Já não subsistem em mim
labaredas capazes de lançar-me ao desvario.
Com a frieza melancólica
de um inverno tardio,
logrei expulsar até mesmo
o mais obstinado dos desejos,
como quem encerra, com mãos trémulas,
as portas de uma catedral abandonada.
Parece-me que regressámos ao princípio —
não ao princípio puro das primeiras auroras,
mas ao vazio solene
que antecede todas as tragédias.
É certo que a memória
não se deixa sepultar com facilidade.
Há nomes que permanecem ecoando
pelos corredores da alma,
como passos antigos
num palácio há muito consumido pelo tempo.
Contudo, o coração…
ah, o coração pode ser educado à ausência.
Pode aprender a silenciar expectativas,
a vestir luto pelas promessas do porvir
e a contemplar, imóvel,
o túmulo dos próprios anseios.
E creio havê-lo conseguido.
Assim sendo, considera-te doravante
desligado das minhas emoções,
como uma estrela distante
cuja luz ainda alcança a Terra,
mesmo após já ter perecido nos céus.
Levar-te-ei comigo apenas como levam os antigos:
não nos braços,
mas nas ruínas.