Chilling Adventures: Jyn Montgomery
Ter a minha mãe como minha mãe, e viver sob o conceito que ela tinha sobre família, me fizeram pensar que era assim que tinha que ser: difícil, desconfortável e desgastante. Nunca ter ninguém com quem falar sobre coisas idiotas e importantes, e quando a oportunidade surgia, me sentir fútil e envergonhado o suficiente pra guardar pra mim mesmo.
Prometi a minha melhor amiga e as minhas irmãs que nunca, jamais, ia fazer meus futuros filhos passarem por isso, e quando eu desembarquei em Nova York com os dois debaixo do braço, pós divórcio e tentando descobrir como íamos desbravar o mundo juntos, fiz uma promessa pra eles também.
— Nunca vou deixar vocês sozinhos. — Dizia a Sun e Jae, segurando cada uma de suas mãos minúsculas, enquanto dezenas de pessoas faziam a nossa mudança pra mansão atrás de mim. — Quero que saibam que sempre podem contar comigo e que não importa o que aconteça, sempre vou ser o pai de vocês dois. Vou amar o que vocês amarem, vou lutar pelo que vocês lutarem, e vou apoiar vocês como se a minha vida dependesse disso… Porque ela depende mesmo.
Eu acreditava na ciência da confiança e honestidade, e me orgulhava muito de não ter barreiras e empecilhos com os dois, achava importante eles saberem que o lar e o meu ombro eram sempre um lugar seguro, e era isso o que eu defendia.
Sinceridade. Verdade. Afeto.
— Eu fico realmente, realmente feliz por finalmente conhecer você, Ferris… Que não seja mais pelos ruídos no quarto da Sun que ecoam pela casa toda.
Respeito também, mas só de vez em quando.
— As paredes não são finas, mas as mansões aqui… Tem uma acústica absurda. — Comentava muito aleatoriamente, observando me lançar um olhar que só podia significar morte, mas que eu ignorei, com a segurança que ela era incapaz de me matar. Assim eu esperava. — O que é engraçado, porque soube que você é músico, um excelente, inclusive.
— Por favor, me diz que vamos falar só sobre ele ser músico. — Elisa sussurra entre dentes ao meu lado, abrindo um sorriso, o qual retribui.
— Mas é por ele ser músico que eles se conheceram e ele está aqui. — Comentei arqueando as sobrancelhas, a muito tempo esquecido que aquilo era um jantar formal. — A doida varrida da Emma disse que ela podia aprender a tocar algum instrumento, ela escolheu piano e disse que achava ele bonitinho e por isso contratou ele. — Ia resumindo a história, gesticulando com as mãos pra separar as etapas, enquanto prosseguia. — No geral, ela só ia pras aulas porque achava ele bonitinho.
Com a constatação, ficamos eu e minha esposa olhando pra Torres por alguns segundos, analisando ele de verdade. Concluindo juntos.
— Ele é bonitinho, sim.
Durante a sobremesa, entre uma colherada de sorbet e outra, e historinhas fofinhas sobre encontros e coisas da escola, achei importante dar meus próprios relatos. Eles sendo necessário ou não.
— Sabe, já faz um mês inteiro que não vejo ela ameaçar os irmãos de morte por atropelamento e que a Constance não me liga dizendo que ela saiu no soco com alguma pessoa… Então acho que além de um músico excelente, é um rivotril em forma de menino, também. — Comentei, pensando que era bem um motivo pra se orgulhar, enquanto Sun segurava a própria colher com tanta força que pensei que ia quebrar. — Ela passou horas dizendo pra gente não te falar sobre o histórico de violência porque pensou que ia deixar você assustado, e sobre não mencionar a cirurgia do silicone, mas no seu lugar, eu ia ficar feliz em ter uma namorada que consegue bater em caras com o dobro do tamanho dela na força do ódio.
Fiz uma pausa pra tomar mais do sorbet, antes de acrescentar.
— Aconteceu sim, três vezes, e eu filmei. E quanto aos seios… É você que tem que achar alguma coisa, de qualquer jeito.
E criança por criança, eu não ia deixar a dos outros voltar tarde da noite pra casa sem companhia. Fingi que não estava prestando a atenção na despedida na porta de casa, e que não tinha tirado uma foto com flash pro grupo da família com Karoline e João, dizendo que as crianças estavam mesmo crescendo rápido, quando praticamente tive que rebocar o coitado, porque se dependesse da minha cria, ele só não ia mais sair dali.
— Brincadeiras a parte, acho mesmo você um garoto legal e acho sua dedicação pras artes muito inspiradora. Seus pais devem ser pessoas boas e com certeza tem muito orgulho de você. — E eu juro, estava dizendo aquilo do fundo do meu coração, porque gostaria de ouvir aquilo dos meus próprios filhos quanto a visão que as outras pessoas tinham deles, dirigindo a nem 30km por hora, com medo mesmo de colocar a vida da cria alheia em risco. — E sou grato por ser bom com ela, e por gostar dela, e por fazer nosso solzinho se sentir mais radiante do que o normal. Mas quando vocês forem… Avisem, pelos vizinhos. Tem muita criança morando naquela rua, e eu não quero ter que dizer pros pais delas dizerem pra elas que era luta de travesseiro.
E quem disse que o caçula era sempre o mais protegido e mimado e cuidado, estava certo. Porque não existia consideração maior do que aquela.
— Aqui, a Sun ameaçou ele de morte e ele teve que correr pela vida dele, uma mão segurando a fralda e a outra a chupeta. E aqui, ele escorregou na privada e ficou com a metade do corpo dentro dela. E aqui, ele caiu dentro de uma mini fossa na fazendo e ficou atolado no… Acho que você sabe o que. — Ia narrando cada memória pra Mitsune, apontando pras fotos do álbum de Jae, me fingindo de morto pra cada gemido de derrota seu no outro sofá, porque estava vivendo o meu momento. — Nunca ajudei ele porque acho que essas situações constroem caráter, e, bem, estava ocupado registrando.
E no café do Four Seasons, enquanto todo mundo parecia concentrado no cardápio e todas as milhares de opções mirabolantes, achei importante ser o primeiro começando a conversa.
— O Jae fala tanto de você que as vezes acho que ele esqueceu do resto do mundo e vive só no dele… E que somos pessoas, além de pais dele, e que temos vidas além de ouvir os monólogos… Só de coisas boas, eu asseguro. — Dizia para Mitsy, as mãos apoiadas embaixo do queixo como se fosse o clube da Luluzinha. — Soubemos que ele tinha perdido a virgindade e que tinha sido com você porque ele passou a falar sobre você cinco vezes mais… E com uma cara de surpresa e absurdo constante, e ele só ficou assim depois de descobrir de onde os bebês vinham nas aulas de educação sexual em casa.
— Mas não era ele que estava dizendo que não sabia que dava pra fazer isso de tantas maneiras? — Elisa nem se bateu em questionar, muito concentrada nas opções de bolos pra perceber Jae se escondendo debaixo da mesa.
— Sim, ele mesmo! Ele ficou daquele jeito porque não sabia que dava pra perder a virgindade daquele jeito!
Mas nem de vergonhas se vivia uma família unida, e uma hora, enquanto andávamos pelo Central Park, Jae procurando um carrinho de sorvete, achei importante que ela soubesse das coisas que deixavam o coração quentinho.
— Ele fez muitas coreografias pra você, e todas elas são impecáveis. — Dizia para a mais jovem, com meu braço colado ao de Elisa, que também sorria pra ela como se ela fosse um bebê fofinho que queríamos guardar no bolso. — E ele sempre planeja cada encontro e cada dia passados com você pra que seja perfeito, porque ele diz que você merece coisas perfeitas e que te façam se sentir assim também, porque é como ele te vê. Não perfeita, mas alguém que vale a pena todo o esforço e dedicação.
E como não queria nada, deixei Jae levar ela pra casa também… No banco de trás e ao lado dela, porque era muito tarde e eu que não ia deixar ele dirigir high no açúcar daquele jeito. Mas a bateria açucarada virou tantos nadas, quando vi ele dormindo no ombro dela pelo retrovisor, e achei assim… Digno de registro e mandei no grupo também.
— Vocês são fofinhos juntos, e espero que se sintam bem um com o outro, e quero que você saiba que qualquer coisa… Estamos por ai como sua família, também.
Porque o melhor conceito de família, era aquele que você adotava mesmo os que não eram oficialmente da sua, e considerava eles também.










