Da janela espelhada era quase improvável ver o sol nascer. O dia começava em tensão e dor de cabeça para Mary, que atordoada, levantava-se do mal acolchoado banco da sala de espera da delegacia.
Mal dormira, na verdade, nem chegou ao estado de sono, apenas repousou com os olhos fechados e a mente conflituosa durante toda a madrugada. Seus pés calçados em um par de botas novas doíam, sua blusa marcada de suor grudara em seu abdome, e caído ao chão o que antes estava sobre suas pernas, estava o cardigan vermelho de Luísa.
Olhando ao redor, o mesmo ambiente cinza que a causava enjoo, o escritório do delegado com a sua frente protegida por um vidro temperado estava vazio. Logo mais se aproximou Luísa trazendo dois copos descartáveis com café.
— Consegui isso na cozinha, já que não tem café pra visitantes na mesinha — explicou a garota alta que chegara, antes de recolher do chão a peça vermelha, resgatando Mary de seja onde lá que seus pensamentos amaldiçoados a estavam mantendo.
— Ah, obrigada. — Mary recebeu a bebida.
— O delegado já chegou, alguns policiais também, junto da mocinha da cozinha com quem peguei o café. O Tavares me contou que já deram o café da manhã do Derek. — Luísa sentou-se ao lado da amiga.
A menos de 12 horas atrás o jovem casal estava comemorando 6 meses de namoro. Mary estava radiante. Seu estado de espírito sofreu um completo desastre, o declínio teve seu início no momento em que os policiais deram voz de prisão e algemaram Derek; ela e todos os presentes no bistrô foram surpreendidos.
Agora seu futuro se encontrava lá, no fundo de um copo descartável de café, sendo degustado no ambiente inóspito de uma delegacia medíocre.
— Nós vamos ter filhos um dia. Ele quer ter filhos tanto quanto eu… Não entendo como ele teve coragem de bater em uma criança. Isso é a merda de um pesadelo. — Mary não pôde manter a voz baixa. Chamou a atenção do delegado que havia acabado de sair no corredor em direção a sala de espera.
— Bom dia, senhoritas, eu as aconselho a ir para casa, não há nada o que possam fazer aqui. Não se sabe por quanto tempo o detento vai continuar aqui, nem quando irá ser transferido para a penitenciária, o inquérito ainda está em aberto. — A figura robusta do delegado chegou a passos largos enquanto ajeitava o cinto.
— Eu não entendi nada até agora. Não sei os detalhes da acusação, não sei quem acusou, não sei nada, mas vou arranjar um advogado. — Mary era consolada pela amiga com toques nos ombros
— É seu direito — Sr. Castanho proferiu de maneira desdenhosa e saiu do local.
Assim que Castanho se retirou, surgiu pela porta escura da frente uma senhora desgrenhada, num coque desleixado e conjunto de moletom azul, carregava diversas sacolas.
— Minha filha, eu trouxe comida, mas acho melhor nós irmos embora, você precisa descansar. Já estou cuidando de achar um advogado. — Se esparramou sobre o banco ao lado direito de Mary, deixando as sacolas no chão.
— Eu quero ver o Derek. Preciso ver ele. — Ignorando completamente a chegada da mãe.
— Olha, Mary, acho melhor a gente ir com a sua mãe… e mais: você deveria esquecer o Derek por enquanto. — Luísa fitou a mãe de Mary, entreolharam-se.