Sendo bem sincera, eu não esperava muita coisa de alguém para me envolver com ele. Bastava entender de teatro, saber que minha carreira é a coisa mais importante do mundo, a melhor ganhadora de Oscars era a minha mãe e de Tonys era a minha tia, Idina Menzel era Deus, junto com Barbra e Anaïs Mitchell, que baseball poderia ser um esporte chato, mas minha família valorizava mais do que qualquer coisa, não existe melhor rainha na Disney que a Elsa e que um dia eu iria batizar uma legião de crianças com nomes de Frozen já que minha irmã não deu a mínima para a minha sugestão de nomear Morgan como Olaf. Também teria que entender que eu tenho a necessidade de viver o drama, sentir em cada vibração do meu corpo, que choro com uma facilidade extrema, que se tiver uma oportunidade de fazer uma cena, eu irei, que se tiver uma oportunidade de eu me vestir de uma das princesas Disney, eu vou me vestir, a mesma coisa é válida para figurinos de personagens da Broadway que eu ame muito. E se alguém falar mal de Hadestown acabou o mundo pra mim.
Viu? Sou uma pessoa de gostos muito simples e não é nada absurdo demais para pedir de alguém com quem iria encenar cenas românticas, mas na vida real.
Mas misteriosamente, não tinha acontecido de me alguém conseguir preencher todas as exigências da minha lista. O que estava tudo bem, sabe. Era como Aurora dizia, éramos princesas e merecíamos o melhor. Okay, ela acrescentava um "podemos nos dar ao luxo de apoiar o apocalipse e a epidemia de sapinho entre as outras pessoas, mas não nos deixar contaminar", mas essa parte eu não achava assim muito adequada. Em todo caso, estava confortável em viver em meu pequeno mundo de atriz promissora com agenda corrida, fugindo uma vez ou outra da presença de Laura Porter e todo o seu ar de diva e de Gemma Motta e sua certeza de que é preciosa demais para esse mundo, mesmo que nas audições da vida acabássemos esbarrando. E então aconteceu.
Naquele ano, iríamos encenar no teatro da escola Casablanca, apenas um dos clássicos insuperáveis e imbatíveis. Obviamente que me inscrevi para protagonista e acompanhei as audições para o papel de protagonista masculino com atenção, afinal seria com quem iria contracenar. E minha nossa… Que vergonha alheia eu senti.
— Mas será que é possível com Hollywood aqui do lado e não tem uma alma viva nessa escola capaz de protagonizar uma peça de escola? — Murmurei aborrecida ao professor que cuidava da peça, que estava me ignorando deliberadamente desde a segunda vez que comentei sem perder o fôlego como o segundo candidato tinha que ter vergonha de aparecer para a audição sem ter o texto decorado previamente.
— Obrigado pela sua presença. Os nomes dos selecionados estarão no mural de avisos no pátio entre as duas escolas. — Ele dispensou o desafinado, me fazendo bater o pé impaciente pelo próximo. Mas o professor começou a recolher os papéis em cima da mesa, pronto para ir embora. — Por hoje, é só.
— Espera, o quê? — Perguntei com a voz puxando um agudo em surpresa. — Mas ninguém foi bom o suficiente.
— Senhorita Sterling, isso é teatro de escola, não uma montagem off-Broadway. Quem conseguir decorar o texto melhor, vence. — Ele me disse, se levantando e saindo do auditório. O fuzilei com os olhos antes de sair muito ofendida atrás dele, parando no meio de uma confusão no corredor dos meninos da St. Jude's.
Holy shit. Holy shit. Holy shit. Holy shit. Holy shit. Holy shit. Holy shit. Holy shit. Holy shit!
Era uma cena que só não me assustava mais porque eu era uma Cravalho-Sterling e estava acostumada com brigas épicas com direito a gritaria, dedo na cara e alguém com a mão no coração dizendo que iria infarta – geralmente era eu e meus avós quem fazíamos isso. Andei vagarosamente em direção do som, pensando que era algo que Aurora iria amar ver e me perguntei se eu filmasse e mandasse para ela iria contar como um presente. Quando estava a uma distância segura, me esforcei para entender o que estava acontecendo.
— RETIRA, RETIRA O QUE VOCÊ DISSE, SACO DE LIXO. — O mais forte dos dois gritava para o outro garoto. Ele tinha olhos azuis e a expressão de quem poderia acabar com alguém só com o olhar.
— Tá ofendido porque, Fitzwilliam? Mexi com teu macho, foi? — O garoto menor debochava, mas ao mesmo tempo recuava, como se soubesse que iria perder feio para o garoto de olhos azuis. — Ou esse show todo é porque tu quer comer a piranha da irmã dele?
Lennon Fitzwilliam era conhecido como o capitão da equipe de natação. Fora isso, também tinha umas medalhas por fora por ser excelente em soletração, fora todo o currículo por serviços prestados a comunidade. E apesar de sua cara de durão, todo mundo sabia que era um rapaz pacífico e que só se erguia quando achava que as coisas estavam muito erradas. Então era compreensível quando ele simplesmente parou, olhou para a cara do garoto, arqueando uma sobrancelha antes de respirar fundo e dizer:
— Olha só… você já era um babaca por ter chamado de viadinho uma pessoa que nem está mais nessa escola para se defender, fora o comportamento completamente homofóbico, que é inaceitável em plenos anos 40. — Ele esclareceu, como se estivesse dando instruções e satisfações do que estava por vir. — Daí para completar você foi lá e cometeu slutshamming contra Valkyrie, que além de ser a irmã de um dos meus melhores amigos, também não está presente para poder dizer na sua cara que merece respeito e que você não tem o direito de dizer o que ela tem que fazer ou não. — Então suspirou, lançando um último olhar para o garoto. — Não tenho outra saída que não encher sua cara de porrada.
E assim que anunciou, Lennon meteu um soco de baixo para cima no queixo do outro garoto, fazendo um som alto de osso contra isso. Todo mundo no corredor gritou, é claro. Meu grito foi o mais afinado e dramático, preciso ressaltar, enquanto colocava as duas mãos sobre o peito e armava a minha melhor expressão de chocada. Mesmo que na minha cabeça se desenrolasse outro cenário, completamente diferente.
— Why when you see boys fight does it look so horrible, yet... Feel so right? I shouldn't watch this crap, that’s not who I am, but with this kid… Damn! — Até mesmo o instrumental estava rolando na minha cabeça, enquanto os versos de Fight For Me saíam em um leve murmúrio de meus lábios, vivendo a terceira cena de Heathers com toda a precisão e atualização possível. — Hey, mister no-name kid, so who might you be? And could you fight for me? Hey, could you face the crowd, could you be seen with me and still act proud? — Sim, estava sendo atacada por todos os anos de meus hormônios sendo reprimidos porque não encontrava a pessoa certa, mas naquele momento eles se renderam para o fato de que o garoto estava lutando, literalmente, por uma causa nobre. E se todos os “foi porque mereceu” que Hope emitia quando bateu em garotos babacas em sua vida me ensinaram algo foi que algumas vezes as pessoas podiam sim meter uns pontapés e socos em gente que não era legal e nunca tinha ouvido falar de ser bom e gentil. O garoto que apanhava de Lennon não sabia mesmo ser minimamente civilizado, então merecia. E, minha Elphaba do céu, ele estava mesmo aprendendo uma lição pelas mãos de Fitzwilliam. Minhas pernas bambeavam só de assistir. — Hey, could you hold my hand and could you carry me through no man's land? It's fine if you don't agree, but I would fight for you, if you would fight for me. — Não lutar literalmente. Eu era mais do tipo que gritava, corria e subia em algo que me deixasse mais alta do que o normal. Se Hope estivesse em casa, gritaria e choraria até ela fazer alguma coisa, fosse por arrombamento ou apenas uma barata na sala. Mas era um mero detalhe e eu estava muito emocionada em como os socos eram sincronizados com minha cantoria. — Let them drive us underground. I don't care how far. You can set my broken bones and I know cpr. — E nessa hora eu pude jurar que Fitzwilliam ergueu a cabeça em minha direção e me olhou como se perguntasse o que eu estava fazendo, mas então era a brecha que o garoto esperava e foi acertado em cheio no nariz. Fiz uma careta de dor, me encolhendo como se tivesse alguma chance do sangue chegar até mim e meu conjunto rosa-salmão. — Well, whoa, you can punch real good. You've lasted longer than I thought you would. So hey, mister no-name kid, if some night you're free, wanna fight for me? If you're still alive. I would fight for you, if you would fight for me. — A briga virou uma confusão de braços, até que um inspetor chegou e separou os garotos. Eu era a única garota naquele corredor inteiro, vestida de rosa ainda por cima, mesmo que o uniforme fosse azul e branco, com um passe que já estava vencido. Me mandaram seguir para meu caminho logo e que não tinha mais nada para ser visto ali.
Holy shit. Holy shit. Holy shit. Holy shit!
Todo o barraco se disseminou, os corredores se esvaziando. E eu deveria ir para a minha ala, atravessando o pátio e entrando na Constance Billard para o resto das minhas aulas. Mas o que eu fiz mesmo foi esperar do lado de fora da secretaria, dizendo que poderia depor a favor de Fitzwilliam se fosse necessário, mas apenas olharam para a minha cara e me perguntaram se eu não tinha mais nada para fazer. Ao dizer que não, rolaram os olhos, me ofereceram café e então fiquei sentada esperando por Lennon. Quando ele apareceu, ajustei minha saia dando alguns tapinhas para desamassar.
— Lennon Fitzwilliam, meu nome é Angelina Belle Cravalho-Steling, nome artístico Angie Sterling, e gostaria de dizer que o que precisar de apoio para sua defesa quanto ao caso do corredor, eu sou uma testemunha ocular favorável para o seu caso, além de que super admirei a forma sincronizada dos seus movimentos, aposto que veio de seus anos de natação, e que é algo muito difícil de se realizar levando em conta as condições e o uniforme com blazer de vocês. — Disparei tudo de uma vez, o fazendo piscar algumas tantas vezes, como se estivesse assimilando aquelas informações todas.
— Espera… Eu lembro. Você era a garota cantando Heathers enquanto eu estava brigando. — Ele me disse, apertando um lenço contra o nariz, ainda, franzindo levemente a sobrancelha enquanto fazia as contas.
— Ah… Eu sempre canto quando estou nervosa. — Admiti, ao mesmo tempo em que ocultava o fato de que eu cantava sempre que achava que estava vivendo algo digno de um palco, e não perdia a chance de treinar um pouco do meu talento nato. E então algo me atingiu diretamente no cérebro, fazendo tudo brilhar como uma manhã de primavera. — Espera, você conhece esse musical?
— Ahn… Meu pai produziu a versão ao vivo que foi filmada para o canal da nossa família. — Ele admitiu, tirando o lenço do nariz, com cuidado, checando para ver se tinha estancado o sangramento. — E apesar de todo o contexto absurdo, acho um bom entretenimento. Tirando as partes de morte gratuita. — Ele acrescentou de última hora, como se estivesse julgando a trama.
Meu coração até bateu mais forte por ele saber mesmo do que estava falando.
— Você gosta de musicais! — Exclamei, animada.
— Gosto de tudo que envolva teatro… Só não sou bom em atuação. — Ele confessou, sorrindo sem graça, o que eu achei extremamente adorável.
— Ah, mas tudo é possível com empenho. Se você tivesse incentivo, convívio e ajuda de alguém que se dedica a anos a isso, poderia ter um resultado muito positivo. — Afirmei, me balançando em meus pés, querendo contar que eu atuava desde que tinha dois anos e me balançava na janela de casa cantando a música da Cinderella. Então uma ideia passou pela minha cabeça. — Por que não se inscreve para a peça da escola? Casablanca pode ser seu primeiro estudo em atuação.
— Eu não sei… — Lennon me respondeu, me olhando com curiosidade. — Por que gostaria tanto que eu atuasse?
— Porque eu sinto que você pode ser uma descoberta promissora. E eu geralmente não falho com meus instintos. — Afirmei, emanando toda a minha sensatez.
O garoto me olhou desconfiado por alguns segundos, antes de menear a cabeça.
— Tudo bem, posso pensar no caso. Quais os papéis que estão procurando?
— Rick Blaine.
— Mas é o protagonista!
— Eu sei, não é? — Comentei, agitando o ar com uma das mãos. — Mas vai ser moleza. E eu posso ajudar se quiser, eu vou ser parte do elenco. Em um papel importante. — Nem tinha tido a confirmação ainda, mas de certo seria a Ilsa Lund.
Lennon pareceu refletir, antes de me dizer:
— Se eu não tomar uma suspensão, eu irei me inscrever. Mas agora meio que preciso passar na enfermaria. Sabe… — E então apontou para o próprio nariz, me fazendo balançar a cabeça em concordância.
— Okay, okay. Mas qualquer coisa, eu estou sempre no clube de teatro. E no glee club. — Afirmei, antes de vê-lo fazer menção a se afastar, antes de oferecer a mão para mim e apertar com suavidade meus dedos.
— Foi um prazer conhecê-la, Angie Sterling. E obrigado pelos elogios e… Ideias. — Ele me disse, antes de fazer um gesto curto com a cabeça em minha direção.
— Só fiz o que meus instintos disseram. — Respondi em voz baixa, sentindo que estava derretendo por dentro quando aqueles olhos azuis se viraram em minha direção uma última vez.
E então ele foi embora cuidar de seus ferimentos, e fiquei rindo comigo mesma, nas nuvens, pensando que talvez tivesse encontrado uma nova chance de um bom co-estrela. E alguém que fizesse meu coração palpitar com a possibilidade de ser a minha primeira paixão. E estava já completamente apaixonada pela ideia de me apaixonar. Quanto tempo seria o suficiente para perguntar se ele era solteiro e gostava de meninas?










