Alice: minha pequena mulher com olhos cor de fogo.
Durante todos esses anos venho enfrentado meu maior inimigo: minha própria solidão. Passei boa parte da minha vida tentando encontrar alguém que aguentasse viver em mim, permanentemente, mas nunca encontrei alguém que conseguisse suportar carregar a vida nas costas junto comigo. Ninguém nunca soube como mergulhar em mim. Ninguém nunca tentou. Quando criavam coragem, coitadas, afundavam... Morriam dentro de mim. Deve ser por isso que a vida é tão desgastante e cruel comigo. Deve ser por isso que sentir dói tanto: sinto por umas dez pessoas. E sinto o peso de umas vinte.
O fato é: nunca ninguém se mostrou disposta a viver ilhada. Ninguém nunca aguentou viver na ilha deserta que eu sou. Ninguém nunca foi capaz de aguentar ficar debaixo d'água pelo menos uma vez por semana. Descobri algumas coisas nessa vida, mas a mais importante foi que o ser humano tem medo de tirar o pé do chão. O ser humano não consegue e não tenta viver se não for em terra firme. O ser humano não tenta voar por conta própria. Como é que ninguém tenta viver debaixo d'água? E é por isso que eu digo com orgulho: não sou completamente humano. Talvez eu já tenha sido, mas deixei de ser.
Também nunca consegui encontrar alguém que fosse capaz de gostar dos meus olhos de tonto sonhador. Muito menos alguém que conseguisse decifrar os olhos fúnebres que eu tinha quando chegava a noite. E isso era o que mais incomodava: ninguém me entendia. Ninguém era capaz de conviver com a incrível frustração de não saber o que se passa por mim. E o que me deixava ainda mais sozinho: sempre tive necessidade de tirar sangue de mim mesmo. Sempre tive necessidade de tomar veneno. Sempre precisei andar ao lado de penhascos, mas quem me acompanhava? Quem se jogava de abismos comigo? Ninguém entendia essas maluquices, não, ninguém entendia. Minhas várias faces nunca conseguiram agradar ninguém, não mesmo.
Só uma pessoa foi capaz de me aceitar e compreender a vida toda: Alice. Mas de que adiantava? Alice nem existia. Alice era fruto de minha imaginação. Alice era encantadora... Como era! Lembro-me muito bem da primeira vez que apareceu em meus sonhos, estava bailando. Alice me deixou intrigado logo de primeira. Era bailarina, mas nunca usava branco, sempre preto ou vermelho. Alice tinha cabelos negros e longos e seus olhos eram cor de fogo. Aliás, os olhos eram a janela de sua alma. E que alma!
Em meu segundo sonho com Alice eu pude perceber como era uma incógnita. Seus olhos se mostraram ainda mais misteriosos e agora me pareciam ser cruéis também. Isso alimentava meu desejo mais e mais. Eu via em Alice a minha salvação, meu antídoto. O veneno pra poder acabar com minha própria vida de vez. Tive certeza de que Alice não era um anjo. Alice só se camuflava na pele de um. Alice foi enviada pela Morte, tinha certeza. Sua missão era me levar. E a Morte caprichou, me trouxe a perfeição em forma de gente. Sua pele quente e seus lábios vermelhos me eram assustadores. Alice tinha um sol dentro de si e sua boca era cor de sangue. Seus dentes formavam uma linha reta, mas a Morte só conseguia atingir a perfeição quando seus cabelos negros tomavam parte do rosto de Alice e ficavam presos em sua boca.
Só em meu terceiro sonho eu pude chegar perto de Alice. Só em nosso terceiro encontro pude tocá-la. Só em nosso terceiro encontro eu pude afirmar algo com veemência: Alice era uma prisioneira, mas vivia como queria. Alice era sete em uma só. Alice era pássaro, sereia, rainha, princesa, sol, mar... E escrava... Pela primeira vez na vida eu tive certeza de uma coisa: queria ser levado, queria a morte mais dolorosa possível. Eu já estava morrendo aos poucos mesmo. Já não me importava em ter ou não uma vida. O amor que ardia e sangrava em mim me tirava dias de vida todos os dias. Decidi: queria me entregar pra quem fosse pra ter Alice nos meus braços.
Antes de meu quarto sonho eu descobri que Alice existia. Alice era minha salvação. Era a voz doce que salvava minha vida. Era a voz doce que sempre me mantinha longe de abismos. Foi aí que Alice começou sua história dentro de mim. Mas morreu logo depois. Nos matamos. Foi lindo.
Nossa morte aconteceu às nove da noite. Nossa história começou às nove e um da noite. A eternidade começou naquele momento, pra gente. Alice e eu vivemos um no outro desde então.