Em que rua será que foi? Onde será que deixei, quando será que perdi?
Em que esquina deixei meu antigo eu? Porque será que só perco as partes boas? As negativas seguem comigo por tantos e tantos quilômetros. Às vezes parece que percorri todo esse caminho tentando me livrar delas, mas elas seguem grudadas, tão presas a mim quanto eu a elas (ou seria o contrário?).
Já as partes boas, aquelas que sabiam contemplar, ver beleza no simples, encontrar o belo em quase tudo, onde perdi? Por que não já não sinto o mesmo quando vejo o que antes já contemplei? Por que meus olhos já não brilham? Onde foi que deixei cair a paixão?
Quero me apaixonar novamente. Me apaixonar pelas paisagens, pelo azul do céu, pelo formato das nuvens, pela saúde que tenho, pela completude que sou. Fisicamente não me falta nada, que sorte! Minha saúde, com mais altos e baixos, me deixa encostar nela com confiança, que sorte! Então por que não me apaixono? Por que me custa agradecer?
Quanta ingratidão, eu penso. Mas aquilo que está além do físico, e que não consigo nomear, sente tantas faltas.
Me irrito. Falta de que? Ao menos me diga! Eu grito. Mas aquilo parece não me escutar, ou finge.
Então volto a sentir as faltas. São muitas, eu acho. São suficientes para me tornar insatisfeita. Não me satisfaço. Não consigo apreciar o presente, porque as faltas, ou os medos dela, me arremessam ao futuro, sempre forte. Sempre uma pancada.
Me dói a cabeça, os ombros, a nuca, os dentes…
Detesto sentir falta. Não sei se faço o suficiente.
Às vezes parece ser tão simples fazer diferente. A vida parece ser tão simples. Fazer o que gosta, comer o que gosta, ouvir o que gosta, ir para onde gosta. Pequenas coisas que parecem tão simples de serem realizadas.
Mas do que gosto? Por que me custa tanto descobrir? Quantos anos mais até que eu descubra?
Respondo por tantas coisas… Sou (ou estou?) responsável por tantas coisas…Coisas importantes! Coisas que farão com que eu não sinta algumas faltas… aquelas faltas! as maiores! as que deixaram muitos rastros dentro!
Entende? São coisas importantes.
Como posso atender a todas as outras faltas e esquecer dessas? Dessas não consigo esquecer nunca! Elas percorrem quilômetros e quilômetros comigo, nunca perco na estrada.
Perco o resto, que depois se transforma em mais falta! Que falta faz a paixão! A diversão me faz falta! Correr riscos me faz falta! O novo me faz falta!
Sinto tantas faltas.
Odeio deixar quem fui chorando na estrada.
Mas deixo.













