo ali. O farfalhar de lençóis e o movimento do colchão denunciavam quem já estava ali, do seu lado.
Sua mãe.
Fechou os olhos quando o tecido que o cobria foi retirado repentinamente. Escutou aquela voz que antes achava linda, mas que agora, só causava arrepios. “Olá bebê, a mamãe chegou.” Já sabia o decorrer da cena.
O som do cinto sendo desafivelado, o elástico de cabelo batendo contra o punho e sendo amarrado nos fios soltos, o casaco grosso saindo do corpo de sua progenitora. Tudo isso era como música aos seus pequenos ouvidos. Uma música totalmente desafinada e que lhe renderia bons hematomas. O primeiro golpe veio de repente, em sua canela fina, junto das mesmas palavras. “Eu te amo, isso é para seu bem.” Em seguida veio o segundo, o terceiro, o quarto. Amaciados pelas frases que já não fazia tanto efeito. “Eu te amo. A mamãe chegou. Tudo vai ficar bem. Não conte para seu pai. Seu rostinho é lindo.”
Como todas as outras vezes, chegou o momento em que ele só soluçava e se perguntava "O que eu fiz, mamãe? A senhora não vê que está doendo?" Sua inocência infantil fazia com que ele não entendesse o que estava acontecendo, mesmo após anos de agressão. Só compreendia que aquela dor que sentia, não era normal.
Seus amigos da escola sempre diziam em como as mães os levava para passear, compravam doces e brinquedos, ensinavam a ler e a escrever. Então, por que a sua era diferente? Não sabia quanto tempo havia se passado, apenas que tinha acabado quando ouviu o rotineiro suspiro cansado e o coelho arrancado violentamente da sua mão, seguidas de palavras de ódio ao ser inanimado. “Eu odeio esse coelho.” Pensava que não conseguiria dormir com toda aquela dor no corpo, mas o esforço de não gritar sugou suas poucas energias e adormeceu, pensando sempre a mesma coisa. Eu não sei se eu te amo, mamãe.
...
Os dias se passaram tranquilamente, ninguém comentava sobre os assassinatos repentinos que aconteciam na universidade, apenas imaginavam que as pessoas estavam viajando.
Exceto a perícia. Os agentes da lei perceberam que todas as vítimas eram homens entre 20 e 24 anos, porte médio e corpo atlético, que possuíam denúncias em suas fichas como abuso verbal, psicológico e corporal registrados nos últimos dois anos.
Os ferimentos deixados nos corpos foram ligados a algum tipo de instrumento recheado de pregos, devido aos furos com seis centímetros de profundidade e o diâmetro fino, marcados na pele de todos os potenciais agressores. O corte na jugular, a olho nu, poderia passar como superficial, já que seu diâmetro não chegava a ser um centímetro. Entretanto, foi extremamente calculado, atingindo diretamente as veias internas e externas, cortando o fluxo sanguíneo para o cérebro, aumentando sua pressão. Apesar desse golpe fatal, todas as vítimas morreram ao terem seus pulmões perfurados violentamente por um metal afiado, com a ponta de dez a quinze centímetros entrando diretamente no órgão. Os policiais entendiam a ligação entre esses assassinatos, mas não existia relação entre as vítimas desses homens, além da que estudavam em um mesmo local. Câmeras do circuito interno da rede de ensino superior não filmavam o que acontecia, ou simplesmente estavam em manutenção. Quem quer que fosse o assassino, não queria deixar rastros e sabia o que estava fazendo.
Entretanto, como todos os crimes, uma prova foi encontrada.
Um pequeno pino de relógio dourado foi achado no chão do carro de Braiden Williams, junto com gotas de sangue da vítima. Um homem foi identificado.
Edward Miller. Solteiro. 28 anos. Nascido em Londres, Inglaterra. Filho dos falecidos Jim Frederick Miller e Dayane Miller Albert. Sem antecedentes criminais. Sem entradas em hospitais. Sem arquivos depois dos 6 anos de idade.
Através de um sistema envelhecedor de fisionomia, federais andaram ao redor dos perímetros de Calamish, com uma foto em mãos do que seria Edward nos dias de hoje. Alguns diziam tê-lo visto na faculdade, sempre vestido de terno e acessórios de luxo, outros não o reconheciam.
Às 19 horas, um grupo de agentes, começou uma busca nos perímetros do abandonado parque central. À luz do luar, pouco se tinha da visão dos brinquedos e das árvores, formando sombras disformes e barulhos de folhas secas se debatendo no chão. O vento soprava a areia para cima, rodeando os pés daqueles que se atreviam a ir até lá.
Com a brisa batendo, todos os agentes ficaram em silêncio, procurando com lanternas algo de suspeito.
Um barulho de ferrugem estava perto, como se um balanço antigo estivesse se movimentando e cada vez mais rápido. A melodia soprada aos quatro ares foi ficando mais alta. Um corpo sentado coberto por uma capa cinza desgastada estava ali, ao lado de um coelho, provavelmente encontrado no lixo.
O indivíduo se movimentou lentamente para trás, olhando a luz, pouco comum, o cegar.
“Edward Miller, perante a lei, você tem o direito de permanecer em silêncio. Tudo dito deve e será usado contra você no tribunal”.
Albert sentiu seu corpo ser puxado violentamente para trás, soltando um grito com o gesto repentino. Seu coelho voou para longe assim como as pedrinhas ao redor do seu balanço. O corpo, pequeno ao seu ver, bateu contra o piso fortemente, o deixando atônito por um momento. Sentiu lágrimas escorrendo por seus olhos.
Não entendia o que estava acontecendo. Ele era só uma criança. Só queria brincar. Mas um último pensamento rodeou sua mente, e ali ficou, como uma névoa durante o temporal.
Afinal, quem é Edward Miller?













