- Senhora Varik, o grande Sor Varik chegou – Eu estava parcialmente feliz naquele fim de tarde por causa do torneio.
- Eu já lhe disse que não é para ficar pulando esse muro Thiago Varik! – Ela parecia brava, estava quase gritando, mas eu sabia que era brincadeira, a minha mãe nunca gritava comigo. E foi quando ela abriu aquele lindo sorriso dela que eu tive certeza disso.
Rose Varik, a mais bela mulher de toda a Forger e quem sabe de todo o mundo, cabelos ruivos até a altura da cintura, que eu sempre tive o orgulho de carregar como herança, lábios pequenos e grandes olhos amendoados. Ela tinha curvas definidas como uma ninfa e o mais belo sorriso do mundo. Eu sempre soube por que o meu pai a escolhera, mas nunca entendi porque ele a abandonou.
Mamãe era perfeita em seu um metro e sessenta e cinco centímetros de altura, simpática, meiga, engraçada, inteligente e uma ótima cozinheira. Ela sempre me disse que eu era o espelho de meu pai, exceto é claro pelos meus cabelos.
Eu era pequeno para a minha idade, porém, isso me ajudou a conseguir a minha grande velocidade com os pés e força nos braços para usar o meu pesado arco, grande demais para o meu tamanho, mas eu era bom com ele, o melhor!
- Onde esta Luna? – Eu perguntei a minha mãe já sorrindo, aquele sorriso era mesmo contagiante.
- Ela esta lá na frente com a filha dos Jorge, aquela menina gosta mesmo de Luna para vir até aqui. Isso ai é o seu pagamento querido?
- É sim mamãe, pega aqui, só tem a metade, mas eu explico melhor depois que eu der uma olhada em Luna.
- Ok querido, vá lá e diga para Luna entrar para jantar – Ela se aproximou e me deu um beijo na testa.
Eu entrei na nossa casa, eu gostava de lá, me sentia seguro. A porta dos fundos dava direto para a cozinha, um fogão a lenha, uma pia improvisada e o armário onde nós guardávamos os grãos, legumes e carnes que conseguíamos comprar com o meu dinheiro da loja de pássaros do Sr. Parker e o dinheiro que a minha mãe conseguia arrumando roupas do pessoal da cidade manualmente. Passei pela cozinha e entrei na sala, que dava para os outros cômodos da casa, o banheiro, o meu quarto, e antigamente do meu irmão, e o quarto das “meninas”. A sala era preenchida por uma lareira, dois sofás, coisas que a minha mãe guardava de recordação, como uma ponta de flecha do meu irmão, um chapéu velho de meu pai, uma pedra que refletia a luz do sol em várias cores que o Sr. Parker me deu no meu primeiro dia de trabalho quando eu capturei um pardal. Ela até tinha o primeiro dente de leite de Luna naquelas prateleiras todas, entre outras coisas que eram importantes para ela e havia também uma mesa para as refeições. Nós nunca fomos ricos, mas eu amava nossa casa, lá era o meu lugar.
Abri a porta e lá estavam Camila Jorge e Luna Varik, conversando sobre os meninos da cidade. A minha irmã, eu cuidei dela desde criança enquanto meu irmão e minha mãe trabalhavam fora.
Meu irmão foi um ótimo ferreiro, fazia espadas, machados e martelos como ninguém, infelizmente, ele desapareceu dois anos depois do meu pai, exatamente no dia em que completava dezesseis anos, isso fazia mais ou menos um ano.
Luna era loira, fora isso, era a miniatura de Rose Varik, exceto por aqueles dentinhos de vampiro que costumavam me morder, e uma força descomunal para uma criança de apenas doze anos. Mas mesmo ela tentando me matar constantemente com socos, pontapés e mordidas quando eu não deixava ela sair para brincar porque estava frio, eu amava mais do que tudo aquela pestinha dos cabelos de ouro.
Camila Jorge era uma menina comum na nossa cidade, um pouco mais alta que Luna, de olhos e cabelos castanhos, e magra, os Jorge estavam passando por dificuldades também.
Algo esta acontecendo fora dos portões das cidades, os grãos e plantios estavam sendo destruídos, animais morriam todas as noites e arvores caiam como plumas na floresta, e o mais estranho de tudo isso, ninguém nunca viu ou ouviu alguém fazendo ou parecendo que faria tais coisas, as pessoas iam dormir em um dia e no outro quando acordavam estava assim, como se simplesmente tivesse “acontecido”. Mamãe sempre dizia que “o equilíbrio da natureza estava se alterando”. Eu nunca entendi o que isso realmente significava.
Elas estavam tão felizes jogando conversa fora como só as mulheres conseguiam fazer que eu até fiquei receio em chamar Luna, mas estava na hora do jantar e eu precisava conversar com mamãe sobre o torneio.
- Hey, Luna! Mamãe esta chamando para o jantar, despeça-se de Camila.
- Já estou indo! – Despedindo-se de Camila – Tchau Ca’ tenha cuidado ao voltar.
- Eu sempre me cuido Lu’, tchau – Ela deu um abraço e um beijo em Luna e se virou para mim sorrindo – Olá Thi’!
- Olá Camila – Eu senti a minha cara ficando vermelha.
- Ela gosta de você – Luna sussurrou no meu ouvido enquanto entrava em casa.
- Fica quieta! Ela só tem onze anos, é uma criança ainda.
- Ah, me desculpe Sor Varik – O Adulto. Você vai ficar ai parado ou nós vamos jantar?
- Vamos, mamãe já deve estar nos esperando. – Então nós seguimos até a cozinha onde mamãe já estava arrumando a mesa.