Heróis Demais – Laura Restrepo
Uma boa surpresa!!! Uma escritora colombiana que eu não conhecia e que apresenta um livro muito bom! Através de uma ida e volta no tempo, contando sua história para o filho, uma ativista colombiana que atuou na Argentina junto à resistência ao golpe militar e acaba tendo um filho com um dos chefes do movimento. Mas seu filho quer revê-lo quando chega a adolescência, e eles vão a Argentina em busca desse pai.
“Não é a mesma coisa bolar um golpe e golpear as bolas.... Eu preferia que Ramón fosse um criminoso mesmo – disse – E que tivesse pegado uma condenação de muitos anos. Assim, pelo menos, eu poderia acreditar que não me procurou porque não podia, porque estava preso e não permitiam. .. Alguém que eu soubesse que a primeira coisa que faria quando ficasse livre seria procurar esse filho que tinha perdido....”
“Por puro acaso topou com um parágrafo que talvez encerrasse a única resposta possível para a pergunta impossível: por que em todos esses anos Ramón não tinha procurado Mateo? ‘Há coisas que se fazem porque sim’ – dizia Schlink -, ‘porque a consciência adormece, se anestesia, quer dizer, não porque tomamos esta ou aquela decisão, mas porque o que decidimos é precisamente não tomar nenhuma, como se a vontade estivesse sobrecarregada pela impossibilidade de encontrar uma saída e decidisse parar de pedalar e rodar em câmera lenta enquanto o caminho o permite.’”
“Lorenza acreditou ter encontrado o tom que ia permitir que ela escrevesse, agora sim, esse capítulo de sua história. Precisava enfim pôr em palavras essa história até agora marcada pelo silêncio. Sempre soubera que cedo ou tarde teria que encarar a tarefa, não havia mais remédio, porque passado que não foi amansado com palavras não é memória, é espreita. O problema tinha sido como conta-lo, e agora pensava tê-lo descoberto: íntimo e simples, como uma conversa a portas fechadas entre duas mulheres que recordam. Sem heróis, sem adjetivos, sem slogans. Em tom menor. Sem entrar nos acontecimentos, ficando apenas no eco, para envolvê-lo em papel de seda, como aos lençóis, para ver se por fim deixava de latejar e pouco a pouco ia se tornando amarelado.”