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Os romances longos escritos hoje talvez sejam uma contradição: a dimensão do tempo foi abalada, não podemos viver nem pensar exceto em fragmentos de tempo, cada um dos quais segue sua própria trajetória e desaparece de imediato. Só podemos redescobrir a continuidade do tempo nos romances do período em que o tempo já não parecia parado e ainda não parecia ter explodido, um período que não durou mais de cem anos
Italo Calvino
Cartografia XXVIII
Existe a experiência crua e toda a teorização acerca da experiência. A teorização nos ajuda nos relacionamentos. Uma coisa é vivenciar uma experiência. Outra coisa é conceitualizar uma experiência. As engrenagens da mente discursiva são como moinhos.
Buscamos nas palavras. Note como vivemos em culturas de palavras. Damos nomes para tudo, nomes para nossos filhos, para nossos condomínios, nomes jurídicos. Agimos como rotuladoras, fixando símbolos sobre símbolos sobre símbolos. Atolamos em falatórios.
Palavras não bastam. São como bolhas de sabão. As orientações práticas são como setas apontando. Ainda será preciso viver a situação prática e ser capaz de discernir quando agir e quando descansar.
Os ensinamentos sobre o viver podem ser organizados pela intenção. Há duas intenções ordinárias e uma extraordinária. As duas intenções ordinárias são: egoísta e coletivista. A intenção extraordinária é sabedoria.
A sensação de estar patinando surge em certo horizonte. Ela é comum em certas histórias, como o mito do herói. Ela é comum em certos métodos, como aqueles de graus e estágios. Um eu que se identifique é necessário para transformar a sensação de estar patinando em um mito.
O sofrimento é um dado da realidade ilusória. Sofre-se por aparência. Há uma quantidade inesgotável de dor na experiência humana. Toda a nossa economia, 99% de nossa atividade é a tentativa de acabar ou diminuir a dor (que pode ser imaginária).
Em minha experiência cada instante pode ser congelado em contações que se desdobram através do tempo, como romances, como críticas, como ensaios, como esta frase, e assim por diante. Contando uma história, invento um sentido para a vida e tento controlar a dor.
Mas a vida constantemente destroça sentidos, mais ou menos como se odiasse ídolos. Os sentidos, as interpretações, os “comos” são tocados pela morte. Pessoas como eu esquecem frequentemente que estão lotadas em sonhos.