KOELLREUTTER music educator / new aesthetic
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KOELLREUTTER music educator / new aesthetic
Texto e trilha sonora: Tim Rescala.
Teatro de sombras sobre Hans-Joachim Koellreutter: link.
Estreia mundial. Libreto: Mário de Andrade.
Ópera completa cantada em português: link. Acompanhe pelo libreto: UFSC; livro "Poesias Completas" (págs. 487 a 552).
A relação música-literatura, tão presente em toda a obra de Mário de Andrade encerra-se com um Oratório Profano: CAFÉ apresenta-se como um libreto de ópera, cuja música, confiada pelo autor ao amigo e compositor Francisco Mignone, nunca foi terminada. Em 1970, Hans Joachim Koellreutter, atraído pela beleza do texto, retomou a proposta. Concluída a ópera foi proibida pela censura e só teve sua estreia em 13/setembro/1996, em Santos, comemorando os 450 anos da cidade.
Em artigo publicado em 1968, Mignone escreveu: “Mário deixou-me um libreto de ópera denominado Café. Obra muito sofisticada que não tive coragem de musicar. Desisti cedendo o libreto a Camargo Guarnieri, que nada fez. Soube, por Luiz Heitor, que um tal de Koellreutter havia musicado o libreto do Café. Ignoro se a ópera em questão existe. E não comento.”
Koellreutter começou a atuar no Brasil em fins de 1937, no Rio de Janeiro, quando Mário já estava em seu “exílio no Rio”, mas não há registro de encontro entre ambos. Luiz Heitor, que conhecera o músico alemão pouco após sua chegada, poderia ter feito a ponte entre ambos, o que não ocorreu. Não parece haver referência explícita de Mário a Koellreutter.
“A música contemporânea não visa, nem pode deleitar (no sentido de “distrair”). Senti na pele o problema como compositor, querendo musicar a obra Café, de Mario de Andrade. Comecei a fazê-lo há 20 anos. Escrevi o princípio e o fim, embatuquei no restante. Não tive técnica para compor esta obra de linguagem muito pessoal, muito forte, mas muito complicada para um compositor moderno. Deixei de lado, mas ela me puxou. Sabe, trago sempre comigo três livros: a Bíblia, o Fausto de Goethe e a terceira partitura da Arte da Fuga, de Bach. Pois nesses 20 anos andei também com a peça de Mario de Andrade, para mim a obra teatral brasileira que contém toda a tragédia humana brasileira.
No ano passado, decorrido tanto tempo, vi que já tinha condições de escrevê-la e em seis meses a terminei. O problema foi encontrar uma linguagem musical que complementasse o texto, que fosse inteligível para o público, porque a obra é toda um manifesto. Por outro lado, não podia escrever música como se fosse Ari Barroso. Eu não sou Ari Barroso. Ser o mesmo Koellreutter mas fazendo algo compreensível a todos, este o X da questão. Se consegui, não sei, isto vocês vão dizer quando a ouvirem.” - H. J. Koellreutter (entrevista a Danúsia Bárbara, Jornal do Brasil, 1/11/1975)
A ópera Café, elaborada entre 1933 e 1942 por Mário de Andrade, assim como seu romance homônimo, tem como assunto a crise econômica do final da década de 1920 e a revolução de 1930 no Brasil. Contudo, enquanto o romance assume sobretudo a feição de uma reflexão sobre os limites dessa revolução e o seu sentido histórico, a ópera, por seu lado, pinta não a revolução efetivamente ocorrida, mas a desejada: a revolução socialista. Assim, um dos problemas fundamentais de articulação formal que ela apresenta diz respeito à passagem da situação de miséria e impotência, em que se encontram os trabalhadores urbanos e rurais, para o ato revolucionário. Enquanto o romance visava a uma formulação do estado atual das relações sociais e de suas determinantes econômicas, na ópera, Mário se empenhou no sentido de buscar figurar e, ao mesmo tempo, a incitar essa passagem do mundo concreto e empírico ao mundo utópico do desejo.
"Eu me sinto mais recompensado de ter feito esta épica. Dei tudo o que pude a ela, pra torna-la eficaz no que pretende dizer, lhe dei mesmo com paciência os mil cuidados de técnica, pra convencer também pelo encantamento da beleza. Mas duma beleza que nunca perde o senso, a intenção de que devia ser bruta, cheia de imperfeições épicas. Nada de bilros nem de buril. Pelo contrário, muitas vezes a perversidade impiedosa da ideia definidora por exagero, fiz acompanhar da perversidade tosca da voluntária imperfeição estética." - Mário de Andrade, 15/dezembro/1942
A complexidade da relação entre estética e política ecoando na fala desesperada de uma das vozes coletivas: “Não agüento a fome/ não há mais perdão/ Deus dorme nos ares/ os chefes na cama/ Acordo no chão/ eu quero meu pão!”; mas também no lema – que não deixa de ser também um dilema − do próprio Koellreutter: “A arte é uma contribuição para o alargamento da consciência do novo ou do desconhecido e para a modificação do homem e da sociedade”.
Koellreutter - "Eu peço para não aplaudir (o espetáculo). O público, em vez disso, deve refletir os problemas que o poema traz".
O texto não representa a vitória dos operários revolucionários? Koellreutter - Porque é uma vitória que não é forçosamente uma vitória. É uma vitória, uma cena histórica, um momento de história, mas que a Mãe (personagem principal da ópera) diz: O importante não é a revolução. O importante é a paz. É pensar sobre força, amor, trabalho e paz. O importante é o humano. Assim eu interpreto. Entrevista ao jornal santista "A Tribuna", 13/09/1996
Esta ópera segue tendências contemporâneas de linguagens composicionais como o dodecafonismo, o atonalismo e uso de elementos aleatórios, além de técnicas inventadas pelo próprio Koellreutter, como a planimetria (uso de diagramas dispostos em forma de círculo, que permitem a leitura em várias direções, resultando em diferentes melodias a cada apresentação).
Em vez de motivos e de temas, tem unidades estruturais, que eu uso numa linguagem em que o silêncio, aquilo que não soa, tem a mesma importância que o som. E, mesmo dentro desta técnica, eu uso o dodecafonismo. A obra não é dodecafonista, mas tem trechos que usam esses princípios, porque a série dodecafônica é um elemento de unificação formal que é muito importante para qualquer música, para qualquer composição moderna. (...) [a ópera]... é parcialmente atonal. É parcialmente improvisação e parcialmente composição. A parte composta é atonal, e a parte dodecafônica também é atonal e composta. E a improvisação naturalmente é uma tonalidade livre, pode-se dizer. Ela depende do clima, do ambiente, de cada cena. Uma parte da parte composta ficará a cargo da orquestra sinfônica e a improvisada eu irei reger. (Koellreutter, em entrevista para A Tribuna, 1996)
Koellreutter afirma que seus diagramas (planimetria) foram inspirados no jogo de futebol, em especial pela mistura de disciplina e improvisação dos jogadores da seleção brasileira.
...improvisação e disciplina. Seria, se você quiser, tonalismo ou dodecafonismo e atonalismo. Eu vi essa mistura no jogo e, no fundo, compor e fazer música também é um jogo. Isso é interessante também sob o ponto de vista formal. Mistura o rigor da disciplina com a liberdade que é necessária quando se dialoga com os outros. No Café, por exemplo, tem música popular com a presença de um conjunto regional. É atonal logo no primeiro ato. (Koellreutter, em entrevista para A Tribuna, 1996)
Enredo Composta de três atos e cinco quadros, Café retrata a miséria dos trabalhadores depois da queda do preço internacional do café, decorrente da Crise de 1929, a partir de diferentes enfoques: no armazém de um porto de exportação de café, em uma fazenda cafeeira, em uma sessão parlamentar, em uma estação de trem que leva das proximidades da fazenda até a grande cidade e em um cortiço urbano. Afastando-se do realismo e do localismo, a ópera termina com uma revolução socialista em tom apoteótico.
- XXI Bienal de Música Brasileira Contemporânea 2015 - Uma ópera criada em Santos - Café de Mário de Andrade: estudos sobre a ópera-coral - Mário de Andrade no Café - H. J. Koellreutter e Mário de Andrade: um contraponto (PDF) - Épica e Engajamento na ópera Café, de Mário de Andrade - Café, de Mário de Andrade: tensões e proximidades no pensar o Brasil (PDF) - Um poeta verdadeiro conta seu sonho: Teatro e Revolução em Café, de Mário de Andrade - O Caleidoscópio de Olhares em Café, de Mário de Andrade (PDF) - O café de Mário de Andrade, Música e Poesia (PDF) - Café: o trajeto da criação de um romance inacabado de Mário de Andrade - Aromas especiais no Café de Mário de Andrade - Café: o romance inédito de Mário de Andrade - Café as múltiplas faces de um romance - Livro Café: Magazine Luiza; Mercado Livre; Estante Virtual; Zoom.
"Quando uma música agrada, é porque alguma coisa não está no lugar.A música tinha que desagradar" #Koellreutter "A música pode ser difícil, mas tem que ser viável." César Guerra-Peixe #guerra-peixe #dodecafonismo #nacionalismo #musica #composiçao #Brasil