Soundtrack para uma quarentena #04: L-Ali e Vulto. – Lista de Reprodução
“Lista de Reprodução”, do rapper L-Ali e do produtor VULTO. não é um álbum fácil. É duro, agressivo, e amargo. É preciso ter paciência e desenrolar as primeiras camadas. E saber que as camadas seguintes não deixam de ser amargas também.
Os meus primeiros contactos com a dupla foram através de álbuns separados – o “Marcha”, do VULTO. e Secta (2015), e o “Baço”, do L-Ali, produzido por Pesca (2016). Todos estes nomes, pertencentes à Colónia Calúnia, que é já de si conhecida por transportar às costas a bandeira do rap industrial e, quiçá, noise-hop em Portugal. Para os não iniciados, esses dois sub-géneros musicais são exatamente aquilo que os nomes implicam – ritmos agressivos, pesados, ruidosos até, vozes pesadas, e ritmos e melodias cacofónicas.
E será exatamente por isso que esta “Lista de Reprodução” se revela tão única. Podemos comparar a produção entre este álbum e outros anteriores do VULTO., e ver que há aqui, não exatamente uma ponte com sons mais, vá, “comuns”, mas um assumir de uma contemporaneidade, que influencia melodias, flows, ideias. O “Marcha” era, de facto, ruidoso e cacofónico; aqui, já há um aproximar a um trap moderno, mas não menos experimental. As samples de jazz distorcido complementadas pelo baixo pesado e snares agressivos na malha “Mosa Rota” (uma das mais memoráveis do álbum) são prova direta disso.
Mas as rimas de L-Ali são aqui um instrumento de ritmo tão importante quanto a batida. Não se trata de um mumble rap vazio, muito pelo contrário. As letras estão disponíveis on-line, e recomenda-se vivamente o acompanhamento delas. Exatamente porque são herméticas, rapidíssimas, e confusas até. Os significados esses, por outro lado, ainda mais herméticos são, revelando-se nas entrelinhas: Pontapés de bicicleta / Nisto eleva métrica / É dom ser bom de verso e vice versa / Ouviste esta? / Se fazes com gosto é só isso que interessa (“Refrães de Bolso”). Parem, e leiam estas linhas mais uma vez ou outra. Vale a pena.
É exatamente esta cadência (flow, como diz a malta da cena) que torna este rapper atrativo. Saltita entre ritmos e estruturas como quem olha para o lado, enquanto brinca com palavras e sons, sem perder por isso uma linha narrativa ou temática concreta. A poesia é rápida, e não deixa por isso de ser poesia: Vejo-te a contar contido / Carrossel de rima dão-te 100 motivos / Para viveres mesmo sem motivos / Coragem sempre tive / A lidar com seres vivos. (”Pingado”)
Na verdade, magoa tirar umas linhas do contexto. Do princípio ao fim de cada música, L-Ali cria uma tensão extraordinária com estes jogos de palavras e rimas arriscadas. Longe vão os tempos das rimas A-B-A-B, e a malta da Colónia Calúnia sabe-o bem. Cada sílaba conta, e cada música tem uma energia e lógica interna. Aliás, este é, supostamente, um álbum desse culto que se diz editora (ou será antes o contrário?). Mas a força deste rapper e deste produtor transparecem em cada compasso.
Não é algo fácil de se ouvir. Não seria Colónia Calúnia se o fosse. As sensibilidades mais ambitent-trap-industrial aproximam as malhas de 2020 (embora tenham saído em 2018. Muito à frente), mas ainda assim há que ter atenção aos pormenores. É olhar o caminho, ou tropeçar nas fendas.
JK, 20/03/2020














