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Oásis na cidade
Lisboa
Foto: M. C.
Teteu em Bacupari, Mostardas - RS.
07.12.25
pelos olhos da Mari Z.
08.10.25
Lagoa do Japonês
As Lágrimas de Isaías
O arquipélago dos Açores, no século XVIII, não era apenas um ponto de escala para os galeões carregados de especiarias; era um laboratório de isolamento e estratificação social. Na Ilha Terceira, a terra parecia pulsar com um resto de fogo vulcânico, oculto sob camadas de um verde tão denso que roçava o negro. Angra do Heroísmo, com as suas fachadas barrocas e ruas de calçada rigorosa, tentava impor uma ordem europeia sobre um solo que, de tempos a tempos, tremia para recordar aos homens a sua insignificância.
Nos arredores desta cidade de pedra e bruma, erguia-se a Quinta dos Cedros. Era um domínio de fausto opressivo, onde as árvores que lhe davam o nome pareciam sentinelas fúnebres. Dom Lourenço da Silveira, o patriarca, governava a propriedade com a mesma dureza com que o basalto resiste ao mar. Para ele, a ordem do mundo era divina e imutável: o nobre comandava, a terra servia e o escravo era a ferramenta viva que unia ambos.
Nesta arquitetura de sombras e privilégios, Leonor da Silveira era a joia mais frágil e vigiada. Criada entre sedas pesadas e o som monótono dos terços, a sua alma era uma divisão vazia, aguardando que outros a preenchessem. O seu casamento arranjado com Dom Rodrigo, um primo cuja alma era tão árida quanto o deserto, era visto não como uma união de afetos, mas como uma transação de glebas e títulos. Leonor aceitava o seu destino com a docilidade de quem foi educada para acreditar que o desejo era um pecado e a obediência a única virtude feminina.
Contudo, sob a superfície de porcelana da Quinta dos Cedros, movia-se uma humanidade que a nobreza tentava ignorar. Isaías era um homem de uma força telúrica. A sua pele tinha o brilho da obsidiana polida e os seus olhos guardavam uma inteligência que a sua condição de escravo deveria ter obliterado. Ele não era apenas um trabalhador nas vinhas ou nos pomares; era o homem que conhecia os segredos do solo, que sabia quando a montanha ia suspirar e que compreendia a linguagem das águas.
O encontro entre Leonor e Isaías não foi um evento de salão, mas um choque de naturezas. Aconteceu num entardecer em que a bruma desceu sobre o jardim dos cedros com tal intensidade que os limites entre o mundo físico e o onírico se dissiparam. Leonor, fugindo por momentos ao olhar asfixiante da sua aia, encontrou Isaías a podar as roseiras que rodeavam a fonte decrépita da propriedade.
Não houve palavras imediatas. Houve o reconhecimento de duas solidões distintas que se espelhavam. Leonor viu em Isaías uma liberdade de espírito que ela, na sua gaiola de ouro, nunca possuíra; Isaías viu em Leonor uma alma faminta de humanidade. O amor deles nasceu como nasce a vegetação nas fendas da rocha: sem permissão, alimentado pela humidade do segredo e pela urgência do proibido.
Mas na Quinta dos Cedros, as paredes tinham ouvidos e as flores tinham olhos. Brígida, a aia de Leonor, era uma mulher cujo coração fora destilado em amargura. Ela era a extensão da vontade de Dom Rodrigo, uma sombra que se fundia com os reposteiros de veludo. Brígida não compreendia o amor; compreendia apenas a hierarquia e o poder que advinha da denúncia.
Escondida entre as hortênsias, cujas flores azuis pareciam globos oculares sob o luar, Brígida testemunhou o impensável. Viu a mão pálida de Leonor tocar o rosto de Isaías; ouviu o murmúrio de uma promessa que desafiava a Coroa, a Igreja e o Sangue.
— Só poderemos viver juntos se fugirmos, Isaías — sussurrou a morgada, a voz quebrada como cristal. — Este mundo é uma tumba para nós.
— Fugiremos — respondeu o escravo, a voz profunda como o som do mar nas grutas. — Para o interior da ilha, onde o mato é mais denso que a lei dos homens.
Brígida não esperou pelo fim da conversa. Correu para os aposentos de Dom Rodrigo, a sua denúncia queimando-lhe a língua como brasas. O escândalo era uma ferida no orgulho da linhagem dos Silveira. Para Dom Rodrigo, a traição da esposa não era um crime de coração, mas uma depreciação da sua propriedade privada.
A reação foi imediata e brutal. Dom Rodrigo não convocou a justiça oficial, mas a fúria dos seus próprios recursos. Os cães de caça, feras alimentadas com carne crua e treinadas para o abate, foram soltos. Cavalos de guerra galoparam pela calçada da quinta, as suas ferraduras arrancando faíscas da pedra basáltica.
Isaías, avisado pelo instinto de quem vive em constante perigo, fugiu em direção ao interior. O cenário da ilha Terceira transformou-se, para ele, num pesadelo gótico. As matas de laurissilva, com os seus troncos retorcidos e cobertos de musgo, pareciam braços de condenados tentando agarrá-lo. As samambaias gigantes erguiam-se como sentinelas fantasmagóricas no meio da neblina.
Ele correu até os pulmões pedirem clemência e o suor se misturar com a humidade da noite. O som dos cães aproximava-se, um coro de latidos que parecia vir de todas as direções ao mesmo tempo, amplificado pelo eco das caldeiras vulcânicas. Isaías chegou a uma zona alta e desolada, perto da freguesia dos Altares, onde a terra se abria em vales verdes de uma melancolia profunda, semelhantes a paisagens nórdicas transportadas para o meio do Atlântico.
Exausto e percebendo que o cerco se apertava, Isaías deixou-se cair de joelhos sobre a turfa húmida. A injustiça da sua vida, a perda brutal de Leonor e a compreensão de que o seu amor fora o gatilho para a sua própria destruição colapsaram numa agonia que o corpo humano mal consegue conter.
Diz a lenda que Isaías não chorou como um homem comum; chorou com a força de uma ilha. As suas lágrimas, carregadas com o peso de séculos de servidão e a pureza de um afeto impossível, não se perderam no solo. Elas começaram a brotar da terra com uma insistência sobrenatural. Onde cada lágrima caía, o solo abria-se, vertendo uma água escura e gelada, como se o interior da Terra estivesse a oferecer um refúgio líquido para a sua dor.
Em poucos minutos, uma lagoa começou a formar-se diante dele. Não era uma água límpida, mas um espelho de obsidiana, negro e insondável, refletindo apenas o céu sem estrelas e o desespero do homem.
Quando os cavalos de Dom Rodrigo finalmente romperam a barreira do mato e os cães cercaram a clareira, Isaías olhou uma última vez para o horizonte, onde imaginou o rosto de Leonor. Com um grito que silenciou a caçada, ele correu para o centro da lagoa que ele próprio criara. As águas negras engoliram-no sem deixar um círculo na superfície.
A Lagoa do Negro, como ficou conhecida, permanece até hoje no coração da Terceira como um monumento gótico à tragédia da escravatura e à rebelião do coração. Os colonos que por ali passavam nos séculos seguintes evitavam fixar o olhar nas suas águas paradas.
Diz-se que, nas noites em que a lua cheia se posiciona exatamente sobre o centro da lagoa, a superfície de obsidiana revela segredos que a história oficial tentou apagar. O rosto de Isaías, sereno mas severo, emerge das profundezas, vigiando aqueles que ainda hoje tentam dominar a vontade alheia.
Leonor, por sua vez, nunca recuperou. Viveu o resto dos seus dias nos aposentos da Quinta dos Cedros, uma sombra pálida que se recusava a falar. Mas os criados diziam que, quando o vento soprava do norte, trazendo o arrepio húmido dos Altares, ela se aproximava da janela e respondia com um sussurro inaudível. O vento carregava o lamento dela até à lagoa, e a lagoa respondia com o bater rítmico da água contra as margens de basalto.
A lenda da Lagoa do Negro é o espelho gótico da alma da ilha: um lugar onde o verde esconde o fogo, onde o passado se recusa a morrer e onde o amor, mesmo quando afogado, encontra uma forma de se tornar eterno através do milagre surreal da dor transformada em paisagem.